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Home News Saude

Não podemos crucificar a vacina: a ameaça da dengue é muito maior

Diogo Sponchiato by Diogo Sponchiato
11 de junho de 2026
in Saude
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Não podemos crucificar a vacina: a ameaça da dengue é muito maior

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dengue-vacina
Imunização contra a dengue: estratégia avaliada em décadas de pesquisa (Ilustração: Veja Saúde/VEJA)

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Após a aplicação de aproximadamente 501 mil doses da vacina Butantan-DV, desenvolvida pelo Instituto Butantan contra a dengue, o sistema de farmacovigilância identificou 42 reações raras e inesperadas, o equivalente a 0,008% das pessoas vacinadas. Três casos foram considerados graves e dois evoluíram para óbito.

É fundamental dizer com todas as letras: até o momento, não está comprovado que essas mortes tenham sido causadas pela vacina. A investigação deverá avaliar comorbidades, fatores de risco e outras possíveis explicações. Ainda assim, a existência de um sinal de alerta justifica a suspensão temporária. Segurança não se negocia.

Mas rigor científico também exige perspectiva. Nos cinco anos completos mais recentes com dados oficiais disponíveis, a dengue provocou ao menos 10.511 mortes no Brasil. Foram 315 óbitos em 2021, 1.053 em 2022, 1.094 em 2023, 6.321 em 2024 e 1.728 em 2025.

Os números de 2025 ainda estavam sujeitos a revisão na consolidação mais recente do Ministério da Saúde, mas a ordem de grandeza é inequívoca: em apenas cinco anos, a doença matou mais de 10 mil brasileiros.

Isso representa mais de 5.200 mortes por dengue para cada um dos dois óbitos identificados após a aplicação da vacina do Butantan, cuja relação causal ainda não foi estabelecida.

Não se trata de comparar situações equivalentes. Uma morte suspeita após uma vacinação deve ser investigada com seriedade absoluta. Trata-se de impedir que um dado isolado seja usado para apagar o tamanho real da ameaça que estamos tentando combater.

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O terror da dengue

A dengue não é uma febre incômoda que atrapalha alguns dias de trabalho. Ela pode causar choque, hemorragias, comprometimento de órgãos e morte. E seu impacto se tornou ainda mais evidente depois da maior epidemia da história do país, registrada em 2024. Quando uma doença mata milhares de pessoas, abrir mão da vacinação não é prudência. É deixar a população mais vulnerável.

Felizmente, a suspensão da estratégia com o imunizante do Butantan não significa que o Brasil ficou sem vacina contra a dengue. O SUS segue oferecendo a Qdenga, produzida pela Takeda, para crianças e adolescentes de 10 a 14 anos. Desde janeiro de 2026, a estratégia foi ampliada para todos os municípios brasileiros. O esquema é composto por duas doses, com intervalo de três meses, e também está disponível na rede privada.

O caso do Butantan precisa ser acompanhado com transparência, sem minimização e sem alarmismo. Se as investigações identificarem um risco específico, será necessário entender quem está mais vulnerável, qual é a frequência real do evento e se a estratégia pode ser ajustada. É exatamente para isso que existe a farmacovigilância.

Detectar eventos raros depois que uma vacina chega a centenas de milhares ou milhões de pessoas não prova que o sistema falhou. Muitas vezes, prova justamente o contrário: o sistema foi capaz de enxergar aquilo que estudos clínicos, por maiores e mais cuidadosos que sejam, nem sempre conseguem detectar.

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O perigo antivacina

O maior risco agora é outro: permitir que a suspensão seja sequestrada pelo discurso antivacina.

Muitas pessoas que estão lendo este texto provavelmente nunca conheceram alguém com poliomielite. Talvez nunca tenham presenciado uma criança gravemente doente por sarampo ou caxumba. Podem não saber que a BCG protege contra formas graves de tuberculose na infância. Dificilmente viram um caso de tétano ou uma complicação grave de hepatite B.

Não porque essas doenças desapareceram por mágica, mas porque gerações foram vacinadas.

O calendário do SUS inclui imunizantes contra hepatite A, hepatite B, tétano, caxumba, varicela, sarampo, poliomielite e várias outras enfermidades. Há também vacinas e esquemas especiais para pessoas com maior risco de complicações, incluindo pacientes com doenças crônicas, imunodeficiências e outras condições clínicas. Falar seriamente em saúde pública é falar de vacina.

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A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que a imunização previna entre 3,5 milhões e 5 milhões de mortes por ano. Em meio século, vacinas essenciais contra apenas 14 doenças salvaram ao menos 154 milhões de vidas. A própria OMS resume a dimensão dessa conquista com uma frase difícil de contestar: as vacinas salvaram mais vidas humanas do que qualquer outra invenção médica da história.

E há um aspecto que ainda recebe pouca atenção. Costumamos associar a expressão “efeito colateral” exclusivamente a problemas. Mas vacinas também podem produzir benefícios adicionais, para além da prevenção direta de uma infecção.

Uma revisão de ensaios clínicos associou a vacinação contra influenza a uma redução de 34% no risco de eventos cardiovasculares maiores. Estudos com a vacina contra herpes-zóster também encontraram associação com menor risco cardiovascular.

