Além dos alimentos, as bebidas oferecidas aos astronautas também eram motivo de preocupação para a agência. Embora a Nasa desejasse que os astronautas bebessem mais líquidos durante as missões espaciais, a falta de refrigeração das naves prejudicava o envio e o consumo de bebidas.
Essa brecha foi vista como uma enorme oportunidade de marketing pelas fabricantes das colas. A Coca-Cola procurou a Nasa para oferecer testes com bebidas gaseificadas em gravidade zero, em uma tentativa de aprimorar os líquidos oferecidos aos astronautas.

Além da frente comercial, o projeto teve também um cunho político. Em 1980, o republicano Ronald Reagan venceu o democrata Jimmy Carter nas eleições presidenciais. Enquanto Carter optava por consumir Coca-Cola, Reagan preferia a Pepsi —e a abordagem da Coca-Cola junto à Nasa foi uma tentativa de retomar o prestígio e a influência entre os consumidores nos EUA.
A divulgação da parceria da Coca-Cola com a Nasa causou um burburinho no mundo dos negócios. Em junho de 1984, Brian Dyson, então presidente da Coca-Cola na América do Norte, revelou que a empresa estava negociando com a Nasa a instalação de máquinas de venda automática em “futuras estações e ônibus espaciais”. A proposta da empresa à agência espacial, no entanto, era um projeto de pesquisa que não se enquadrava nas regras de licitação federais.
A declaração de Dyson chamou a atenção da PepsiCo. Max Friedersdorf, vice-presidente de relações-públicas da PepsiCo e ex-assessor de Reagan, insistiu junto à administração da Nasa para que a empresa tivesse a chance de competir com a Coca-Cola no fornecimento de refrigerantes para astronautas em órbita. Novamente, a política nacional foi envolvida na discussão.
Vocês devem estar cientes de que a PepsiCo Inc. é fortemente identificada com o Partido Republicano e com o apoio do Presidente Reagan e seu governo. Ao mesmo tempo, a Coca-Cola era uma forte apoiadora e defensora do Presidente Carter e é intimamente identificada com o Partido Democrata Max Friedersdorf, em carta à Nasa
A pressão feita pela Pepsi teve rápidos efeitos. Cerca de um mês depois da carta de Friedersdorf, a Nasa anunciou a ambas as empresas que o projeto havia sido encerrado.
Iniciativa foi retomada e as latas, personalizadas
Em contato posterior com a Coca-Cola, a Nasa indicou que ainda estava interessada em levar a bebida para o espaço. Entretanto, a agência listou as exigências e requisitos técnicos que deviam ser cumpridos para que a lata pudesse ser utilizada fora da órbita terrestre com segurança. O recipiente em que a bebida seria transportada devia ser pressurizado e ter uma válvula especial para possibilitar o consumo em microgravidade.

Entre o final de 1984 e o início de 1985, a Coca-Cola se dedicou a desenvolver um recipiente adequado às exigências. Conforme o NYT, o processo custou centenas de dias de trabalho da equipe e US$ 250 mil (cerca de R$ 1,3 milhão, conforme cotação atual).
A empresa esperava que seu refrigerante fosse lançado em um voo espacial em abril de 1985. No entanto, o voo foi cancelado semanas antes da decolagem após advogados da Nasa indicarem que a Coca-Cola não havia seguido os procedimentos corretos e notificado seus concorrentes.
Nova fase do projeto incluiu a Pepsi
A Coca-Cola continuou trabalhando no desenvolvimento de uma embalagem segura. Mesmo sem a confirmação por parte da Nasa, a empresa anunciou que faria parte de um voo espacial marcado para julho daquele mesmo ano. A declaração incomodou a Nasa: “Parece bastante evidente, portanto, que a oferta à Nasa para fornecer a tecnologia tem fins publicitários”, escreveu James M. Beggs, administrador da agência espacial na ocasião.
O novo escorregão da Coca-Cola abriu portas para a Pepsi. Proibindo “propaganda no espaço”, a Nasa assinou contratos com as empresas para que ambas levassem suas bebidas no mesmo voo espacial. Com um cronograma apertado, a Pepsi passou a elaborar sua versão de embalagem. “A lata de Pepsi, pelo que pude perceber, era apenas uma lata de creme de barbear”, disse o astronauta Loren Acton, que segurou o dispositivo durante um exercício de treinamento.

A guerra das colas, então, foi parar na Casa Branca. Pouco mais de duas semanas antes do lançamento da nave espacial com as bebidas, a Coca-Cola apelou diretamente à Casa Branca para que a PepsiCo fosse retirada do voo. O assunto havia se tornado uma disputa entre senadores, executivos e lobistas. O governo dos EUA, porém, não assumiu responsabilidade no caso, deixando a decisão para a Nasa —que manteve a Pepsi na missão.
Coca-Cola e Pepsi finalmente no espaço
A batalha de marketing travada até ali incomodou a tripulação. “As regras mudavam constantemente”, disse Acton. “Não haveria fotografia, depois fotografia, depois vídeo”. Para não se comprometerem com as fabricantes, a tripulação se dividiu entre duas equipes. Uma testaria a embalagem da Coca-Cola e outra, da Pepsi. “Não queríamos estar em uma posição em que pudéssemos dizer que gostamos mais da Coca-Cola do que da Pepsi ou da Pepsi mais do que da Coca-Cola”, disse England.
Com uma tripulação de sete astronautas, o voo STS-51F usou o ônibus espacial Challenger para chegar à órbita em julho de 1985. Para conduzir experimentos em física solar, astronomia e ciência atmosférica, os astronautas trabalhariam em turnos alternados de 12 horas. E, nos intervalos, eles testariam o primeiro refrigerante no espaço.

Apesar de uma série de contratempos após o lançamento da nave, o voo seguiu rumo ao espaço. Já orbitando a quilômetros acima da Terra, os astronautas beberam o primeiro refrigerante. A Coca-Cola foi a primeira a ser testada, e a equipe destinada a esta embalagem borrifou a bebida na boca. Segundo relatos ao NYT, a bebida estava morna e com um pouco de espuma, mas o sabor era similar ao refrigerante terrestre.
Horas depois, a outra equipe testou o recipiente desenvolvido pela Pepsi. Pequenas bolas da bebida flutuavam pela nave Challenger. “Você podia pegar essas bolas de Pepsi e deixá-las voar sem gravidade, soprá-las e fazê-las girar”, lembrou Acton.

Assim que a nave voltou à Terra, Coca-Cola e Pepsi voltaram a se enfrentar, cada uma declarando que havia tido mais sucesso do que a concorrente. Por ter sido testada primeiro durante o voo, a Coca-Cola se lançou como o primeiro refrigerante no espaço.
Apesar de todo o debate político, polêmicas e reviravolta, o projeto das colas foi praticamente esquecido pelos envolvidos e pela mídia, conforme analisa o NYT. A iniciativa não teve grandes efeitos, e 40 anos depois, as bebidas gaseificadas nunca fizeram parte do cardápio regular dos astronautas em órbita.























