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Entenda as ameaças de Trump ao Canadá, Groenlândia e Panamá

manchete by manchete
8 de janeiro de 2025
in Ultimas Noticias
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Entenda as ameaças de Trump ao Canadá, Groenlândia e Panamá

Em sua entrevista coletiva na terça-feira (7), Donald Trump retomou com desassombro uma série de ameaças territoriais feitas a países amigos dos Estados Unidos, para espanto global.

Soa como diversionismo político do presidente que assume no dia 20, temperado por sua folclórica noção de geopolítica, mas as vítimas escolhidas sabem que não há nada de inocente na opção de Trump de mirar o Canadá, a Groenlândia e o canal do Panamá.

Em diferentes momentos históricos, essas regiões ou tiveram contenciosos ou estiveram no alvo de Washington.

‘CULPE O CANADÁ!’

A relação mais antiga é com os canadenses, que são tão vistos como parte dos EUA pelos americanos que até viraram item de cultura pop.

No filme da série animada “South Park” de 1999, pais interioranos criticavam o vizinho do norte, mais precisamente um programa de TV canadense, pelo mau comportamento de seus filhos. “Culpe o Canadá! Eles nem são um país de verdade, de todo jeito!”, esbravejava um dos personagens.

Isso vem do período formativo da América do Norte atual. No século 18, parte do território canadense era francesa, sendo conquistada em 1760 pelos britânicos, que dominavam porções do que viria a ser os EUA 16 anos depois.

Quando declarou guerra ao Reino Unido em 1812, invadiu o vizinho. A situação só foi normalizada em 1815, mas escaramuças seguiram ao longo das décadas, mesmo quando o Canadá começou a tornar-se independente, em 1867 —um processo finalizado apenas em 1982, ainda que o país ainda tenha o rei britânico como monarca.

O país é vendido na direita americana como um paraíso de liberais que dependem de seu maior parceiro, os EUA. No seu primeiro mandato (2017-2021), Trump fez do premiê Justin Trudeau um de seus alvos prediletos, e celebrou o anúncio da renúncia do rival na segunda (6) como um feito seu.

Antes, Trump havia ameaçado elevar tarifas de importação de produtos canadenses para pressionar Ottawa. Depois, voltou a dizer que os canadenses votariam para serem moradores do 51º estado americano. Discordam dele 82% dos vizinhos, segundo pesquisa do instituto Léger feita em 2024.

A ameaça tarifária foi acrescida da sugestão ao recurso à força militar no caso da Groenlândia e do Panamá, gerando protestos dos envolvidos. Para complicar, diferentemente do Canadá, há argumentos estratégicos no interesse por esses dois locais.

CANAL FOI AMERICANO ATÉ 1999

O caso do canal do Panamá remonta à criação do próprio país, separado da Colômbia com o apoio de forças americanas em 1903 porque Bogotá não chegou a um acordo para ceder a ligação entre o golfo do México e o Pacífico que os franceses tentavam fazer aos EUA.

Em troca da mão grande e armada, os EUA ganharam de forma que os termos contratuais permitiam ler como perpétua ou por 99 anos o controle do canal de 82 km, obra faraônica que finalizou em 1914.

Isso gerou, ao longo de décadas, insatisfação no Panamá. Ao fim, em 1977, o governo de Jimmy Carter acertou uma transição para devolução final em 1999 —ironicamente, o corpo do presidente democrata estava sendo velado enquanto a discussão pegava fogo.

O canal é vital para os EUA, sendo caminho para 40% de seu tráfego de contêineres. Ao todo, 5% do comércio marítimo mundial passa por lá. Além disso, a direita americana diz que o fato de ele ter 2 de seus 5 portos operados por uma empresa de Hong Kong prova de que a China pode bloquear o comércio americano.

O republicano reclama de tarifas cobradas pelo Panamá, restando saber se irá em frente no embate. Nem tampouco foi causal a ideia do republicano de renomear o golfo do México de golfo da América —aqui, referindo-se à forma como os americanos chamam seu país.

O golfo é um dos pontos mais vulneráveis dos EUA, fortaleza flanqueada por dois oceanos. Sua produção de petróleo e boa parte dos portos mais ativos se concentram por lá, e o risco de bloqueios navais é uma preocupação antiga —daí a obsessão com Cuba, por exemplo.

