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Ainda estou processando e tentando entender tudo o que aconteceu — e digerindo tudo o que vi na noite do ano novo aqui em Crans-Montana, na Suíça. De verdade, só agora consigo falar sobre isso sem travar.
Venho a essa cidade desde que tenho seis, sete meses de idade. Sou fotógrafo e cinegrafista e tenho uma produtora audiovisual baseada em Mônaco. O bar que pegou fogo, o Le Constellation, era um lugar que eu conhecia muito, muito bem — não apenas de vista. Já passei réveillons lá quando era adolescente, com amigos que também vêm para cá desde sempre. Frequentei o lugar inúmeras vezes.
Na última semana, estive lá três vezes. A última foi dois dias antes da tragédia. Durante o dia, o bar funcionava em um clima tranquilo: gente tomando cerveja, jogando sinuca, dardos, assistindo a jogos de futebol. À noite, virava um ponto de encontro de jovens, muitas vezes para quem não entrava em outros clubes ou quando outros lugares estavam fechados. Pessoas de todas as idades frequentavam — não era só festa.
Naquele dia, eu estava trabalhando como fotógrafo no Zerodix, outro bar muito famoso da estação de esqui, que fica logo acima do Le Constellation, entre 50 e 100 metros, em uma rua atrás, um pouco mais alta. É o après-ski (ou pós-esqui, como se fosse o nosso pós-praia) mais famoso daqui — algo que já faz parte da rotina da temporada. Estava tudo normal, no pico da festa de réveillon, até que um amigo barman me puxou de lado. Pela expressão dele, vi que era sério. Eu estava com a câmera nas costas quando ele apenas disse: “Vem comigo. Vem me ajudar.”
Eu não entendia direito o que estava acontecendo, mas corremos rua abaixo carregando um caixote pesado de cobertores — sem saber exatamente o motivo, apenas indo. Quando chegamos, os bombeiros já estavam lá. O fogo já tinha sido apagado. Disseram que ele se extinguiu sozinho, porque a espuma química queimou toda e não havia mais combustível. Os bombeiros sequer precisaram usar as mangueiras.
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E então vi muitas cenas em poucos segundos — cenas que me marcaram profundamente: três, quatro corpos estendidos no chão; muitas pessoas recebendo massagem cardíaca; amigos e conhecidos das vítimas ao redor, se revezando e dizendo em francês: “Vamos revezar… há quanto tempo estamos fazendo isso?”. Era uma cena que eu sabia que nunca esqueceria. Apesar de já ter feito a cobertura de imagens do atentados de Nice, em 2016 (quando um caminhão de carga atingiu uma multidão que comemoravam o Dia da Bastilha na Promenade des Anglais, resultando em 86 mortes e 450 feridos), aquilo era diferente.
Levamos cobertores para os bombeiros, que os distribuíam às pessoas do lado de fora — gente chorando, em choque, algumas em silêncio absoluto, outras com roupas queimadas.
Eu e meu amigo voltamos correndo para buscar mais água e mais cobertores. Chegamos ao Zerodix sem fôlego. Quando descemos novamente, era mais do mesmo. Bombeiros sentados no chão, com dificuldade para respirar, ajudando uns aos outros. Demos água a quem precisava. Voltamos mais uma vez para buscar mais coisas. Na terceira tentativa de descer, a polícia já havia isolado completamente o local. Não permitiam mais a entrada de voluntários. Corpos estavam sendo retirados de dentro do bar.
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Nunca vou esquecer meu amigo dizendo: “O fogo se apagou sozinho. Não havia mais nada para queimar depois que a espuma acabou.” Nos dias seguintes, fiquei tentando entender como o fogo desapareceu tão rápido, já que chegamos entre 10 e 15 minutos depois do início do acidente. Ainda assim… foi rápido demais.
Soube do número de mortos — cerca de 40 — e que esse total poderia aumentar nos dias seguintes, já que muitos feridos estavam em estado grave. Até agora, ninguém sabe ao certo. A confusão é enorme (segundo a polícia suíça, até o momento são 40 mortos e 119 feridos).
O clima aqui está muito pesado. Tudo está para baixo. Ontem, fomos até o local deixar flores, em silêncio. Alguns turistas talvez nem tenham percebido direito, ou não estejam tão afetados — talvez porque não conhecessem o lugar como nós. Mas quem mora, trabalha e frequenta Crans-Montana sente o impacto. Ninguém consegue sair desse clima. Isso vai marcar a temporada inteira, e ninguém sabe quando essa sensação vai passar.
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Tentar comparar o espaço a algum lugar parecido no Rio é muito difícil. Só consigo lembrar de uma antiga boate que existia embaixo do que hoje é o hotel Fairmont, em Copacabana — a Cave. A escada era maior, o espaço era diferente, e ainda assim… nada se compara ao que aconteceu aqui.
