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“Acordei em um corpo que não reconhecia”

manchete by manchete
21 de fevereiro de 2026
in Saude
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“acordei-em-um-corpo-que-nao-reconhecia”

“Acordei em um corpo que não reconhecia”

Renata de Paula
Renata de Paula (./Arquivo pessoal)

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Aos 33 anos, a vida costuma ser uma estrada aberta, cheia de fôlego e planos. Para mim, no entanto, foi o momento em que o relógio biológico sofreu um curto-circuito. Em uma mesa de cirurgia, em uma operação de emergência, tive a notícia de que meus ovários haviam sido aspirados. Sem nenhum aviso prévio nem preparação psicológica, acordei em um corpo que já não reconhecia. O impacto foi a chegada imediata e violenta de uma menopausa precoce. Eu estava vivendo um envelhecimento acelerado no auge da juventude.

Como enfermeira de formação, já conhecia os termos técnicos. Sabia o que a queda do estrogênio causava no papel, mas a teoria é estéril diante da prática. O que vivi foi um atropelamento fisiológico: calores excruciantes que subiam pelo peito como um incêndio repentino, uma insônia que transformava as madrugadas em campos de batalha e uma névoa mental que fazia as palavras fugirem no meio das frases. Tentei buscar o caminho que a medicina tradicional aponta como a salvação: a reposição hormonal. Mas o destino impôs uma nova barreira, ainda mais intransponível: um diagnóstico de câncer de mama. Após a nova cirurgia, a porta da reposição se fechou definitivamente para mim. Eu estava em um deserto hormonal, proibida de beber da única fonte que os médicos podiam oferecer para mitigar meu sofrimento.

Foi nesse isolamento que percebi uma lacuna abissal na saúde feminina. Se para mim, com bagagem técnica, era exaustivo e confuso buscar alternativas, como seria para a mulher que não entende o que acontece com seu próprio corpo? A menopausa ainda é tratada como um fim de linha, um tabu varrido para debaixo do tapete. Por décadas, o medo da reposição hormonal foi alimentado por estudos mal interpretados e somente agora, com novas diretrizes, esse cenário começa a mudar. Eu me recusei a aceitar que o restante da minha vida seria vivido “pela metade”. Minha dor se tornou o combustível para uma investigação obsessiva por respostas que a medicina convencional parecia ignorar.

A partir dessa necessidade visceral de sobrevivência e retomada da minha própria vitalidade, decidi criar, junto ao meu irmão, uma plataforma que agregasse outras mulheres e levasse conhecimento até elas, o Vênus Talks. Desde o primeiro dia, esse projeto tem um propósito muito claro: ser um porto seguro capaz de reunir informações fidedignas e de unir forças por meio de eventos presenciais e do nosso engajamento digital. Mais de 100 000 pessoas já fazem parte dessa comunidade e, além de um podcast e de um canal no YouTube, temos um calendário de iniciativas para discutir, com gente qualificada, saúde mental e cognitiva, sexo, manejo hormonal, planejamento financeiro… Queremos combater o ruído das notícias sensacionalistas e os milagres vendidos sem comprovação. Queremos quebrar paradigmas sobre prazer, carreira e as necessidades biológicas dessa mulher que envelhece.

Hoje, aos 56 anos, olhando para trás, entendo que a perda dos meus ovários e a cicatriz do câncer de mama foram os catalisadores para que eu construísse um novo mapa e território. Lidero um movimento que garante que a informação e o conhecimento de ponta cheguem antes da angústia. É assim que podemos transformar vidas e devolver a dignidade a milhares de mulheres que ainda temem tratamentos e não sabem que a medicina pode estar a nosso favor. Enquanto houver uma brasileira pensando que o sofrimento é o destino natural do seu amadurecimento, esse trabalho de iluminar caminhos através da ciência continuará sendo essencial.

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Renata de Paula em depoimento a Diogo Sponchiato

Publicado em VEJA de 20 de fevereiro de 2026, edição nº 2983

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*Pagamento único anual de R$23,88, equivalente a R$1,99/mês.

Renata de Paula
Renata de Paula (./Arquivo pessoal)

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Aos 33 anos, a vida costuma ser uma estrada aberta, cheia de fôlego e planos. Para mim, no entanto, foi o momento em que o relógio biológico sofreu um curto-circuito. Em uma mesa de cirurgia, em uma operação de emergência, tive a notícia de que meus ovários haviam sido aspirados. Sem nenhum aviso prévio nem preparação psicológica, acordei em um corpo que já não reconhecia. O impacto foi a chegada imediata e violenta de uma menopausa precoce. Eu estava vivendo um envelhecimento acelerado no auge da juventude.

Como enfermeira de formação, já conhecia os termos técnicos. Sabia o que a queda do estrogênio causava no papel, mas a teoria é estéril diante da prática. O que vivi foi um atropelamento fisiológico: calores excruciantes que subiam pelo peito como um incêndio repentino, uma insônia que transformava as madrugadas em campos de batalha e uma névoa mental que fazia as palavras fugirem no meio das frases. Tentei buscar o caminho que a medicina tradicional aponta como a salvação: a reposição hormonal. Mas o destino impôs uma nova barreira, ainda mais intransponível: um diagnóstico de câncer de mama. Após a nova cirurgia, a porta da reposição se fechou definitivamente para mim. Eu estava em um deserto hormonal, proibida de beber da única fonte que os médicos podiam oferecer para mitigar meu sofrimento.

Foi nesse isolamento que percebi uma lacuna abissal na saúde feminina. Se para mim, com bagagem técnica, era exaustivo e confuso buscar alternativas, como seria para a mulher que não entende o que acontece com seu próprio corpo? A menopausa ainda é tratada como um fim de linha, um tabu varrido para debaixo do tapete. Por décadas, o medo da reposição hormonal foi alimentado por estudos mal interpretados e somente agora, com novas diretrizes, esse cenário começa a mudar. Eu me recusei a aceitar que o restante da minha vida seria vivido “pela metade”. Minha dor se tornou o combustível para uma investigação obsessiva por respostas que a medicina convencional parecia ignorar.

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Hoje, aos 56 anos, olhando para trás, entendo que a perda dos meus ovários e a cicatriz do câncer de mama foram os catalisadores para que eu construísse um novo mapa e território. Lidero um movimento que garante que a informação e o conhecimento de ponta cheguem antes da angústia. É assim que podemos transformar vidas e devolver a dignidade a milhares de mulheres que ainda temem tratamentos e não sabem que a medicina pode estar a nosso favor. Enquanto houver uma brasileira pensando que o sofrimento é o destino natural do seu amadurecimento, esse trabalho de iluminar caminhos através da ciência continuará sendo essencial.

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