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Home News Estado

Rock in Rio 1985: dez curiosidades históricas da primeira edição

Redação by Redação
2 de setembro de 2026
in Estado
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rock-in-rio-1985:-dez-curiosidades-historicas-da-primeira-edicao

Rock in Rio 1985: dez curiosidades históricas da primeira edição

Grupo Abril

Casal jovem de cabelos cacheados se beijando, com a mulher abraçando o homem por trás, em frente a um letreiro de neon com a palavra RICO em preto e branco

Casal se beija diante da fachada da Cidade do Rock, Rock in Rio, janeiro de 1985 (Não identificado/Internet)

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Se você chegou aqui atrás do Rock in Rio 2026, está no lugar certo. A Cidade do Rock volta a acender nesta sexta-feira, 4 de setembro, e o festival segue nos dias 5, 6, 7, 11, 12 e 13. Mas, antes de olhar para o que vem aí, que tal voltar a janeiro de 1985, quando tudo começou?

Em 2022, escrevi aqui na coluna boa parte dessa história (leia aqui). Agora, quatro anos depois, volto ao primeiro festival com novas curiosidades e algumas atualizações. Vamos revisitar um pouco da História desse que é um dos maiores festivais de música do mundo, um megaevento que colocou o Rio de Janeiro e o Brasil no mapa dos grandes shows e turnês mundiais.

Antes do Rock in Rio, vieram muitos “nãos”

Responsável por ter trazido Frank Sinatra ao Brasil, em 1980, o publicitário e empresário Roberto Medina, dono da agência Artplan, “penou” até conseguir viabilizar o sonho do Rock in Rio. Anos antes do festival, já desacreditado com a situação do país e pensando em se mudar para o exterior, ele foi convencido pela mulher, Maria Alice, a ficar num Brasil que começava a respirar os novos ares da redemocratização.

A ideia que surgiu era de uma ambição difícil até de explicar para o mercado da época: reunir, durante dez dias, alguns dos maiores astros internacionais da música com a nata do pop e do rock brasileiro, diante de um público que poderia passar de 1 milhão de pessoas.

E o problema não era só dinheiro. O Brasil carregava uma péssima reputação no show business internacional, depois de casos de calotes, problemas de produção e até roubos de equipamentos. Medina e sua equipe viajaram pelos Estados Unidos e pela Europa tentando convencer artistas e empresários. Segundo relatos sobre aquelas negociações, foram cerca de 70 “nãos”.

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A virada veio graças a um velho conhecido: Frank Sinatra. Medina pediu ajuda ao cantor, com quem havia trabalhado no histórico show do Maracanã, e entrou em cena Lee Solters, seu poderoso relações-públicas. Solters organizou uma coletiva no Beverly Hilton, em Los Angeles. Medina esperava poucos jornalistas; apareceram dezenas. No dia seguinte, o projeto do festival estava estampado na imprensa americana. Pouco depois, aconteceu o contrário do que vinha acontecendo: empresários passaram a procurar Medina para colocar seus artistas no Rock in Rio.

O primeiro astro internacional a assinar foi Ozzy Osbourne. Queen veio logo em seguida — e, a partir daí, aquele festival que parecia impossível começou finalmente a ganhar um line-up à altura da loucura imaginada por Medina.

Contratar os metaleiros foi uma história à parte

Convencer as estrelas do rock a vir ao Brasil também produziu algumas cenas dignas de filme. Roberto Medina conta que, naquela época, só andava de terno e gravata. Assim chegou a uma casa em Beverly Hills para uma das conversas sobre a contratação do Iron Maiden. Quem abriu a porta, segundo seu relato, foi um empresário da banda de cueca, com uma enorme barba — e restos de macarrão pendurados nela.

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O homem continuou comendo durante a conversa. Medina saiu de lá com a impressão de que talvez seu visual formal demais não estivesse ajudando. Virou para o parceiro que o acompanhava e decidiu que precisavam comprar jeans: daquele jeito, brincou, os roqueiros ainda iam pensar que eles eram agentes do FBI. O episódio foi contado pelo próprio Medina à revista Showbizz e depois reproduzido em sua biografia.

