Continua após publicidade
A densidade dionisíaca do esporte moderno sistematicamente ventila na música, na literatura, no cinema. Intensificada em tempos de Copa, a tabela se renova em produções como “Brasil 70: a saga do Tri” (O2 Filmes / Netflix).
Dirigida por Paulo e Pedro Morelli (pai e filho, respectivamente) e Quico Meirelles, a minissérie ficcional faz sucesso no streaming não só porque revive o escrete arrebatador, coroado com o nosso terceiro caneco. Talvez jamais haverá melhor.
Até quem não é da bola encanta-se com as pinturas orquestradas quando ataque ainda não tinha virado terço final. Os arranques de Jairzinho; os lançamentos de Gérson; as bombas de Rivelino; a inteligência de Tostão; os golaços; o quase-gol por cobertura de Pelé, na estreia, contra a Tchecoslováquia; seu drible desconcertante sobre o goleiro uruguaio, na semifinal, coisa de gênio.
Recriados com a ajuda da tecnologia digital, os lances de almanaque afagam o brasileiro saudoso de beleza e de títulos. Oportuna inspiração aos comandados de Ancelotti.
Parte do sucesso margeia o contrário: a humanização do timaço, desde a desconfiança inicial – contraditória à concentração de craques – até a apoteótica conquista. A trama descasca a divindade da seleção eternizada no imaginário. Expõe dilemas, tretas, superstições.
Interpretado por Lucas Agrícola, um Pelé hamletiano divide-se entre a mitologia do trono e a inquietude do mortal às voltas com medos, angústias, imperfeições. Um rei assombrado pela ambiguidade da soberania esportiva: reluzente ao orgulho nacional, conveniente à propaganda da ditadura. Nem por isso um rei menos eloquente.
Por trás do glacê romântico, e das maravilhas que não cansamos de rever, as feras de 70 encaram o divã. Lavam roupa suja, domam inseguranças, equacionam divergências acentuadas pelo contraste entre o brilho artístico e o breu democrático.
Continua após a publicidade
É aí que os líderes vestem a Dez. Não deixam tempestades encobrirem os sóis de cada um e de todos. Não os confundem com holofotes.
Aquele é um esquadrão também de líderes, cujos estilos, em certos casos antagônicos, se completam. Deles fazem parte as influências vulcânica de João Saldanha (Rodrigo Santoro) e cartesiana de Zagallo (Bruno Mazzeo).
“Copa não se joga, Copa se ganha”, evoca o chavão reiterado por Saldanha. Não se ganha sem lideranças dentro e fora do campo, lembram os cinco capítulos da série.
_______
Escrete audiovisual
Continua após a publicidade
A convide da coluna, o coordenador da Escola de Criatividade e Cultura da PUC-Rio, Miguel Jost, também consultor de Marca e Comunicação da Globo, convoca alguns filmes marcantes sobre o universo boleiro. Iluminam histórias e personagens sem os quais o futebol não seria o que é – muito além do gramado. Estão acompanhados, abaixo, de breves comentários do professor:
Garrincha, alegria do povo
Joaquim Pedro de Andrade (Brasil, 1963)
“O filme é um dos documentários seminais do cinema brasileiro, filmado logo após a Copa de 1962, e vai muito além de um perfil esportivo sobre Garrincha. Joaquim Pedro constrói um retrato do Brasil a partir da figura do jogador e do seu corpo em cena nos campos. No filme o drible, recurso fundamental do futebol brasileiro, se transforma em um exercício da linguagem cinematográfica e em uma imagem definitiva do nosso país”.
Zidane: um retrato do século XXI
Continua após a publicidade
Douglas Gordon & Philippe Parreno (França/Islândia, 2006)
“Com dezessete câmeras e uma trilha instrumental composta pela aclamada banda escocesa de rock Mogwai, os diretores acompanham Zidane durante um único jogo, Real Madrid vs. Villarreal, sem jamais mostrar o placar ou a narrativa da partida. O resultado é menos um filme de futebol e mais uma reflexão sobre o corpo, a concentração e o tempo. O futebol é visto aqui como um estado de presença absoluta, que transcende nossa ideia tradicional do jogo”.
