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Um programa de dieta e treinos para a mente e o corpo capaz de aprimorar em 55% a cognição. Quem deparar com a afirmação nas redes sociais poderá suspeitar estar diante de mais uma falsa promessa de protocolos lucrativos para revitalizar o cérebro. Nesse caso, porém, não se trata de um serviço à venda nem de propaganda enganosa, mas de um experimento científico real. Pesquisadores testaram um conjunto de intervenções na rotina com o objetivo de turbinar e resguardar a massa cinzenta e as capacidades cognitivas de pessoas com maior risco de desenvolver demência. E o resultado foi altamente satisfatório, contrariando, ainda, o senso comum de que, com o envelhecimento, a memória, a atenção e o raciocínio rápido tendem a ruir. O trabalho, que envolveu voluntários brasileiros, foi um dos destaques da recente Conferência Internacional da Associação de Alzheimer, em Londres, e uma prova de que é possível empoderar as pessoas a fim de mitigar ou evitar o declínio dos neurônios.

Batizado de LatAm-FINGERS, o estudo recrutou 1 700 pacientes de 60 a 77 anos, um dos maiores do gênero já feitos na América Latina. Realizado, antes, em países como Finlândia, Japão e Estados Unidos, ele buscou avaliar a implementação de um protocolo de intervenções padronizadas e guiadas por profissionais de saúde entre indivíduos mais propensos a evoluir para um quadro de comprometimento intelectual e demência — idosos com desempenho mental abaixo do esperado, segundo exames e fatores de risco para doença cardiovascular, mas sem sintomas de uma doença neurológica. O projeto dividiu os participantes em dois grupos, acompanhados por dois anos. O primeiro se engajou em um programa de autocuidado intensivo, com encontros presenciais, ligações telefônicas e monitoramento constante dos médicos. O segundo foi orientado a aderir a mudanças de hábito e a outras prescrições, mas seguiu esses passos por conta própria.

A intervenção se estruturava em quatro pilares: adoção da dieta Mind, criada para fortalecer a cabeça por meio da junção do menu mediterrâneo e de um plano alimentar para conter a hipertensão; exercícios de condicionamento físico e força muscular ao longo da semana; treinamentos cognitivos por meio de jogos de computador; e controle de problemas crônicos que ameaçam o coração, mas também o cérebro, caso de pressão arterial, glicemia e colesterol elevados (veja o quadro). Ao final, o resultado, publicado na prestigiada revista científica The Lancet, chamou atenção: na ala que seguiu o “intensivão”, houve melhora de mais de 50% na cognição global, conceito que reflete as habilidades de evocar memórias, manter a atenção, responder a demandas de forma ágil e estar apto a tomadas de decisão.
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O que poderia estar por trás de efeitos tão impactantes? “Na América Latina, temos um maior percentual de população sedentária e com fatores de risco como hipertensão, diabetes e colesterol alto descontrolados”, diz o neurologista Wyllians Borelli, do Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre. “Por isso uma intervenção capaz de modificar essas situações tende a ser tão benéfica.” O curioso, segundo o especialista que esteve em Londres, é que o mesmíssimo plano de ação teve resultados bem mais modestos em nações ricas, como a Finlândia. Ou seja, para o bem ou para o mal, ainda há muito a ser feito em prol do cérebro no Brasil e na vizinhança. “O maior desafio na prática é manter os pacientes em uma rotina ativa e de cuidados fora do ambiente ideal de um estudo”, afirma a geriatra Mariana Sepulvida, do Hospital São Luiz de São Caetano do Sul, na Grande São Paulo. É aí que um país todo, com o devido suporte do Estado, precisa acordar e fazer sua parte — e não só da boca para fora.
Publicado em VEJA de 31 de julho de 2026, edição nº 3006
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Batizado de LatAm-FINGERS, o estudo recrutou 1 700 pacientes de 60 a 77 anos, um dos maiores do gênero já feitos na América Latina. Realizado, antes, em países como Finlândia, Japão e Estados Unidos, ele buscou avaliar a implementação de um protocolo de intervenções padronizadas e guiadas por profissionais de saúde entre indivíduos mais propensos a evoluir para um quadro de comprometimento intelectual e demência — idosos com desempenho mental abaixo do esperado, segundo exames e fatores de risco para doença cardiovascular, mas sem sintomas de uma doença neurológica. O projeto dividiu os participantes em dois grupos, acompanhados por dois anos. O primeiro se engajou em um programa de autocuidado intensivo, com encontros presenciais, ligações telefônicas e monitoramento constante dos médicos. O segundo foi orientado a aderir a mudanças de hábito e a outras prescrições, mas seguiu esses passos por conta própria.

A intervenção se estruturava em quatro pilares: adoção da dieta Mind, criada para fortalecer a cabeça por meio da junção do menu mediterrâneo e de um plano alimentar para conter a hipertensão; exercícios de condicionamento físico e força muscular ao longo da semana; treinamentos cognitivos por meio de jogos de computador; e controle de problemas crônicos que ameaçam o coração, mas também o cérebro, caso de pressão arterial, glicemia e colesterol elevados (veja o quadro). Ao final, o resultado, publicado na prestigiada revista científica The Lancet, chamou atenção: na ala que seguiu o “intensivão”, houve melhora de mais de 50% na cognição global, conceito que reflete as habilidades de evocar memórias, manter a atenção, responder a demandas de forma ágil e estar apto a tomadas de decisão.
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