Com Ozzy Osbourne, a peculiaridade foi parar no papel. Três anos antes, em 1982, o cantor havia protagonizado um dos episódios mais famosos — e bizarros — da história do rock ao arrancar com os dentes a cabeça de um morcego arremessado ao palco, nos Estados Unidos. Ozzy dizia ter pensado que o animal fosse de borracha.

Durante décadas circulou a história de que, para tocar no primeiro Rock in Rio, ele precisou assinar uma cláusula que protegia os animais brasileiros. Em 2025, Medina confirmou que não era lenda. Disse que ele próprio escreveu no contrato: “Me comprometo a não comer morcegos, pintinhos e similares.”

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E a precaução não foi totalmente abstrata. Nos shows de Ozzy no festival, galinhas vivas chegaram a ser jogadas no palco. A fotógrafa Renata Falzoni, que cobria o evento para a Folha, contou que o cantor não fez mal a elas: pegava os animais e os entregava à equipe para que fossem retirados.

Ozzy Osbourne, com cabelos loiros e volumosos, sorri e levanta os dois braços abertos para cima, em um palco com iluminação azul
Ozzy Osbourne no palco do Rock in Rio 1985 (Michael Ochs Archives/Getty Images)

A primeira Cidade do Rock nasceu, desapareceu e voltou

O lugar escolhido para esse megaevento foi um terreno em Jacarepaguá, na região hoje conhecida como Ilha Pura, zona oeste do Rio, bem ao lado do centro de convenções Riocentro. A área havia sido cedida pela construtora Carvalho Hosken em meados de 1984. O desafio era construir, em poucos meses, com 4,5 milhões de dólares, uma estrutura digna das maiores estrelas da música e que pudesse receber aproximadamente 150 mil pessoas por dia, com conforto e organização.

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Tratava-se de um terreno com mais de 250 mil metros quadrados, que precisou ser preparado praticamente do zero. Para o abastecimento de água, construiu-se uma subadutora de um quilômetro e, como medida de saneamento, foi criada uma lagoa de estabilização com aguapés para receber a água dos banheiros. O palco tinha 80 metros de boca de cena e era anunciado como o maior do mundo naquele momento.

Passado o festival, a primeira Cidade do Rock foi desmontada. Quando o Rock in Rio voltou ao Brasil, em 1991, a segunda edição aconteceu no Maracanã. Em 2001, o evento retornou a Jacarepaguá, à mesma região onde tudo havia começado.

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A mesma região ainda ganharia outro capítulo: ali foi erguida a Vila dos Atletas dos Jogos Olímpicos Rio 2016. Hoje, os edifícios formam o condomínio Ilha Pura. Quem olha para o lugar agora talvez nem imagine que, muito antes das Olimpíadas, foi ali que nasceu a primeira Cidade do Rock.

Um Passat branco ajudou a salvar o festival

No início de setembro de 1984, Medina estava preocupado com o andamento das obras e pensou em cancelar o festival. Mas conta que foi abordado na rua por três jovens em um Passat branco que lhe agradeceram imensamente por possibilitar o encontro deles com seus maiores ídolos. Isso lhe deu uma injeção de ânimo e fez com que, no dia seguinte, o número de operários fosse triplicado.

A cena chega até nós pelo relato do próprio Medina. O Passat, porém, acabou incorporado à memória oficial do Rock in Rio. Quarenta anos depois, foi recriado na Rota 85, espaço montado na edição de 2024 para lembrar o festival que quase não saiu do papel.

A lama também virou atração

Choveu. Muito. Em alguns dias, a área diante do palco se transformou num imenso lamaçal. O público escorregava, improvisava proteção com sacos plásticos e, quando já não havia muito a fazer, sentava, dançava e seguia os shows no meio da lama mesmo.