À procura de Eric
Ken Loach (Reino Unido/França, 2009)
“Eric Cantona foi um dos poucos jogadores cuja grandeza dentro de campo produziu uma mitologia tão densa quanto a vida fora dele. É a partir disso que Ken Loach constrói esse filme que captura com precisão a dimensão religiosa do futebol. O futebol aqui não é pano de fundo. É uma forma pela qual a classe trabalhadora do norte da Inglaterra compreende lealdade, identidade e comunidade. Eric Cantona, personagem central da trama atuando como si mesmo, também colaborou ativamente com o roteiro do filme”.
Continua após a publicidade
Todos os Corações do Mundo
Murilo Salles (Brasil/EUA, 1995)
“Documentário oficial da Fifa sobre o tetra da seleção brasileira em 1994, o filme escapa do formato que historicamente marca a criação de filmes com esse viés institucional. O diretor brasileiro Murilo Salles estruturou a narrativa a partir de um olhar sensível também para as margens do espetáculo, destacando a nova e difícil relação que a sociedade norte-americana estabeleceu com a Copa do Mundo naquele ano. A cena mais emblemática do filme, e que entraria para história do futebol, é a encarada de Roberto Baggio em Romário no túnel antes da entrada em campo para a decisão da competição”.
Boleiros: era uma vez o futebol
Ugo Giorgetti (Brasil, 1998)
Continua após a publicidade
“Num país obcecado por futebol, o cinema brasileiro produziu pouquíssimos filmes de ficção à altura dessa paixão. Boleiros é uma exceção e é um dos grandes filmes do cinema brasileiro dos anos 1990. Dirigido por Ugo Giorgetti, que possui também uma longa carreira de cronista esportivo na imprensa paulista, o filme conta uma história que parte de memórias alegres e melancólicas contadas por ex jogadores que vivem o esquecimento após o fim de suas carreiras nos campos”.
(Descrições e observações de Miguel Jost.)
_______
Cinefoot em circuito mundial
A tabela entre futebol e cinema é reforçada pelo circuito mundial do Cinefoot. O festival exibe, ao longo do Mundial, 34 filmes, em 32 cidades de sete países.

Selecionadas pelo fundador e organizador do Cinefoot, Antonio Leal, produções de Argentina, México, Chile, Portugal, França e Itália ganham a capital mexicana, em sessões semanais, Estados Unidos, Alemanha, Portugal, Colômbia e Bélgica. A programação estende-se por Rio, São Paulo, Minas, Sergipe e Bahia.
______
Sem bicho-papão
Pela primeira vez entramos numa Copa sem um Oito e sem um Dez. Assim caminha nosso futebol.
Talvez seja só um murmúrio nostálgico, talvez uma tensão pré-Mundial. Logo saberemos.
Torçamos para que os coelhos da cartola de Ancelotti tragam o hexa. Até porque nenhuma das melhores seleções (França, Espanha, Portugal, Argentina) constitui, em princípio, um bicho-papão.
_____
Sob a batuta dos negócios
Se a Fifa pretendia amansar a ofensiva anti-imigração com o prêmio da paz ao anfitrião, pecou por ingenuidade e por contradição. As restrições à delegação iraniana e o veto à entrada do árbitro Omar Abdulcadir Artan nos EUA atestam o fiasco da bajulação neste sentido.
Nem um alienígena recém-chegado surpreenderia-se com a marcação cerrada contra representantes de países repudiados pelo governo Trump. Os constrangimentos provavelmente seriam evitados, se Artan – nascido na Solámia, eleito o melhor juiz da África em 2025 – e a seleção do Irã atuassem em partidas no Canadá ou no México, demais sedes do Mundial.
Os dois episódios, nada imprevisíveis, indicam o domínio do pragmatismo econômico e político sobre o princípio de integração culturalmente associado ao esporte, historicamente apregoado por seus regentes. A alegada neutralidade institucional continua seletiva, fiel à batuta dos negócios.
_______
Alexandre Carauta é jornalista e professor da PUC-Rio, integrante do corpo docente da pós em Direito Desportivo da PUC-Rio. Doutor em Comunicação, mestre em Gestão Empresarial, pós-graduado em Administração Esportiva, formado também em Educação Física. Organizador do livro “Comunicação estratégica no esporte”.
Domine o fato. Confie na fonte.
15 marcas que você confia. Uma assinatura que vale por todas
15 marcas que você confia. Uma assinatura que vale por todas.
