Portugueses chegam “a casa”. Brasileiros chegam “em casa” —a menos que, cerimoniosos em sua própria casa, decidam arremedar a regência estrangeira com o argumento de um “padrão” intocável, escrito na pedra, à margem da história.
Coitados. Quando superamos o impulso infantil de, para ganhar pontos com a professora, engolir qualquer artificialismo que tentem nos enfiar goela abaixo —só aí tomamos posse da língua materna.
A posse devia ser natural, automática. No caso dos países que são filhos do colonialismo europeu, séculos de uma história frequentemente violenta, com línguas morrendo pelo caminho, tornam tudo mais complicado.
Línguas têm alma. A do português brasileiro, cozida num tacho com idiomas indígenas e africanos e curtida no sólido desprezo à educação que nossos ex-colonizadores praticavam tanto aqui quanto em casa, é bem diferente da alma do português europeu.
Em 1872, o escritor José de Alencar, muito atacado por seus “brasileirismos”, traduziu a diferença numa pergunta: “O povo que chupa o caju, a manga, o cambucá e a jabuticaba pode falar uma língua com igual pronúncia e o mesmo espírito do povo que sorve o figo, a pera, o damasco e a nêspera?”.
Meio século depois, seu colega Mário de Andrade trocava em miúdos: “Não se trata de reação contra Portugal. Trata-se duma independência natural, sem reivindicações, sem nacionalismos, sem antagonismos (…). Não se trata de reagir. Trata-se de agir, que é muito mais viril e mais nobre. Se trata de ‘ser’. O brasileiro tem o direito de ser.”
Óbvio, não? Questão de dignidade, de vergonha na cara até —honrar a língua que ouvimos de nossa mãe no berço. Nada tão fácil, porém. Em 1955, Rachel de Queiroz escreveu o seguinte a um editor português que propunha “corrigir” um livro seu:
“Acontece, entretanto, meu caro amigo, que esse caçanje [português com influência africana], que esses pronomes malpostos, que essa língua que lhes revolta o ouvido, é a nossa língua (…). Já não temos outra, e voltar ao modelo inflexível da fala de Portugal seria para nós, a esta altura, uma contrafação impossível e ridícula.”
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Nos entendemos, ainda bem, em meio aos ruídos morfossintáticos e lexicais —mais do que isso, somos irmãos, e no altar aqui de casa Fernando Pessoa é santo graduado.
Mesmo assim, uma frase como a anterior, iniciada por pronome oblíquo, arrepia os pelos lusitanos enquanto para nós é chinelo velho —pelo menos desde o século 17, quando o poeta baiano Gregório de Matos escreveu seu famoso verso “Vos dou os parabéns sem falso engano”.
Como já percebeu a leitora atenta, tudo isso vem a propósito da polêmica para a qual fui arrastado semana passada, ao ser acusado sem fundamento algum —mas não sem malícia— de querer renomear de “brasileiro” a língua que falamos.
Nonada. É suficiente compreender que a imprescindível norma culta, se por definição não se confunde com as oralidades, tampouco pode agir como sua inimiga. Quer dizer, não se quiser ter alma. Basta entender que o português é nosso —e habitá-lo como se habita uma casa.
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