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Se fizermos um pouco de silêncio, ouviremos o murmúrio aflito. Bobinho, um-toque, golzinho pequeno (sublime redundância) e brincadeiras da mesma matriz suplicam: não nos abandonem!
Pouco a pouco, evaporam do recreio, da pracinha, da praia. Logo a praia, refúgio de diversidade e diversão popular.
“Bora brincar de bobinho”, convida o sorriso do guri, bola na mão, fogo de criança. Os colegas ensaiam aceitar, mas desistem diante da areia tomada por redes e barracas de aluguel. Preferem continuar nos celulares.
A cena, testemunhada domingo passado, emite dois alertas. O primeiro diz respeito à elitização do espaço historicamente banhado pela mistura, pelo lazer democrático.
A proliferação de serviços e atividades demarcadas à beira-mar gera trabalho, renda, consumo. Passada do ponto, gera também exclusão. Adultera a genética praiana.
Nunca é fácil, em qualquer balneário urbano, calibrar a mordida do privado sobre o público. Implica a conciliação de interesses sociais, comerciais, políticos em torno de um mercado prodigioso. Areias cariocas movimentam R$ 4 bilhões anuais, estima a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico.
O desafio envolve a gestão pública, o empresariado, a população. Do compromisso conjunto depende a praia – e o Rio – que desejamos preservar.
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O segundo alerta berra outra trepidação sociocultural. Quando a alma infantil atrofia o apetite lúdico, é sinal de que a correção de curso revela-se urgente.
Num mundo são, ninguém esnobaria a bola, a amarelinha, a ciranda – especialmente uma criança. Brincadeiras assim seguiriam tão necessárias quanto as fábulas, os sonhos, as asas da arte, da literatura, da música, quanto a liberdade anárquica das fantasias, os banhos de mangueira, os cafunés de vó.
Num mundo solar, não seriam usurpadas pelo algoritmo e seu mar de telas, pela cadência utilitária dominante. Num mundo inteligente, elas teriam um lugar cativo protegido das ferrugens do tempo e das imbecilidades. Elas nos fariam companhia igual um bicho de estimação, e nos vacinariam contra as asperezas.
O despretensioso bobinho estimula a coordenação, o raciocínio, a sociabilização, o humor. Ensina a mexer o corpo e a mente, a conviver, a espairecer em grupo. Alfabetização invisível, esculpida na rua, nem por isso menos importante.
Sem percebermos, os dentes afiados do cotidiano trituram essas brincadeiras. Viram pó à margem do caminho, penumbras no sótão da memória.
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Confundimos despretensão com desimportância e gradativamente as dispensamos, como se não fizessem uma falta danada, como se não equivalessem a uma preciosa brisa no verão escaldante do Rio. Permitimos que o pendor instrumental as atire ao relento.
“A gente se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta”, observa Marina Colasanti. Sem frestas à resignação, a formidável escritora arremata: “A gente se acostuma, eu sei, mas não devia”. A advertência bordada em versos emblemáticos é uma das joias legadas pela vencedora do prêmio Machado da Assis, que partiu faz um mês, aos 87 anos.
O texto instigante, publicado no Jornal do Brasil em 1972, continua desgraçadamente conectado com a realidade moderna. Traça um inventário de renúncias em conta-gotas banalizadas na rotina, pequenas mutilações à vida.
Não basta vestir a carapuça. É preciso atender ao convite do bobinho, do golzinho, da altinha, do pique, do queimado. É preciso nos reacostumarmos a brincar.
Viva Marina!
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Bolinha pro alto
A queda prematura de João Fonseca no Rio Open não arranha o potencial do prodígio de 18 anos, estampado na arquibancada festiva. A galera lotou o Jockey tanto para apreciar o tenista virtuoso, sua poderosa direita, quanto para celebrar o ídolo em gestação, esperança de voltarmos à elite mundial. Quando a sucessão de Guga não mais lhe pesar nos ombros, as projeções audaciosas tenderão a se confirmar.
Tampouco a eliminação precoce dos brasileiros lanhou a densidade esportiva, cultural e econômica conquistada pelo principal torneio de tênis da América do Sul. Reflete-se não só na procura fulminante por ingressos, nas múltiplas ativações de marcas, nas cifras crescentes. Ecoa também no vaivém alto astral pelos corredores e na aquarela de sotaques que retratam a expansão da iniciativa inaugurada há 11 anos.
O êxito atiça a possibilidade de ampliação em 2026. A bolinha da vez insinua voar mais alto.
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Poupem São Pedro
Felizmente os gestores do Carioca renderam-se ao óbvio e desmarcaram jogos às quatro da tarde sob o maçarico instalado na capital fluminense. Conveniências empresariais movidas pelos direitos de transmissão – legítimas – jamais devem se impor à preservação da vida. Simples assim.
Calor extremo torna perigosa a prática esportiva. Pode causar, por exemplo, distúrbios metabólicos e cardiorrespiratórios. O risco estende-se a atletas de alto rendimento.
Sintoma do descaso ambiental, a escalada térmica transforma o excepcional em corriqueiro. Nada nos autoriza a prever verões menos severos. Pelo contrário.
O novo padrão, aparentemente irreversível, incide sobre o planejamento do aquecido setor de eventos esportivos. Exige ajustes nos horários de disputas em ambientes não climatizados.
A inadiável responsabilidade envolve administradores, investidores, jogadores. Hesitar em efetivá-la, ou adotá-la só de forma extraordinária, indica uma negligência nociva para a saúde e para os negócios.
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O desejável amadurecimento pouparia São Pedro de ser sistematicamente usado como desculpa. O calorão carioca nessa época é tão surpreendente quanto o carnaval.
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Alexandre Carauta é jornalista e professor da PUC-Rio, integrante do corpo docente da pós em Direito Desportivo da PUC-Rio. Doutor em Comunicação, mestre em Gestão Empresarial, pós-graduado em Administração Esportiva, formado também em Educação Física. Organizador do livro “Comunicação estratégica no esporte”.
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