Continua após publicidade
A densidade dionisíaca do esporte moderno sistematicamente ventila na música, na literatura, no cinema. Intensificada em tempos de Copa, a tabela se renova em produções como “Brasil 70: a saga do Tri” (O2 Filmes / Netflix).
Dirigida por Paulo e Pedro Morelli (pai e filho, respectivamente) e Quico Meirelles, a minissérie ficcional faz sucesso no streaming não só porque revive o escrete arrebatador, coroado com o nosso terceiro caneco. Talvez jamais haverá melhor.
Até quem não é da bola encanta-se com as pinturas orquestradas quando ataque ainda não tinha virado terço final. Os arranques de Jairzinho; os lançamentos de Gérson; as bombas de Rivelino; a inteligência de Tostão; os golaços; o quase-gol por cobertura de Pelé, na estreia, contra a Tchecoslováquia; seu drible desconcertante sobre o goleiro uruguaio, na semifinal, coisa de gênio.
Recriados com a ajuda da tecnologia digital, os lances de almanaque afagam o brasileiro saudoso de beleza e de títulos. Oportuna inspiração aos comandados de Ancelotti.
Parte do sucesso margeia o contrário: a humanização do timaço, desde a desconfiança inicial – contraditória à concentração de craques – até a apoteótica conquista. A trama descasca a divindade da seleção eternizada no imaginário. Expõe dilemas, tretas, superstições.
Interpretado por Lucas Agrícola, um Pelé hamletiano divide-se entre a mitologia do trono e a inquietude do mortal às voltas com medos, angústias, imperfeições. Um rei assombrado pela ambiguidade da soberania esportiva: reluzente ao orgulho nacional, conveniente à propaganda da ditadura. Nem por isso um rei menos eloquente.
Por trás do glacê romântico, e das maravilhas que não cansamos de rever, as feras de 70 encaram o divã. Lavam roupa suja, domam inseguranças, equacionam divergências acentuadas pelo contraste entre o brilho artístico e o breu democrático.
Continua após a publicidade
É aí que os líderes vestem a Dez. Não deixam tempestades encobrirem os sóis de cada um e de todos. Não os confundem com holofotes.
Aquele é um esquadrão também de líderes, cujos estilos, em certos casos antagônicos, se completam. Deles fazem parte as influências vulcânica de João Saldanha (Rodrigo Santoro) e cartesiana de Zagallo (Bruno Mazzeo).
“Copa não se joga, Copa se ganha”, evoca o chavão reiterado por Saldanha. Não se ganha sem lideranças dentro e fora do campo, lembram os cinco capítulos da série.
_______
Escrete audiovisual
Continua após a publicidade
A convide da coluna, o coordenador da Escola de Criatividade e Cultura da PUC-Rio, Miguel Jost, também consultor de Marca e Comunicação da Globo, convoca alguns filmes marcantes sobre o universo boleiro. Iluminam histórias e personagens sem os quais o futebol não seria o que é – muito além do gramado. Estão acompanhados, abaixo, de breves comentários do professor:
Garrincha, alegria do povo
Joaquim Pedro de Andrade (Brasil, 1963)
“O filme é um dos documentários seminais do cinema brasileiro, filmado logo após a Copa de 1962, e vai muito além de um perfil esportivo sobre Garrincha. Joaquim Pedro constrói um retrato do Brasil a partir da figura do jogador e do seu corpo em cena nos campos. No filme o drible, recurso fundamental do futebol brasileiro, se transforma em um exercício da linguagem cinematográfica e em uma imagem definitiva do nosso país”.
Zidane: um retrato do século XXI
Continua após a publicidade
Douglas Gordon & Philippe Parreno (França/Islândia, 2006)
“Com dezessete câmeras e uma trilha instrumental composta pela aclamada banda escocesa de rock Mogwai, os diretores acompanham Zidane durante um único jogo, Real Madrid vs. Villarreal, sem jamais mostrar o placar ou a narrativa da partida. O resultado é menos um filme de futebol e mais uma reflexão sobre o corpo, a concentração e o tempo. O futebol é visto aqui como um estado de presença absoluta, que transcende nossa ideia tradicional do jogo”.