GROENLÂNDIA JÁ FOI OCUPADA

Já a ameaça à Groenlândia, por fim, gerou ainda mais ruído por soar algo esotérica. Mas o fato é que a maior ilha não continental do mundo, que é um território autônomo da Dinamarca, está na mira americana há muito mais tempo.

Em 1867, o notório secretário de Estado William H. Seward, último político importante a propor abertamente a anexação do Canadá, sugeriu a compra da Groenlândia e da Islândia, então também dinamarquesa, mas acabou dissuadido pelo Congresso.

Em 1940, os nazistas tomaram Copenhague. Um ano depois, quando os americanos entraram na Segunda Guerra Mundial, Washington invadiu a Groenlândia e a militarizou, para evitar que fosse usada como trampolim para ataques alemães contra os EUA.

A ocupação durou o fim do conflito, em 1945, mas já no ano seguinte o governo americano ofereceu à coroa dinamarquesa US$ 100 milhões pela ilha, o que equivaleria hoje a US$ 1,6 trilhão, pouco menos que o PIB do Brasil.

Não deu certo, mas Washington manteve importante presença militar lá, que é um território da Otan, aliança integrada pela Dinamarca. A base de Pituffik controla os satélites de alerta contra ataques de mísseis nucleares contra a América do Norte.

O acelerado derretimento da capa de gelo da ilha, ainda que Trump desconsidere a mudança climática, abriu também possibilidades de exploração mineral importante. A Groenlândia é rica em terras raras, vitais para a indústria eletrônica, ferro, tungstênio e outros.

A Groenlândia tem também potenciais reservas de petróleo, objeto de desejo do republicano. Por ora, o governo proíbe novas sondagens devido ao temor ambiental. “A Groenlândia é dos groenlandenses. Não está à venda”, respondeu a premiê dinamarquesa, Mette Frederiksen.

Há um detalhe na rusga, que é o fato de a Dinamarca ser, depois da Estônia, o país que mais ajuda em porcentagem do PIB o esforço de guerra da Ucrânia —país que Trump quer ver negociar o fim da guerra com a invasora russa em termos aparentemente favoráveis a Moscou.

No primeiro mandato de Trump, cercado por figuras mais convencionais, o grosso de suas ameaças ficou na retórica —como na rixa com o México, outro país com a história interligada à dos EUA. Agora, apoiado por uma claque mais ideológica e com o Congresso todo sob controle republicano, há quem tema que bufonarias virem política de governo.

Em sua entrevista coletiva na terça-feira (7), Donald Trump retomou com desassombro uma série de ameaças territoriais feitas a países amigos dos Estados Unidos, para espanto global.

Soa como diversionismo político do presidente que assume no dia 20, temperado por sua folclórica noção de geopolítica, mas as vítimas escolhidas sabem que não há nada de inocente na opção de Trump de mirar o Canadá, a Groenlândia e o canal do Panamá.

Em diferentes momentos históricos, essas regiões ou tiveram contenciosos ou estiveram no alvo de Washington.

‘CULPE O CANADÁ!’

A relação mais antiga é com os canadenses, que são tão vistos como parte dos EUA pelos americanos que até viraram item de cultura pop.

No filme da série animada “South Park” de 1999, pais interioranos criticavam o vizinho do norte, mais precisamente um programa de TV canadense, pelo mau comportamento de seus filhos. “Culpe o Canadá! Eles nem são um país de verdade, de todo jeito!”, esbravejava um dos personagens.

Isso vem do período formativo da América do Norte atual. No século 18, parte do território canadense era francesa, sendo conquistada em 1760 pelos britânicos, que dominavam porções do que viria a ser os EUA 16 anos depois.

Quando declarou guerra ao Reino Unido em 1812, invadiu o vizinho. A situação só foi normalizada em 1815, mas escaramuças seguiram ao longo das décadas, mesmo quando o Canadá começou a tornar-se independente, em 1867 —um processo finalizado apenas em 1982, ainda que o país ainda tenha o rei britânico como monarca.

O país é vendido na direita americana como um paraíso de liberais que dependem de seu maior parceiro, os EUA. No seu primeiro mandato (2017-2021), Trump fez do premiê Justin Trudeau um de seus alvos prediletos, e celebrou o anúncio da renúncia do rival na segunda (6) como um feito seu.

Antes, Trump havia ameaçado elevar tarifas de importação de produtos canadenses para pressionar Ottawa. Depois, voltou a dizer que os canadenses votariam para serem moradores do 51º estado americano. Discordam dele 82% dos vizinhos, segundo pesquisa do instituto Léger feita em 2024.

