O ciúme já foi considerado —e, para muitos, ainda é— a prova de que um amor é verdadeiro. Vinícius de Moraes, um romântico incurável na poesia e na vida, imortalizou essa crença ao chamá-lo de “perfume do amor”.
A lógica do ciúme é simples: amo e quero o ser amado só para mim. Nesse primeiro ponto, sofro quando descubro que ele tem olhos para outras coisas ou pessoas. Mas também sofro porque perco para um terceiro, deixando de ser “o” escolhido. Nesse nível, o vértice do triângulo é tão ou mais importante do que o objeto amado. Quem não conhece um ex que volta arrependido assim que descobre que tem mais alguém no páreo? Menos interessado na ex-amante do que em competir com um rival real ou imaginário. Assim que ganha a contenda, volta a perder o interesse pela amada.
Questão bem retratada em “Closer”, filme de Mike Nichols, de 2004, no qual a relação entre os homens é tão ou mais investida do que a relação deles com as mulheres por quem disputam. O ciumento patológico não aceita não ter controle sobre o desejo feminino, tampouco suporta a sombra do rival, pois ambos põem à prova sua frágil masculinidade.
O ciúme é um afeto presente desde os primórdios da constituição subjetiva, quando cai a ficha de que não somos o único interesse dos cuidadores principais. Afeto dilacerante associado à descoberta de que papais e mamães, de quem dependemos totalmente, têm outros interesses.
Santo Agostinho, nas suas “Confissões” (século 4º), descreve o olhar envenenado da criança pequena para o irmãozinho recém-chegado, mamando no seio da mãe. Texto recuperado por Freud e Lacan, que insistem na rivalidade constituinte da subjetividade humana e na diversidade de respostas dadas a ela. Mas largar mão da exclusividade do cuidador —credo!— é condição de abertura para todas as outras relações amorosas —que delícia.
Esse afeto incômodo é demasiado humano, e o que somos autorizados a fazer em nome dele depende do caldo de cultura, das leis, da educação e das soluções singulares de cada um.
O argumento do crime passional, que livrou —e livra— muito assassino da cadeia, baseia-se na legitimidade do ciúme como índice de amor. Daí a importância histórica de um slogan como “quem ama não mata”, proferido diante do feminicídio de Ângela Diniz. Uma frase que rompe o acordo tácito sobre o sentido do amor. Do amor pela mulher, claro, pois, ainda que o afeto não tenha gênero, a condescendência com as violências cometidas em seu nome tem.
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O ciúme é de inteira responsabilidade de quem o sente, sendo a regra de ouro: cada um com seus problemas. O amante pode confidenciar seu ciúme como quem compartilha uma insegurança, em busca de mais intimidade, mas não para imputá-lo à vítima. O ciumento não tem que aceitar situações nas quais seja humilhado ou desrespeitado, mas ninguém pode ser agredido por não amar com exclusividade ou, simplesmente, por não amar mais.
Sem revermos a cartilha do amor, cada dia mais anacrônica, continuaremos a justificar os crimes hediondos com o afeto mais sublime que temos.
Em tempo: parabéns a Maria da Penha Maia Fernandes, cuja luta incansável elevou o patamar da defesa de todas as mulheres no Brasil. Seu agressor foi preso neste domingo (9) por tentar justificar publicamente a violência que a deixou paraplégica.
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