As fotografias dos jovens enlameados se tornaram parte inseparável da iconografia do festival, quase uma versão carioca das imagens de Woodstock. Décadas depois, a lama continuaria sendo lembrada em exposições, cenografias e objetos comemorativos do próprio Rock in Rio. Foi muita música, lama, paz e amor.

Homem barbudo de camiseta e calça escuras carrega uma mulher de vestido claro e cabelos cacheados, ambos sorrindo, em um terreno lamacento com poças dágua. Ao fundo, estruturas de andaimes e outras pessoas embaçadas
Homem carrega mulher no colo para protegê-la da lama e das poças d’água no Rock in Rio de 1985 (Jorge Marinho/Agência O Globo)

A cidade tinha McDonald’s e até salão New Wave

O nome Cidade do Rock não era apenas força de expressão. Além do palco e dos camarins, havia dois shopping centers com dezenas de lojas, postos médicos, bares, restaurantes e grandes operações de comida rápida. Em um único dia, o McDonald’s vendeu cerca de 58 mil hambúrgueres e bateu um recorde mundial de atendimento.

Mas uma das imagens mais deliciosamente oitentistas daquela estrutura é a do salão New Wave. Sob um letreiro luminoso, cabeleireiros trabalhavam sem parar. As pessoas entravam e saíam com topetes, moicanos, cabelos fixados com gel e visuais inspirados na onda new wave da época.

Num festival que precisou construir uma cidade inteira, era possível até mudar de cabelo entre um show e outro. Mais anos 1980 do que isso, impossível.

Uma miniemissora levou o festival para o país inteiro

A Rede Globo montou dentro da Cidade do Rock uma verdadeira miniemissora de televisão. Mais de 300 profissionais participaram da cobertura, que contava com estúdio de entrevistas, salas de produção, unidades móveis, cabines de áudio e 12 câmeras dedicadas ao festival. Uma delas, controlada remotamente, foi instalada no teto do palco.

Antes e durante o evento, pequenos boletins explicavam a história do rock, apresentavam os artistas e traduziam para o grande público os hábitos daquela juventude. Foi nesse contexto que a palavra “metaleiro” ganhou projeção nacional. Há quem atribua à televisão a própria invenção do termo. Como essa autoria é discutível, o mais correto é dizer que a cobertura ajudou a popularizá-lo no Brasil.

Em 1985, muito antes de redes sociais e transmissões por celular, ver o Rock in Rio pela televisão também fazia parte da experiência. O festival acontecia em Jacarepaguá, mas entrava ao mesmo tempo em milhões de casas.

Tancredo e Cazuza dividiram o quinto dia do festival

A obra chegou a ser embargada pelo então governador Leonel Brizola ao final de setembro. Apesar das muitas justificativas oficiais, dizem que teria sido por causa de uma briga política. A agência Artplan foi a responsável pela campanha eleitoral do adversário de Brizola nas eleições de 1982, Moreira Franco, e por isso há essa especulação.

Segundo o relato de Medina, Tancredo Neves apadrinhou o festival e intercedeu por sua realização. Meses depois, o político entraria novamente na história do Rock in Rio, desta vez diante do país inteiro.

Em 15 de janeiro de 1985, no quinto dia do festival, o Colégio Eleitoral escolheu Tancredo para a Presidência da República. Na Cidade do Rock, durante a apresentação do Barão Vermelho, Cazuza cantou Pro Dia Nascer Feliz e desejou “um Brasil novo”, acompanhado pela plateia e por bandeiras brasileiras.

O festival não produziu a redemocratização, evidentemente. Mas música, juventude e transição política dividiram o mesmo calendário e o mesmo ambiente de esperança.

Na estreia, teve ovo cozido e sangue no palco

No dia 11 de janeiro de 1985, pontualmente, às 18h, começava o primeiro Rock in Rio. Ney Matogrosso, o artista nacional mais bem pago do festival, abriu a noite com o corpo coberto de purpurina, tanga de pele de onça, maquiagem carregada e penas na cabeça. Fez um show memorável, com América do Sul, Rosa de Hiroshima e vinte pombas brancas pedindo paz.

