Foi ao observar um eclipse em 29 de maio de 1919, na ilha de Príncipe, na costa oeste da África, que o astrônomo britânico Arthur Eddington confirmou a teoria da relatividade de Albert Einstein.
Ele conseguiu isso ao observar o efeito de um fenômeno de desvio da luz conhecido como lente gravitacional sobre as estrelas que se tornaram visíveis quando o brilho ofuscante do Sol foi encoberto.
Mais de um século depois, cientistas acompanharão um eclipse solar total com duração de um minuto e 40 segundos, que poderá ser visto em uma faixa do norte da Espanha na próxima semana.
“Nosso trabalho busca compreender os mecanismos físicos que estão por trás da atividade do Sol”, disse à AFP Allan Sacha Brun, astrofísico da Comissão Francesa de Energia Atômica (CEA).
Todos os dias, especialistas desenvolvem modelos para explicar a atividade solar, permitindo “situar o Sol em seu contexto dentro de sua linha evolutiva, desde o nascimento até a morte”, acrescentou.
‘Temos uma sorte incrível’
O Sol expele continuamente matéria e partículas carregadas, às vezes desencadeando verdadeiras tempestades solares que lançam gigantescas explosões de plasma e outros materiais.
Quando esse material atinge o escudo magnético da Terra, pode desativar satélites, colocar astronautas em risco e criar auroras coloridas nos céus das regiões de altas latitudes, tanto no hemisfério norte quanto no sul.
“Esses fenômenos seguem um ciclo regular, que atinge seu pico a cada 11 anos”, explicou Brun. “Em 2024, o Sol alcançou o pico de seu 25º ciclo.”
Na próxima semana, os cientistas da CEA concentrarão seus estudos na coroa solar, a camada mais externa da atmosfera do Sol.
“Temos uma sorte incrível: a Lua é 400 vezes menor que o Sol, mas também está 400 vezes mais perto de nós”, afirmou Brun.
Essa coincidência faz com que a Lua bloqueie a luz do Sol, mas ainda permita aos cientistas observar o que acontece em sua atmosfera.
A coroa solar se estende por 10 milhões de quilômetros e é um milhão de vezes menos brilhante que a superfície do Sol, chamada fotosfera. Ainda assim, a coroa pode atingir temperaturas de até 2 milhões de graus Celsius.
Em períodos normais, quando não há eclipse, os cientistas estudam a atmosfera solar com satélites equipados com um coronógrafo ? “um filtro que bloqueia a fotosfera”, explicou Brun.
Mas os eclipses totais também permitem uma rara observação da cromosfera, a camada da atmosfera situada entre a coroa e a superfície do Sol.
‘Inspirador’
Cientistas da Agência Espacial Europeia (ESA) analisarão o eclipse da próxima semana na esperança de aprender mais sobre os ventos solares.
“Por que as tempestades solares se propagam dessa maneira? Qual é sua estrutura? E podemos desenvolver modelos que nos permitam prevê-las?”, perguntou Carole Mundell, diretora de Ciência da ESA.
A sonda Solar Orbiter, da ESA, lançada em 2020, vem coletando dados sobre a atmosfera e os ventos solares.
Os eclipses representam uma oportunidade para “testar o quão bons ? ou quão ruins ? são nossos modelos”, disse Miho Janvier, copesquisadora principal da missão.
Outra missão da ESA, chamada Proba-3, utiliza atualmente três espaçonaves voando em formação sincronizada para criar seus próprios mini-eclipses solares.
Também existem planos para uma missão chamada MESOM, que pretende enviar uma espaçonave para a sombra da Lua a fim de obter uma observação muito mais prolongada desse fenômeno.
Lucie Green, física solar da University College London e integrante da missão, afirmou à AFP que os eclipses solares totais são “inspiradores para todos, artistas e cientistas igualmente”.
“O que observamos na Terra inspira aquilo que queremos realizar em nossas pesquisas de ciência espacial”, acrescentou.


















