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Outro dia peguei um resfriado. E me ouvi dizendo que estava “destruído”. Meu avô provavelmente reservaria esse adjetivo para quem voltasse de uma guerra, perdesse uma colheita ou quebrasse uma perna. Eu o empregava para descrever dois espirros e uma dor de garganta.
Não escrevo isto do alto de nenhuma superioridade semântica. Também sou vítima da epidemia. Desconfio de que vivemos uma curiosa crise econômica da língua portuguesa. Não da gramática. Essa sempre sobreviveu às nossas barbaridades. Falo de uma espécie nova de inflação.
Quando um país imprime dinheiro demais, sua moeda perde valor. Quando uma sociedade imprime superlativos demais, certas palavras deixam de comprar aquilo para o que nasceram.
Todos os dias chegam à minha caixa de e-mails manchetes com um selo vermelho: URGENTE. Abro imaginando uma guerra, a renúncia de um presidente, a chegada de ETs. E descubro que uma votação foi adiada para a semana seguinte. Era importante. Urgente, definitivamente, não era.
Foi Barack Obama quem me fez perceber que essa inflação semântica talvez seja menos inocente do que parece. Depois de mais um massacre numa escola americana, ele apareceu diante das câmeras para falar ao país. Esperava-se o repertório habitual: tragédia inimaginável, horror indescritível, um país devastado. Obama fez outra coisa.
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Disse que aquilo era profundamente “triste”, mas acrescentou que não era “surpreendente”. Nunca esqueci esse uso das palavras. Porque, sim, o massacre era devastador, mas também era previsível. Resultado de um problema que os Estados Unidos insistem em não enfrentar. Naquele instante, escolher o adjetivo correto não foi preciosismo de escritor. Foi gesto político. E uma forma de impedir que a emoção escondesse a responsabilidade.
Desde então comecei a notar que essa inflação escapou das redes sociais e invadiu a vida. Hoje ninguém gosta muito de um disco. Ele é uma obra-prima. Ninguém recomenda um restaurante honesto. É uma experiência arrebatadora. Ninguém encontra uma ideia interessante. Ela muda sua vida. Ninguém faz um bom trabalho. É simplesmente genial.
Outro dia meu filho de 13 anos decretou: “Haaland é um monstro. Um gênio.”
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Sorri. Haaland talvez seja o atacante mais “efetivo” do futebol contemporâneo. Faz gols com regularidade industrial. Justifica o salário. Mas eficiência e genialidade nunca foram sinônimos. Um relógio suíço é eficiente. Um liquidificador pode ser eficiente. Ronaldinho Gaúcho era outra coisa. Quando tocava na bola, parecia ampliar o próprio futebol. Inventava soluções que ninguém sabia que existiam até vê-las acontecer. Não apenas resolvia uma jogada. Mudava a ideia do que era possível fazer com uma bola. A palavra “gênio” nasceu para esse tipo raro de espanto. Não para qualquer excelência.
Amo as palavras. Justamente por isso não gostaria de condená-las a uma prisão, nem transformá-las em peças de museu. Palavras vivem. Viajam. Trocam de roupa. Mudam de significado. Ainda bem. O que me preocupa não é que mudem. É que quase todas pareçam caminhar na mesma direção. Sempre para cima. Sempre para o máximo.
Talvez a doença da nossa época não seja a falta de palavras. Talvez seja a perda da escala. E penso em Beethoven. Que não escrevia apenas notas. Escrevia intensidades. Pianíssimo. Piano. Mezzoforte. Forte. Fortíssimo. Imagine uma orquestra executando a Nona Sinfonia inteira em fortíssimo. Durante alguns minutos seria impressionante. Depois seria apenas barulho. A emoção não mora no volume. Mora na distância entre os volumes.
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Talvez com a linguagem aconteça o mesmo. As redes sociais não inventaram o exagero. Shakespeare exagerava. Nelson Rodrigues exagerava. Eu exagero quando pego um resfriado. A diferença é que, antes, o exagero era um recurso. Hoje parece um protocolo. O algoritmo não recompensa nuances. Prefere extremos. Não gosta de “vale a pena conhecer”. Prefere “você não vai acreditar”. Não gosta de “interessante”. Prefere “histórico”. Não gosta de “bom”. Prefere “genial”.
As palavras, coitadas, apenas aprenderam onde havia comida. Às vezes penso que elas não estão morrendo. Estão gastando a sola. Gastamos “genial”, “histórico”, “surreal”, “urgente” e “extraordinário” como quem imprime dinheiro sem lastro. E toda moeda excessivamente emitida acaba comprando menos do que comprava antes.
Tenho saudade de quando um livro podia ser apenas excelente. Um filme podia ser apenas bonito. Uma conversa podia ser apenas agradável. Não porque fôssemos menos apaixonados. Mas porque ainda guardávamos algumas palavras para os raríssimos momentos em que elas realmente fariam falta.
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Ainda penso naquela frase de Obama. “É triste. Mas não é surpreendente.”
Talvez escrever (e até viver) seja justamente isso: resistir à tentação do adjetivo fácil. Não para diminuir o mundo. Mas para que, quando ele finalmente nos oferecer um momento de verdadeira genialidade, de verdadeira urgência ou de verdadeira beleza, a língua ainda tenha fôlego para reconhecê-lo.