Parte dos fãs de rock pesado, que esperava Whitesnake, Iron Maiden e Queen, reagiu com hostilidade. Jogaram ovos cozidos no palco. Ney chutou de volta e seguiu o show. Erasmo Carlos também enfrentou a impaciência de uma parcela dos metaleiros naquela primeira noite.

Mais tarde, Bruce Dickinson, vocalista do Iron Maiden, quebrou uma guitarra no palco e acabou atingindo a própria testa com o instrumento. Voltou com um filete de sangue no rosto e continuou cantando. Logo no primeiro dia, o Rock in Rio deixou claro que reuniria públicos muito diferentes e que seus artistas não seriam facilmente interrompidos.

O Rock in Rio nunca foi apenas rock, e mudou vidas

Mas, para provar que o RIR nunca foi apenas de Rock, vale relembrar que, no line-up de 1985, havia, além do Ney, Elba Ramalho, Gilberto Gil, Al Jarreau, James Taylor e muito mais. Teve Queen, AC/DC, Iron Maiden, Scorpions, Blitz, Barão Vermelho, Kid Abelha e outros astros do rock nacional e internacional.

Alguns artistas também saíram dali transformados. O coro do público em Love of My Life se tornou um dos momentos definitivos da história do Queen. James Taylor, que atravessava um período difícil na carreira, descreveu a passagem pelo festival como uma experiência capaz de devolver vida ao seu coração e depois compôs Only a Dream in Rio. Os Paralamas do Sucesso, que ainda tinham projeção sobretudo no eixo Rio-São Paulo, passaram a viajar o Brasil inteiro.

E é aqui que 1985 encosta em 2026. Gilberto Gil, que participou da primeira edição, volta ao Palco Mundo em 7 de setembro, na mesma noite de Elton John. Quarenta e um anos separam os dois festivais. Mudaram o público, a cidade, a tecnologia, os palcos e a própria indústria da música. O que em 1985 parecia uma aventura de resultado incerto tornou-se um evento capaz de trazer regularmente ao Rio alguns dos maiores artistas do planeta.

Faltam poucos dias para tudo recomeçar. E você: qual é a sua primeira lembrança de Rock in Rio?

*Daniel Sampaio é advogado, ativista do patrimônio cultural e criador de conteúdo. Fundou o Instagram @RioAntigo em 2012 e a ONG Instituto Rio Antigo em 2022.

Grupo Abril

Casal jovem de cabelos cacheados se beijando, com a mulher abraçando o homem por trás, em frente a um letreiro de neon com a palavra RICO em preto e branco

Casal se beija diante da fachada da Cidade do Rock, Rock in Rio, janeiro de 1985 (Não identificado/Internet)

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Em 2022, escrevi aqui na coluna boa parte dessa história (leia aqui). Agora, quatro anos depois, volto ao primeiro festival com novas curiosidades e algumas atualizações. Vamos revisitar um pouco da História desse que é um dos maiores festivais de música do mundo, um megaevento que colocou o Rio de Janeiro e o Brasil no mapa dos grandes shows e turnês mundiais.

Antes do Rock in Rio, vieram muitos “nãos”

Responsável por ter trazido Frank Sinatra ao Brasil, em 1980, o publicitário e empresário Roberto Medina, dono da agência Artplan, “penou” até conseguir viabilizar o sonho do Rock in Rio. Anos antes do festival, já desacreditado com a situação do país e pensando em se mudar para o exterior, ele foi convencido pela mulher, Maria Alice, a ficar num Brasil que começava a respirar os novos ares da redemocratização.

A ideia que surgiu era de uma ambição difícil até de explicar para o mercado da época: reunir, durante dez dias, alguns dos maiores astros internacionais da música com a nata do pop e do rock brasileiro, diante de um público que poderia passar de 1 milhão de pessoas.

