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O efeito Matilda: uma maldição que assola as mulheres na ciência

Redação by Redação
28 de agosto de 2025
in Saude
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o-efeito-matilda:-uma-maldicao-que-assola-as-mulheres-na-ciencia

O efeito Matilda: uma maldição que assola as mulheres na ciência

marguerite-vogt-bastidores-ciencia
Marguerite Vogt: cientista que descobriu vacina para pólio, mas não foi devidamente reconhecida, é uma das personagens do livro ‘Bastidores da Ciência’ (Foto: ICH/Reprodução)

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Fazer ciência é uma tarefa humana, demasiado humana – para o bem e para o mal. Por isso, tirar os feitos e as descobertas que entraram para a história do pedestal acadêmico, contando o que se passou na cozinha antes de se chegar ao prato principal, é também uma forma de compreender o processo em si, reparar injustiças e aproximar o grande público daqueles nomes que hoje figuram (ou estão escondidos) nos livros didáticos e na Wikipedia.

Foi com esse propósito que o biólogo Leandro Lobo, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), aproveitou as horas longe do seu laboratório de microbiologia para escrever Bastidores da Ciência, recém-publicado pela Editora ICH, do Instituto Ciência Hoje. Como o título entrega, o autor tira o pano e o véu de episódios que, em maior ou menor grau, revolucionaram o conhecimento e o mundo, e oferece relatos curiosos, inesperados e instigantes sobre personagens celebrados ou esquecidos pela história.

bastidores da ciencia
– (Capa: ICH/Reprodução)

Nessa pegada, expõe o papel do acaso nas descobertas – como no famoso caso da penicilina de Fleming e na bem menos conhecida trama que deu origem ao Botox -, o empenho e a genialidade de pessoas que mudaram a forma de encarar problemas de saúde (do sanitarista Vital Brazil à virologista Gertrude Elion), a origem de invenções que até hoje melhoram nossa vida (da insulina ao ar-condicionado) e as injustiças diante de mulheres que fizeram a diferença, mas foram escanteadas nos anais científicos.

Esta última, aliás, é uma das melhores partes do livro. Lobo nos apresenta o chamado efeito Matilda, expressão cunhada por uma historiadora em referência a uma americana que, ainda no século XIX, buscou romper com a visão de que mulheres não eram criativas e inventivas como os homens.

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O efeito Matilda denuncia a falta de reconhecimento dessas cientistas que proporcionaram avanços tremendos, porém não foram reconhecidas, de imediato e ao longo dos anos, por seus trabalhos e realizações. Entre nomes que sofreram com essa maldição machista, temos a alemã Marguerite Vogt (fundamental para a criação de uma vacina contra a poliomielite), a americana Nettie Stevens (que descobriu o cromossomo Y dos homens que a botaram de lado), a inglesa Cecilia Payne-Gaposchkin (que desvendou de que matéria é feito o Sol) e a dinamarquesa Inge Lehmann (personagem central para o entendimento sobre o núcleo da Terra).

Justiça é feita com Bastidores da Ciência. E precisa continuar sendo feita, segundo o autor, porque o machismo e o efeito Matilda ainda vicejam dentro e fora das universidades e centros de pesquisa.

Com a palavra, Leandro Lobo.

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O microbiologista e autor, Leandro Lobo
O microbiologista e autor, Leandro Lobo (Foto: Eduardo de Oliveira/ UFRJ/Reprodução)

Em relação ao “efeito Matilda”, do seu ponto de vista, conseguimos superar essa falta de crédito e mesmo respeito ao trabalho das mulheres cientistas?
Infelizmente, ainda não. Embora existam avanços importantes, os dados e os relatos continuam apontando para desigualdades estruturais, culturais e institucionais que persistem até mesmo no meio acadêmico, que por sua própria natureza deveria ser mais plural e inclusivo. Os dados mostram que as mulheres são minoria em posições de poder na ciência, especialmente nos níveis mais altos de bolsas e coordenação de pesquisa. embora entrem em número igual ou maior do que homens nos cursos de graduação, elas desaparecem nos níveis superiores da carreira científica.