Há ainda evidências crescentes de que prevenir infecções respiratórias pode ser particularmente importante para pessoas idosas e pacientes com doenças do coração. O termo mais preciso não é “efeito colateral bom”, mas benefício adicional.

A ciência não pede fé cega. Pede confiança baseada em método, dados e transparência. Investigar uma possível reação adversa não diminui a importância das vacinas. Ao contrário: protege a credibilidade de uma das ferramentas mais valiosas já criadas pela humanidade.

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Imunização contra a dengue: estratégia avaliada em décadas de pesquisa (Ilustração: Veja Saúde/VEJA)

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Após a aplicação de aproximadamente 501 mil doses da vacina Butantan-DV, desenvolvida pelo Instituto Butantan contra a dengue, o sistema de farmacovigilância identificou 42 reações raras e inesperadas, o equivalente a 0,008% das pessoas vacinadas. Três casos foram considerados graves e dois evoluíram para óbito.

É fundamental dizer com todas as letras: até o momento, não está comprovado que essas mortes tenham sido causadas pela vacina. A investigação deverá avaliar comorbidades, fatores de risco e outras possíveis explicações. Ainda assim, a existência de um sinal de alerta justifica a suspensão temporária. Segurança não se negocia.

Mas rigor científico também exige perspectiva. Nos cinco anos completos mais recentes com dados oficiais disponíveis, a dengue provocou ao menos 10.511 mortes no Brasil. Foram 315 óbitos em 2021, 1.053 em 2022, 1.094 em 2023, 6.321 em 2024 e 1.728 em 2025.

Os números de 2025 ainda estavam sujeitos a revisão na consolidação mais recente do Ministério da Saúde, mas a ordem de grandeza é inequívoca: em apenas cinco anos, a doença matou mais de 10 mil brasileiros.

Isso representa mais de 5.200 mortes por dengue para cada um dos dois óbitos identificados após a aplicação da vacina do Butantan, cuja relação causal ainda não foi estabelecida.

Não se trata de comparar situações equivalentes. Uma morte suspeita após uma vacinação deve ser investigada com seriedade absoluta. Trata-se de impedir que um dado isolado seja usado para apagar o tamanho real da ameaça que estamos tentando combater.

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A dengue não é uma febre incômoda que atrapalha alguns dias de trabalho. Ela pode causar choque, hemorragias, comprometimento de órgãos e morte. E seu impacto se tornou ainda mais evidente depois da maior epidemia da história do país, registrada em 2024. Quando uma doença mata milhares de pessoas, abrir mão da vacinação não é prudência. É deixar a população mais vulnerável.

Felizmente, a suspensão da estratégia com o imunizante do Butantan não significa que o Brasil ficou sem vacina contra a dengue. O SUS segue oferecendo a Qdenga, produzida pela Takeda, para crianças e adolescentes de 10 a 14 anos. Desde janeiro de 2026, a estratégia foi ampliada para todos os municípios brasileiros. O esquema é composto por duas doses, com intervalo de três meses, e também está disponível na rede privada.

O caso do Butantan precisa ser acompanhado com transparência, sem minimização e sem alarmismo. Se as investigações identificarem um risco específico, será necessário entender quem está mais vulnerável, qual é a frequência real do evento e se a estratégia pode ser ajustada. É exatamente para isso que existe a farmacovigilância.

Detectar eventos raros depois que uma vacina chega a centenas de milhares ou milhões de pessoas não prova que o sistema falhou. Muitas vezes, prova justamente o contrário: o sistema foi capaz de enxergar aquilo que estudos clínicos, por maiores e mais cuidadosos que sejam, nem sempre conseguem detectar.

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Muitas pessoas que estão lendo este texto provavelmente nunca conheceram alguém com poliomielite. Talvez nunca tenham presenciado uma criança gravemente doente por sarampo ou caxumba. Podem não saber que a BCG protege contra formas graves de tuberculose na infância. Dificilmente viram um caso de tétano ou uma complicação grave de hepatite B.

Não porque essas doenças desapareceram por mágica, mas porque gerações foram vacinadas.

O calendário do SUS inclui imunizantes contra hepatite A, hepatite B, tétano, caxumba, varicela, sarampo, poliomielite e várias outras enfermidades. Há também vacinas e esquemas especiais para pessoas com maior risco de complicações, incluindo pacientes com doenças crônicas, imunodeficiências e outras condições clínicas. Falar seriamente em saúde pública é falar de vacina.

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E há um aspecto que ainda recebe pouca atenção. Costumamos associar a expressão “efeito colateral” exclusivamente a problemas. Mas vacinas também podem produzir benefícios adicionais, para além da prevenção direta de uma infecção.

Uma revisão de ensaios clínicos associou a vacinação contra influenza a uma redução de 34% no risco de eventos cardiovasculares maiores. Estudos com a vacina contra herpes-zóster também encontraram associação com menor risco cardiovascular.

Há ainda evidências crescentes de que prevenir infecções respiratórias pode ser particularmente importante para pessoas idosas e pacientes com doenças do coração. O termo mais preciso não é “efeito colateral bom”, mas benefício adicional.

A ciência não pede fé cega. Pede confiança baseada em método, dados e transparência. Investigar uma possível reação adversa não diminui a importância das vacinas. Ao contrário: protege a credibilidade de uma das ferramentas mais valiosas já criadas pela humanidade.

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