E o problema não era só dinheiro. O Brasil carregava uma péssima reputação no show business internacional, depois de casos de calotes, problemas de produção e até roubos de equipamentos. Medina e sua equipe viajaram pelos Estados Unidos e pela Europa tentando convencer artistas e empresários. Segundo relatos sobre aquelas negociações, foram cerca de 70 “nãos”.

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O primeiro astro internacional a assinar foi Ozzy Osbourne. Queen veio logo em seguida — e, a partir daí, aquele festival que parecia impossível começou finalmente a ganhar um line-up à altura da loucura imaginada por Medina.

Contratar os metaleiros foi uma história à parte

Convencer as estrelas do rock a vir ao Brasil também produziu algumas cenas dignas de filme. Roberto Medina conta que, naquela época, só andava de terno e gravata. Assim chegou a uma casa em Beverly Hills para uma das conversas sobre a contratação do Iron Maiden. Quem abriu a porta, segundo seu relato, foi um empresário da banda de cueca, com uma enorme barba — e restos de macarrão pendurados nela.

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O homem continuou comendo durante a conversa. Medina saiu de lá com a impressão de que talvez seu visual formal demais não estivesse ajudando. Virou para o parceiro que o acompanhava e decidiu que precisavam comprar jeans: daquele jeito, brincou, os roqueiros ainda iam pensar que eles eram agentes do FBI. O episódio foi contado pelo próprio Medina à revista Showbizz e depois reproduzido em sua biografia.

Com Ozzy Osbourne, a peculiaridade foi parar no papel. Três anos antes, em 1982, o cantor havia protagonizado um dos episódios mais famosos — e bizarros — da história do rock ao arrancar com os dentes a cabeça de um morcego arremessado ao palco, nos Estados Unidos. Ozzy dizia ter pensado que o animal fosse de borracha.

Durante décadas circulou a história de que, para tocar no primeiro Rock in Rio, ele precisou assinar uma cláusula que protegia os animais brasileiros. Em 2025, Medina confirmou que não era lenda. Disse que ele próprio escreveu no contrato: “Me comprometo a não comer morcegos, pintinhos e similares.”

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E a precaução não foi totalmente abstrata. Nos shows de Ozzy no festival, galinhas vivas chegaram a ser jogadas no palco. A fotógrafa Renata Falzoni, que cobria o evento para a Folha, contou que o cantor não fez mal a elas: pegava os animais e os entregava à equipe para que fossem retirados.

Ozzy Osbourne, com cabelos loiros e volumosos, sorri e levanta os dois braços abertos para cima, em um palco com iluminação azul
Ozzy Osbourne no palco do Rock in Rio 1985 (Michael Ochs Archives/Getty Images)

A primeira Cidade do Rock nasceu, desapareceu e voltou

O lugar escolhido para esse megaevento foi um terreno em Jacarepaguá, na região hoje conhecida como Ilha Pura, zona oeste do Rio, bem ao lado do centro de convenções Riocentro. A área havia sido cedida pela construtora Carvalho Hosken em meados de 1984. O desafio era construir, em poucos meses, com 4,5 milhões de dólares, uma estrutura digna das maiores estrelas da música e que pudesse receber aproximadamente 150 mil pessoas por dia, com conforto e organização.

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Tratava-se de um terreno com mais de 250 mil metros quadrados, que precisou ser preparado praticamente do zero. Para o abastecimento de água, construiu-se uma subadutora de um quilômetro e, como medida de saneamento, foi criada uma lagoa de estabilização com aguapés para receber a água dos banheiros. O palco tinha 80 metros de boca de cena e era anunciado como o maior do mundo naquele momento.

Passado o festival, a primeira Cidade do Rock foi desmontada. Quando o Rock in Rio voltou ao Brasil, em 1991, a segunda edição aconteceu no Maracanã. Em 2001, o evento retornou a Jacarepaguá, à mesma região onde tudo havia começado.