A ameaça tarifária foi acrescida da sugestão ao recurso à força militar no caso da Groenlândia e do Panamá, gerando protestos dos envolvidos. Para complicar, diferentemente do Canadá, há argumentos estratégicos no interesse por esses dois locais.

CANAL FOI AMERICANO ATÉ 1999

O caso do canal do Panamá remonta à criação do próprio país, separado da Colômbia com o apoio de forças americanas em 1903 porque Bogotá não chegou a um acordo para ceder a ligação entre o golfo do México e o Pacífico que os franceses tentavam fazer aos EUA.

Em troca da mão grande e armada, os EUA ganharam de forma que os termos contratuais permitiam ler como perpétua ou por 99 anos o controle do canal de 82 km, obra faraônica que finalizou em 1914.

Isso gerou, ao longo de décadas, insatisfação no Panamá. Ao fim, em 1977, o governo de Jimmy Carter acertou uma transição para devolução final em 1999 —ironicamente, o corpo do presidente democrata estava sendo velado enquanto a discussão pegava fogo.

O canal é vital para os EUA, sendo caminho para 40% de seu tráfego de contêineres. Ao todo, 5% do comércio marítimo mundial passa por lá. Além disso, a direita americana diz que o fato de ele ter 2 de seus 5 portos operados por uma empresa de Hong Kong prova de que a China pode bloquear o comércio americano.

O republicano reclama de tarifas cobradas pelo Panamá, restando saber se irá em frente no embate. Nem tampouco foi causal a ideia do republicano de renomear o golfo do México de golfo da América —aqui, referindo-se à forma como os americanos chamam seu país.

O golfo é um dos pontos mais vulneráveis dos EUA, fortaleza flanqueada por dois oceanos. Sua produção de petróleo e boa parte dos portos mais ativos se concentram por lá, e o risco de bloqueios navais é uma preocupação antiga —daí a obsessão com Cuba, por exemplo.

GROENLÂNDIA JÁ FOI OCUPADA

Já a ameaça à Groenlândia, por fim, gerou ainda mais ruído por soar algo esotérica. Mas o fato é que a maior ilha não continental do mundo, que é um território autônomo da Dinamarca, está na mira americana há muito mais tempo.

Em 1867, o notório secretário de Estado William H. Seward, último político importante a propor abertamente a anexação do Canadá, sugeriu a compra da Groenlândia e da Islândia, então também dinamarquesa, mas acabou dissuadido pelo Congresso.

Em 1940, os nazistas tomaram Copenhague. Um ano depois, quando os americanos entraram na Segunda Guerra Mundial, Washington invadiu a Groenlândia e a militarizou, para evitar que fosse usada como trampolim para ataques alemães contra os EUA.

A ocupação durou o fim do conflito, em 1945, mas já no ano seguinte o governo americano ofereceu à coroa dinamarquesa US$ 100 milhões pela ilha, o que equivaleria hoje a US$ 1,6 trilhão, pouco menos que o PIB do Brasil.

Não deu certo, mas Washington manteve importante presença militar lá, que é um território da Otan, aliança integrada pela Dinamarca. A base de Pituffik controla os satélites de alerta contra ataques de mísseis nucleares contra a América do Norte.

O acelerado derretimento da capa de gelo da ilha, ainda que Trump desconsidere a mudança climática, abriu também possibilidades de exploração mineral importante. A Groenlândia é rica em terras raras, vitais para a indústria eletrônica, ferro, tungstênio e outros.

A Groenlândia tem também potenciais reservas de petróleo, objeto de desejo do republicano. Por ora, o governo proíbe novas sondagens devido ao temor ambiental. “A Groenlândia é dos groenlandenses. Não está à venda”, respondeu a premiê dinamarquesa, Mette Frederiksen.

Há um detalhe na rusga, que é o fato de a Dinamarca ser, depois da Estônia, o país que mais ajuda em porcentagem do PIB o esforço de guerra da Ucrânia —país que Trump quer ver negociar o fim da guerra com a invasora russa em termos aparentemente favoráveis a Moscou.

No primeiro mandato de Trump, cercado por figuras mais convencionais, o grosso de suas ameaças ficou na retórica —como na rixa com o México, outro país com a história interligada à dos EUA. Agora, apoiado por uma claque mais ideológica e com o Congresso todo sob controle republicano, há quem tema que bufonarias virem política de governo.

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