Então evoluímos pouco nesse sentido?
Há um ponto positivo a se destacar: ainda que com grande atraso, a discussão sobre gênero na ciência ganhou espaço nos últimos anos, inclusive com políticas de inclusão em algumas instituições e agências de fomento. Por exemplo, algumas agências consideram o impacto da maternidade e outras condições na avaliação da produtividade científica. Também já existem editais de apoio à pesquisa voltados exclusivamente a cientistas mulheres. Em 2023, a FAPERJ lançou o programa de apoio à jovem cientista mulher, que distribuiu 13 milhões de reais para implementação de novas linhas de pesquisa. No ano seguinte, veio o edital de apoio a mulheres que foram mães nos últimos 12 anos. Ainda estamos longe do ideal, mas são ações importantes para aumentar a visibilidade de cientistas mulheres.

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Entre as personagens femininas destacadas em seu livro, qual delas mais chama sua atenção pela sua trajetória ou descoberta?
É difícil escolher apenas uma. Todas elas são cientistas inspiradoras, competentes e que fizeram contribuições invejáveis dentro de seus campos de pesquisa, mesmo recebendo quase nenhum apoio e trabalhando às margens da comunidade científica. Essas cientistas brilhantes recebiam uma fração do salário de seus pares do sexo masculino – isso quando recebiam alguma coisa! Porque em alguns casos seu trabalho era voluntário, já que universidades e centros de pesquisa não contratavam mulheres. Muitas cientistas tiveram que travar verdadeiras batalhas apenas para serem levadas a sério pela comunidade científica da época.

Alguma história em particular?
Eu gosto muito da história da Marguerite Vogt, talvez por ser microbiologista como eu. Marguerite fez contribuições inestimáveis para o desenvolvimento de uma vacina que previne uma doença cruel, que deixa as pessoas paralisadas, e que também é uma das mais letais que assolaram a humanidade, a poliomielite. Ela assistiu a vários de seus colegas receberem premiações importantes, inclusive o Nobel, mas nunca recebeu nenhum reconhecimento.

Na sua avaliação, até que ponto o machismo ainda influencia as decisões tomadas no ecossistema científico no Brasil?
Infelizmente, o machismo ainda é muito presente na nossa sociedade, e o meio acadêmico não está isento. Há uma resistência enorme à participação de mulheres em algumas áreas da ciência, que são vistas como espaços tradicionalmente masculinos, como a engenharia, a matemática e a física. Até mesmo em áreas onde a participação feminina é igual ou superior à dos homens, como ciências da vida ou letras, observamos um fenômeno chamado de “efeito tesoura”. Isso quer dizer que mesmo contando com a presença de muitas mulheres em níveis iniciais de formação (como graduação), essas áreas têm poucas mulheres em posições de liderança e decisão.

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Esse machismo também repercute no reconhecimento do trabalho dessas mulheres, não?
Outro efeito deletério do machismo é justamente a falta de reconhecimento do crédito das descobertas, e não apenas de grandes descobertas, como descrito no “efeito Matilda”, mas também em instâncias menores, mas não menos importantes, como na publicação de artigos de ciência básica. Em 2022, a revista Nature publicou um artigo que avaliou dados de publicações científicas nos Estados Unidos e descreve que as mulheres pesquisadoras têm significativamente menos probabilidades do que os homens de serem creditadas com autoria de trabalhos científicos e patentes. Não apenas isso, mas quando mulheres publicam seus trabalhos, estes são menos citados na literatura científica.

Vislumbra alguma solução?
Apesar de o cenário permanecer distante do ideal, observamos uma mudança positiva gradual no comportamento e na percepção da importância das mulheres no meio acadêmico. Mas, para consolidar esse panorama, é necessário que as universidades e os centros de pesquisa passem a adotar uma política de tolerância zero com comportamentos machistas e misóginos nos seus espaços.