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A mesma região ainda ganharia outro capítulo: ali foi erguida a Vila dos Atletas dos Jogos Olímpicos Rio 2016. Hoje, os edifícios formam o condomínio Ilha Pura. Quem olha para o lugar agora talvez nem imagine que, muito antes das Olimpíadas, foi ali que nasceu a primeira Cidade do Rock.

Um Passat branco ajudou a salvar o festival

No início de setembro de 1984, Medina estava preocupado com o andamento das obras e pensou em cancelar o festival. Mas conta que foi abordado na rua por três jovens em um Passat branco que lhe agradeceram imensamente por possibilitar o encontro deles com seus maiores ídolos. Isso lhe deu uma injeção de ânimo e fez com que, no dia seguinte, o número de operários fosse triplicado.

A cena chega até nós pelo relato do próprio Medina. O Passat, porém, acabou incorporado à memória oficial do Rock in Rio. Quarenta anos depois, foi recriado na Rota 85, espaço montado na edição de 2024 para lembrar o festival que quase não saiu do papel.

A lama também virou atração

Choveu. Muito. Em alguns dias, a área diante do palco se transformou num imenso lamaçal. O público escorregava, improvisava proteção com sacos plásticos e, quando já não havia muito a fazer, sentava, dançava e seguia os shows no meio da lama mesmo.

As fotografias dos jovens enlameados se tornaram parte inseparável da iconografia do festival, quase uma versão carioca das imagens de Woodstock. Décadas depois, a lama continuaria sendo lembrada em exposições, cenografias e objetos comemorativos do próprio Rock in Rio. Foi muita música, lama, paz e amor.

Homem barbudo de camiseta e calça escuras carrega uma mulher de vestido claro e cabelos cacheados, ambos sorrindo, em um terreno lamacento com poças dágua. Ao fundo, estruturas de andaimes e outras pessoas embaçadas
Homem carrega mulher no colo para protegê-la da lama e das poças d’água no Rock in Rio de 1985 (Jorge Marinho/Agência O Globo)

A cidade tinha McDonald’s e até salão New Wave

O nome Cidade do Rock não era apenas força de expressão. Além do palco e dos camarins, havia dois shopping centers com dezenas de lojas, postos médicos, bares, restaurantes e grandes operações de comida rápida. Em um único dia, o McDonald’s vendeu cerca de 58 mil hambúrgueres e bateu um recorde mundial de atendimento.

Mas uma das imagens mais deliciosamente oitentistas daquela estrutura é a do salão New Wave. Sob um letreiro luminoso, cabeleireiros trabalhavam sem parar. As pessoas entravam e saíam com topetes, moicanos, cabelos fixados com gel e visuais inspirados na onda new wave da época.

Num festival que precisou construir uma cidade inteira, era possível até mudar de cabelo entre um show e outro. Mais anos 1980 do que isso, impossível.

Uma miniemissora levou o festival para o país inteiro

A Rede Globo montou dentro da Cidade do Rock uma verdadeira miniemissora de televisão. Mais de 300 profissionais participaram da cobertura, que contava com estúdio de entrevistas, salas de produção, unidades móveis, cabines de áudio e 12 câmeras dedicadas ao festival. Uma delas, controlada remotamente, foi instalada no teto do palco.

Antes e durante o evento, pequenos boletins explicavam a história do rock, apresentavam os artistas e traduziam para o grande público os hábitos daquela juventude. Foi nesse contexto que a palavra “metaleiro” ganhou projeção nacional. Há quem atribua à televisão a própria invenção do termo. Como essa autoria é discutível, o mais correto é dizer que a cobertura ajudou a popularizá-lo no Brasil.

Em 1985, muito antes de redes sociais e transmissões por celular, ver o Rock in Rio pela televisão também fazia parte da experiência. O festival acontecia em Jacarepaguá, mas entrava ao mesmo tempo em milhões de casas.