Rafael Dragaud é roteirista, diretor do show da turnê “Tempo Rei”, de Gilberto Gil, trabalhou na Globo por mais ou menos 30 anos como diretor-executivo do núcleo de variedades da emissora, responsável por programas, como “Conversa com Bial”, “Mais Você”, “Encontro”, “É de Casa” e “Altas Horas”.
Domine o fato. Confie na fonte.
15 marcas que você confia. Uma assinatura que vale por todas
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Outro dia peguei um resfriado. E me ouvi dizendo que estava “destruído”. Meu avô provavelmente reservaria esse adjetivo para quem voltasse de uma guerra, perdesse uma colheita ou quebrasse uma perna. Eu o empregava para descrever dois espirros e uma dor de garganta.
Não escrevo isto do alto de nenhuma superioridade semântica. Também sou vítima da epidemia. Desconfio de que vivemos uma curiosa crise econômica da língua portuguesa. Não da gramática. Essa sempre sobreviveu às nossas barbaridades. Falo de uma espécie nova de inflação.
Quando um país imprime dinheiro demais, sua moeda perde valor. Quando uma sociedade imprime superlativos demais, certas palavras deixam de comprar aquilo para o que nasceram.
Todos os dias chegam à minha caixa de e-mails manchetes com um selo vermelho: URGENTE. Abro imaginando uma guerra, a renúncia de um presidente, a chegada de ETs. E descubro que uma votação foi adiada para a semana seguinte. Era importante. Urgente, definitivamente, não era.
Foi Barack Obama quem me fez perceber que essa inflação semântica talvez seja menos inocente do que parece. Depois de mais um massacre numa escola americana, ele apareceu diante das câmeras para falar ao país. Esperava-se o repertório habitual: tragédia inimaginável, horror indescritível, um país devastado. Obama fez outra coisa.
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Disse que aquilo era profundamente “triste”, mas acrescentou que não era “surpreendente”. Nunca esqueci esse uso das palavras. Porque, sim, o massacre era devastador, mas também era previsível. Resultado de um problema que os Estados Unidos insistem em não enfrentar. Naquele instante, escolher o adjetivo correto não foi preciosismo de escritor. Foi gesto político. E uma forma de impedir que a emoção escondesse a responsabilidade.
Desde então comecei a notar que essa inflação escapou das redes sociais e invadiu a vida. Hoje ninguém gosta muito de um disco. Ele é uma obra-prima. Ninguém recomenda um restaurante honesto. É uma experiência arrebatadora. Ninguém encontra uma ideia interessante. Ela muda sua vida. Ninguém faz um bom trabalho. É simplesmente genial.
Outro dia meu filho de 13 anos decretou: “Haaland é um monstro. Um gênio.”
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Sorri. Haaland talvez seja o atacante mais “efetivo” do futebol contemporâneo. Faz gols com regularidade industrial. Justifica o salário. Mas eficiência e genialidade nunca foram sinônimos. Um relógio suíço é eficiente. Um liquidificador pode ser eficiente. Ronaldinho Gaúcho era outra coisa. Quando tocava na bola, parecia ampliar o próprio futebol. Inventava soluções que ninguém sabia que existiam até vê-las acontecer. Não apenas resolvia uma jogada. Mudava a ideia do que era possível fazer com uma bola. A palavra “gênio” nasceu para esse tipo raro de espanto. Não para qualquer excelência.
Amo as palavras. Justamente por isso não gostaria de condená-las a uma prisão, nem transformá-las em peças de museu. Palavras vivem. Viajam. Trocam de roupa. Mudam de significado. Ainda bem. O que me preocupa não é que mudem. É que quase todas pareçam caminhar na mesma direção. Sempre para cima. Sempre para o máximo.
Talvez a doença da nossa época não seja a falta de palavras. Talvez seja a perda da escala. E penso em Beethoven. Que não escrevia apenas notas. Escrevia intensidades. Pianíssimo. Piano. Mezzoforte. Forte. Fortíssimo. Imagine uma orquestra executando a Nona Sinfonia inteira em fortíssimo. Durante alguns minutos seria impressionante. Depois seria apenas barulho. A emoção não mora no volume. Mora na distância entre os volumes.
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As palavras, coitadas, apenas aprenderam onde havia comida. Às vezes penso que elas não estão morrendo. Estão gastando a sola. Gastamos “genial”, “histórico”, “surreal”, “urgente” e “extraordinário” como quem imprime dinheiro sem lastro. E toda moeda excessivamente emitida acaba comprando menos do que comprava antes.
Tenho saudade de quando um livro podia ser apenas excelente. Um filme podia ser apenas bonito. Uma conversa podia ser apenas agradável. Não porque fôssemos menos apaixonados. Mas porque ainda guardávamos algumas palavras para os raríssimos momentos em que elas realmente fariam falta.
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Ainda penso naquela frase de Obama. “É triste. Mas não é surpreendente.”
Talvez escrever (e até viver) seja justamente isso: resistir à tentação do adjetivo fácil. Não para diminuir o mundo. Mas para que, quando ele finalmente nos oferecer um momento de verdadeira genialidade, de verdadeira urgência ou de verdadeira beleza, a língua ainda tenha fôlego para reconhecê-lo.
Rafael Dragaud é roteirista, diretor do show da turnê “Tempo Rei”, de Gilberto Gil, trabalhou na Globo por mais ou menos 30 anos como diretor-executivo do núcleo de variedades da emissora, responsável por programas, como “Conversa com Bial”, “Mais Você”, “Encontro”, “É de Casa” e “Altas Horas”.
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