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Marguerite Vogt: cientista que descobriu vacina para pólio, mas não foi devidamente reconhecida, é uma das personagens do livro ‘Bastidores da Ciência’ (Foto: ICH/Reprodução)

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Foi com esse propósito que o biólogo Leandro Lobo, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), aproveitou as horas longe do seu laboratório de microbiologia para escrever Bastidores da Ciência, recém-publicado pela Editora ICH, do Instituto Ciência Hoje. Como o título entrega, o autor tira o pano e o véu de episódios que, em maior ou menor grau, revolucionaram o conhecimento e o mundo, e oferece relatos curiosos, inesperados e instigantes sobre personagens celebrados ou esquecidos pela história.

bastidores da ciencia
– (Capa: ICH/Reprodução)

Nessa pegada, expõe o papel do acaso nas descobertas – como no famoso caso da penicilina de Fleming e na bem menos conhecida trama que deu origem ao Botox -, o empenho e a genialidade de pessoas que mudaram a forma de encarar problemas de saúde (do sanitarista Vital Brazil à virologista Gertrude Elion), a origem de invenções que até hoje melhoram nossa vida (da insulina ao ar-condicionado) e as injustiças diante de mulheres que fizeram a diferença, mas foram escanteadas nos anais científicos.

Esta última, aliás, é uma das melhores partes do livro. Lobo nos apresenta o chamado efeito Matilda, expressão cunhada por uma historiadora em referência a uma americana que, ainda no século XIX, buscou romper com a visão de que mulheres não eram criativas e inventivas como os homens.

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O microbiologista e autor, Leandro Lobo (Foto: Eduardo de Oliveira/ UFRJ/Reprodução)

Em relação ao “efeito Matilda”, do seu ponto de vista, conseguimos superar essa falta de crédito e mesmo respeito ao trabalho das mulheres cientistas?
Infelizmente, ainda não. Embora existam avanços importantes, os dados e os relatos continuam apontando para desigualdades estruturais, culturais e institucionais que persistem até mesmo no meio acadêmico, que por sua própria natureza deveria ser mais plural e inclusivo. Os dados mostram que as mulheres são minoria em posições de poder na ciência, especialmente nos níveis mais altos de bolsas e coordenação de pesquisa. embora entrem em número igual ou maior do que homens nos cursos de graduação, elas desaparecem nos níveis superiores da carreira científica.

Então evoluímos pouco nesse sentido?
Há um ponto positivo a se destacar: ainda que com grande atraso, a discussão sobre gênero na ciência ganhou espaço nos últimos anos, inclusive com políticas de inclusão em algumas instituições e agências de fomento. Por exemplo, algumas agências consideram o impacto da maternidade e outras condições na avaliação da produtividade científica. Também já existem editais de apoio à pesquisa voltados exclusivamente a cientistas mulheres. Em 2023, a FAPERJ lançou o programa de apoio à jovem cientista mulher, que distribuiu 13 milhões de reais para implementação de novas linhas de pesquisa. No ano seguinte, veio o edital de apoio a mulheres que foram mães nos últimos 12 anos. Ainda estamos longe do ideal, mas são ações importantes para aumentar a visibilidade de cientistas mulheres.

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É difícil escolher apenas uma. Todas elas são cientistas inspiradoras, competentes e que fizeram contribuições invejáveis dentro de seus campos de pesquisa, mesmo recebendo quase nenhum apoio e trabalhando às margens da comunidade científica. Essas cientistas brilhantes recebiam uma fração do salário de seus pares do sexo masculino – isso quando recebiam alguma coisa! Porque em alguns casos seu trabalho era voluntário, já que universidades e centros de pesquisa não contratavam mulheres. Muitas cientistas tiveram que travar verdadeiras batalhas apenas para serem levadas a sério pela comunidade científica da época.

Alguma história em particular?
Eu gosto muito da história da Marguerite Vogt, talvez por ser microbiologista como eu. Marguerite fez contribuições inestimáveis para o desenvolvimento de uma vacina que previne uma doença cruel, que deixa as pessoas paralisadas, e que também é uma das mais letais que assolaram a humanidade, a poliomielite. Ela assistiu a vários de seus colegas receberem premiações importantes, inclusive o Nobel, mas nunca recebeu nenhum reconhecimento.

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Infelizmente, o machismo ainda é muito presente na nossa sociedade, e o meio acadêmico não está isento. Há uma resistência enorme à participação de mulheres em algumas áreas da ciência, que são vistas como espaços tradicionalmente masculinos, como a engenharia, a matemática e a física. Até mesmo em áreas onde a participação feminina é igual ou superior à dos homens, como ciências da vida ou letras, observamos um fenômeno chamado de “efeito tesoura”. Isso quer dizer que mesmo contando com a presença de muitas mulheres em níveis iniciais de formação (como graduação), essas áreas têm poucas mulheres em posições de liderança e decisão.

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