Tancredo e Cazuza dividiram o quinto dia do festival

A obra chegou a ser embargada pelo então governador Leonel Brizola ao final de setembro. Apesar das muitas justificativas oficiais, dizem que teria sido por causa de uma briga política. A agência Artplan foi a responsável pela campanha eleitoral do adversário de Brizola nas eleições de 1982, Moreira Franco, e por isso há essa especulação.

Segundo o relato de Medina, Tancredo Neves apadrinhou o festival e intercedeu por sua realização. Meses depois, o político entraria novamente na história do Rock in Rio, desta vez diante do país inteiro.

Em 15 de janeiro de 1985, no quinto dia do festival, o Colégio Eleitoral escolheu Tancredo para a Presidência da República. Na Cidade do Rock, durante a apresentação do Barão Vermelho, Cazuza cantou Pro Dia Nascer Feliz e desejou “um Brasil novo”, acompanhado pela plateia e por bandeiras brasileiras.

O festival não produziu a redemocratização, evidentemente. Mas música, juventude e transição política dividiram o mesmo calendário e o mesmo ambiente de esperança.

Na estreia, teve ovo cozido e sangue no palco

No dia 11 de janeiro de 1985, pontualmente, às 18h, começava o primeiro Rock in Rio. Ney Matogrosso, o artista nacional mais bem pago do festival, abriu a noite com o corpo coberto de purpurina, tanga de pele de onça, maquiagem carregada e penas na cabeça. Fez um show memorável, com América do Sul, Rosa de Hiroshima e vinte pombas brancas pedindo paz.

Parte dos fãs de rock pesado, que esperava Whitesnake, Iron Maiden e Queen, reagiu com hostilidade. Jogaram ovos cozidos no palco. Ney chutou de volta e seguiu o show. Erasmo Carlos também enfrentou a impaciência de uma parcela dos metaleiros naquela primeira noite.

Mais tarde, Bruce Dickinson, vocalista do Iron Maiden, quebrou uma guitarra no palco e acabou atingindo a própria testa com o instrumento. Voltou com um filete de sangue no rosto e continuou cantando. Logo no primeiro dia, o Rock in Rio deixou claro que reuniria públicos muito diferentes e que seus artistas não seriam facilmente interrompidos.

O Rock in Rio nunca foi apenas rock, e mudou vidas

Mas, para provar que o RIR nunca foi apenas de Rock, vale relembrar que, no line-up de 1985, havia, além do Ney, Elba Ramalho, Gilberto Gil, Al Jarreau, James Taylor e muito mais. Teve Queen, AC/DC, Iron Maiden, Scorpions, Blitz, Barão Vermelho, Kid Abelha e outros astros do rock nacional e internacional.

Alguns artistas também saíram dali transformados. O coro do público em Love of My Life se tornou um dos momentos definitivos da história do Queen. James Taylor, que atravessava um período difícil na carreira, descreveu a passagem pelo festival como uma experiência capaz de devolver vida ao seu coração e depois compôs Only a Dream in Rio. Os Paralamas do Sucesso, que ainda tinham projeção sobretudo no eixo Rio-São Paulo, passaram a viajar o Brasil inteiro.

E é aqui que 1985 encosta em 2026. Gilberto Gil, que participou da primeira edição, volta ao Palco Mundo em 7 de setembro, na mesma noite de Elton John. Quarenta e um anos separam os dois festivais. Mudaram o público, a cidade, a tecnologia, os palcos e a própria indústria da música. O que em 1985 parecia uma aventura de resultado incerto tornou-se um evento capaz de trazer regularmente ao Rio alguns dos maiores artistas do planeta.

Faltam poucos dias para tudo recomeçar. E você: qual é a sua primeira lembrança de Rock in Rio?

*Daniel Sampaio é advogado, ativista do patrimônio cultural e criador de conteúdo. Fundou o Instagram @RioAntigo em 2012 e a ONG Instituto Rio Antigo em 2022.

Redação

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