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O Carnaval acaba, mas não termina. Ele fica. Fica no glitter entranhado no couro cabeludo, na purpurina que resiste ao banho, no tornozelo inchado, na sandália arrebentada, na memória do que fomos capazes de fazer com o próprio corpo — apesar dele, com ele, por causa dele.
Eu vi mulheres 50+, 60+, 70+,80+ atravessarem a avenida como se fossem donas do enredo. Algumas estavam na Sapucaí, outras nos blocos de rua, outras nas feijoadas intermináveis, nos camarotes patrocinados por marcas que fingem ter descoberto o poder prateado ontem. Vi corpos com cicatriz de muitas cirurgias, com joelho operado, com prótese de quadril, com barriga sem filtro, com peito caído ou silicone. Vi mulheres na menopausa — secas por decreto hormonal — absolutamente molhadas de vida.
Porque convenhamos: a tal “molhadinha por dentro” que a cultura insiste em reduzir à lubrificação vaginal é uma pobreza simbólica. A menopausa pode até nos roubar estrogênio, mas não nos confisca o tesão de existir. E foi isso que eu testemunhei: senhoras suadas por fora e incendiadas por dentro.
É preciso dizer: não é simples. A menopausa dói. O calorão vem como se o corpo tivesse decidido virar brasa no meio do desfile. A insônia cobra seu preço na quarta-feira de cinzas. A libido oscila, a pele muda, o humor também. E, ainda assim, ali estavam elas. Sambando, beijando, rindo alto, disputando o melhor ângulo da selfie, rebolando com dignidade e sem pedir licença.
Num país que insiste em tratar a velhice como descarte, ocupar o Carnaval é um ato político. E não só baianas ou Velha Guarda. Estávamos por todos os espaços.
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Porque envelhecer no Brasil não é para amadores. Exige sorte — de ter acesso a médicos decentes, a reposição hormonal quando indicada, a informação de qualidade. Exige atenção — aos sinais do corpo, às armadilhas financeiras, aos golpes emocionais. E exige cobrança — políticas públicas que não nos empurrem para o canto da sala como se fôssemos bibelôs pós-folia.
Queremos ginecologistas que entendam climatério. Queremos campanhas de saúde que falem de ossos, de coração, de saúde mental. Queremos cidades caminháveis para nossos joelhos cansados e seguras para nossas netas. Queremos trabalho digno para quem não pode se aposentar e respeito para quem já contribuiu o suficiente.
A velhice não é um destino sombrio. Sombria é a negligência do Estado. Sombrio é o preconceito que nos quer invisíveis depois dos 50. O que eu vi no Carnaval foi o oposto da sombra. Foi luz de LED, foi purpurina bioluminescente, foi ruga sorrindo para a câmera.
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“Suada por fora, molhadinha por dentro” ganhou outro sentido para mim. Molhadinha de lágrima ao ouvir o samba-enredo que falava de resistência. Molhadinha de emoção ao perceber que o corpo muda, mas a vontade de viver pode até aumentar. Molhadinha de consciência política ao entender que nossa presença não é folclore, é afirmação.
Não estamos molhadas como aos 30. E daí? Estamos inteiras como nunca.
O Carnaval acaba. A quarta-feira chegou. A fantasia volta para a caixa. Mas algo ficou diferente. Cada mulher madura que ocupou a rua este ano mandou um recado: não somos figurantes da própria história. Somos protagonistas com dor lombar, boletos, ondas de calor — e brilho.
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Suadas por fora. Vivas por dentro.
E, se depender de nós, ainda vamos desfilar por muitas avenidas. Com sorte, com luta e com políticas públicas à altura da nossa força.
Domine o fato. Confie na fonte.
15 marcas que você confia. Uma assinatura que vale por todas
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O Carnaval acaba, mas não termina. Ele fica. Fica no glitter entranhado no couro cabeludo, na purpurina que resiste ao banho, no tornozelo inchado, na sandália arrebentada, na memória do que fomos capazes de fazer com o próprio corpo — apesar dele, com ele, por causa dele.
Eu vi mulheres 50+, 60+, 70+,80+ atravessarem a avenida como se fossem donas do enredo. Algumas estavam na Sapucaí, outras nos blocos de rua, outras nas feijoadas intermináveis, nos camarotes patrocinados por marcas que fingem ter descoberto o poder prateado ontem. Vi corpos com cicatriz de muitas cirurgias, com joelho operado, com prótese de quadril, com barriga sem filtro, com peito caído ou silicone. Vi mulheres na menopausa — secas por decreto hormonal — absolutamente molhadas de vida.
Porque convenhamos: a tal “molhadinha por dentro” que a cultura insiste em reduzir à lubrificação vaginal é uma pobreza simbólica. A menopausa pode até nos roubar estrogênio, mas não nos confisca o tesão de existir. E foi isso que eu testemunhei: senhoras suadas por fora e incendiadas por dentro.
É preciso dizer: não é simples. A menopausa dói. O calorão vem como se o corpo tivesse decidido virar brasa no meio do desfile. A insônia cobra seu preço na quarta-feira de cinzas. A libido oscila, a pele muda, o humor também. E, ainda assim, ali estavam elas. Sambando, beijando, rindo alto, disputando o melhor ângulo da selfie, rebolando com dignidade e sem pedir licença.
Num país que insiste em tratar a velhice como descarte, ocupar o Carnaval é um ato político. E não só baianas ou Velha Guarda. Estávamos por todos os espaços.
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Porque envelhecer no Brasil não é para amadores. Exige sorte — de ter acesso a médicos decentes, a reposição hormonal quando indicada, a informação de qualidade. Exige atenção — aos sinais do corpo, às armadilhas financeiras, aos golpes emocionais. E exige cobrança — políticas públicas que não nos empurrem para o canto da sala como se fôssemos bibelôs pós-folia.
Queremos ginecologistas que entendam climatério. Queremos campanhas de saúde que falem de ossos, de coração, de saúde mental. Queremos cidades caminháveis para nossos joelhos cansados e seguras para nossas netas. Queremos trabalho digno para quem não pode se aposentar e respeito para quem já contribuiu o suficiente.
A velhice não é um destino sombrio. Sombria é a negligência do Estado. Sombrio é o preconceito que nos quer invisíveis depois dos 50. O que eu vi no Carnaval foi o oposto da sombra. Foi luz de LED, foi purpurina bioluminescente, foi ruga sorrindo para a câmera.
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“Suada por fora, molhadinha por dentro” ganhou outro sentido para mim. Molhadinha de lágrima ao ouvir o samba-enredo que falava de resistência. Molhadinha de emoção ao perceber que o corpo muda, mas a vontade de viver pode até aumentar. Molhadinha de consciência política ao entender que nossa presença não é folclore, é afirmação.
Não estamos molhadas como aos 30. E daí? Estamos inteiras como nunca.
O Carnaval acaba. A quarta-feira chegou. A fantasia volta para a caixa. Mas algo ficou diferente. Cada mulher madura que ocupou a rua este ano mandou um recado: não somos figurantes da própria história. Somos protagonistas com dor lombar, boletos, ondas de calor — e brilho.
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Suadas por fora. Vivas por dentro.
E, se depender de nós, ainda vamos desfilar por muitas avenidas. Com sorte, com luta e com políticas públicas à altura da nossa força.
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