À procura de Eric
Ken Loach (Reino Unido/França, 2009)
“Eric Cantona foi um dos poucos jogadores cuja grandeza dentro de campo produziu uma mitologia tão densa quanto a vida fora dele. É a partir disso que Ken Loach constrói esse filme que captura com precisão a dimensão religiosa do futebol. O futebol aqui não é pano de fundo. É uma forma pela qual a classe trabalhadora do norte da Inglaterra compreende lealdade, identidade e comunidade. Eric Cantona, personagem central da trama atuando como si mesmo, também colaborou ativamente com o roteiro do filme”.
Continua após a publicidade
Todos os Corações do Mundo
Murilo Salles (Brasil/EUA, 1995)
“Documentário oficial da Fifa sobre o tetra da seleção brasileira em 1994, o filme escapa do formato que historicamente marca a criação de filmes com esse viés institucional. O diretor brasileiro Murilo Salles estruturou a narrativa a partir de um olhar sensível também para as margens do espetáculo, destacando a nova e difícil relação que a sociedade norte-americana estabeleceu com a Copa do Mundo naquele ano. A cena mais emblemática do filme, e que entraria para história do futebol, é a encarada de Roberto Baggio em Romário no túnel antes da entrada em campo para a decisão da competição”.
Boleiros: era uma vez o futebol
Ugo Giorgetti (Brasil, 1998)
Continua após a publicidade
“Num país obcecado por futebol, o cinema brasileiro produziu pouquíssimos filmes de ficção à altura dessa paixão. Boleiros é uma exceção e é um dos grandes filmes do cinema brasileiro dos anos 1990. Dirigido por Ugo Giorgetti, que possui também uma longa carreira de cronista esportivo na imprensa paulista, o filme conta uma história que parte de memórias alegres e melancólicas contadas por ex jogadores que vivem o esquecimento após o fim de suas carreiras nos campos”.
(Descrições e observações de Miguel Jost.)
_______
Cinefoot em circuito mundial
A tabela entre futebol e cinema é reforçada pelo circuito mundial do Cinefoot. O festival exibe, ao longo do Mundial, 34 filmes, em 32 cidades de sete países.

Selecionadas pelo fundador e organizador do Cinefoot, Antonio Leal, produções de Argentina, México, Chile, Portugal, França e Itália ganham a capital mexicana, em sessões semanais, Estados Unidos, Alemanha, Portugal, Colômbia e Bélgica. A programação estende-se por Rio, São Paulo, Minas, Sergipe e Bahia.
______
Sem bicho-papão
Pela primeira vez entramos numa Copa sem um Oito e sem um Dez. Assim caminha nosso futebol.
Talvez seja só um murmúrio nostálgico, talvez uma tensão pré-Mundial. Logo saberemos.
Torçamos para que os coelhos da cartola de Ancelotti tragam o hexa. Até porque nenhuma das melhores seleções (França, Espanha, Portugal, Argentina) constitui, em princípio, um bicho-papão.
_____
Sob a batuta dos negócios
Se a Fifa pretendia amansar a ofensiva anti-imigração com o prêmio da paz ao anfitrião, pecou por ingenuidade e por contradição. As restrições à delegação iraniana e o veto à entrada do árbitro Omar Abdulcadir Artan nos EUA atestam o fiasco da bajulação neste sentido.
Nem um alienígena recém-chegado surpreenderia-se com a marcação cerrada contra representantes de países repudiados pelo governo Trump. Os constrangimentos provavelmente seriam evitados, se Artan – nascido na Solámia, eleito o melhor juiz da África em 2025 – e a seleção do Irã atuassem em partidas no Canadá ou no México, demais sedes do Mundial.
Os dois episódios, nada imprevisíveis, indicam o domínio do pragmatismo econômico e político sobre o princípio de integração culturalmente associado ao esporte, historicamente apregoado por seus regentes. A alegada neutralidade institucional continua seletiva, fiel à batuta dos negócios.
_______
Alexandre Carauta é jornalista e professor da PUC-Rio, integrante do corpo docente da pós em Direito Desportivo da PUC-Rio. Doutor em Comunicação, mestre em Gestão Empresarial, pós-graduado em Administração Esportiva, formado também em Educação Física. Organizador do livro “Comunicação estratégica no esporte”.
Domine o fato. Confie na fonte.
15 marcas que você confia. Uma assinatura que vale por todas
15 marcas que você confia. Uma assinatura que vale por todas.