Acredito que tenha sido uma combinação de fatores. A escada estreita virou um gargalo na saída de emergência. Não vi ninguém usando extintores nos vídeos que surgiram — imagino que existissem, mas ninguém conseguiu pegá-los. As sinalizações de saída eram ruins. E as velas de faísca — aquelas que chamamos no Brasil de “vulcão” — estavam muito próximas do teto. O conceito do local, quando vira boate, é colocar garçons sobre os ombros uns dos outros para trazer as garrafas. Isso acontece no mundo inteiro: bares, boates, festas. Eu via isso constantemente por causa do meu trabalho com a Fórmula 1, em diversos países. Nunca tinha visto algo assim dar errado.
Pelo que venho entendendo, os donos do local utilizaram uma espuma mais barata, extremamente inflamável — e não a adequada para esse tipo de ambiente. Esse tipo de material nunca deveria ser instalado no teto de um espaço que recebe tanta gente.
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A Suíça é conhecida pela organização e pela segurança. Existe aqui uma empresa responsável por inspecionar todos os estabelecimentos antes do início da temporada: saídas de emergência, riscos de incêndio, tudo. Sei que eles passaram por vários bares, inclusive pelo Zerodix, onde trabalho. Não sei, porém, se passaram pelo Le Constellation.
Ainda é muito difícil de acreditar. É como se um pedaço da história da cidade tivesse ido embora — junto com tantas vidas.
Lucas Brito é filmmaker carioca e tem uma produtora audiovisual baseada em Mônaco. Já cobriu diversas temporadas de Fórmula 1 com a Globo, a Band e outros clientes da categoria, como pilotos, Barilla, Heineken e o Automóvel Clube de Mônaco. Desde os 13 anos acompanha o pai, Jayme Brito, produtor executivo das transmissões da Fórmula 1 na Band, e cresceu nos bastidores, sempre cercado por câmeras — a profissão veio quase de forma orgânica.
Domine o fato. Confie na fonte.
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Ainda estou processando e tentando entender tudo o que aconteceu — e digerindo tudo o que vi na noite do ano novo aqui em Crans-Montana, na Suíça. De verdade, só agora consigo falar sobre isso sem travar.
Venho a essa cidade desde que tenho seis, sete meses de idade. Sou fotógrafo e cinegrafista e tenho uma produtora audiovisual baseada em Mônaco. O bar que pegou fogo, o Le Constellation, era um lugar que eu conhecia muito, muito bem — não apenas de vista. Já passei réveillons lá quando era adolescente, com amigos que também vêm para cá desde sempre. Frequentei o lugar inúmeras vezes.
Na última semana, estive lá três vezes. A última foi dois dias antes da tragédia. Durante o dia, o bar funcionava em um clima tranquilo: gente tomando cerveja, jogando sinuca, dardos, assistindo a jogos de futebol. À noite, virava um ponto de encontro de jovens, muitas vezes para quem não entrava em outros clubes ou quando outros lugares estavam fechados. Pessoas de todas as idades frequentavam — não era só festa.
Naquele dia, eu estava trabalhando como fotógrafo no Zerodix, outro bar muito famoso da estação de esqui, que fica logo acima do Le Constellation, entre 50 e 100 metros, em uma rua atrás, um pouco mais alta. É o après-ski (ou pós-esqui, como se fosse o nosso pós-praia) mais famoso daqui — algo que já faz parte da rotina da temporada. Estava tudo normal, no pico da festa de réveillon, até que um amigo barman me puxou de lado. Pela expressão dele, vi que era sério. Eu estava com a câmera nas costas quando ele apenas disse: “Vem comigo. Vem me ajudar.”
Eu não entendia direito o que estava acontecendo, mas corremos rua abaixo carregando um caixote pesado de cobertores — sem saber exatamente o motivo, apenas indo. Quando chegamos, os bombeiros já estavam lá. O fogo já tinha sido apagado. Disseram que ele se extinguiu sozinho, porque a espuma química queimou toda e não havia mais combustível. Os bombeiros sequer precisaram usar as mangueiras.
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Levamos cobertores para os bombeiros, que os distribuíam às pessoas do lado de fora — gente chorando, em choque, algumas em silêncio absoluto, outras com roupas queimadas.
Eu e meu amigo voltamos correndo para buscar mais água e mais cobertores. Chegamos ao Zerodix sem fôlego. Quando descemos novamente, era mais do mesmo. Bombeiros sentados no chão, com dificuldade para respirar, ajudando uns aos outros. Demos água a quem precisava. Voltamos mais uma vez para buscar mais coisas. Na terceira tentativa de descer, a polícia já havia isolado completamente o local. Não permitiam mais a entrada de voluntários. Corpos estavam sendo retirados de dentro do bar.
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Nunca vou esquecer meu amigo dizendo: “O fogo se apagou sozinho. Não havia mais nada para queimar depois que a espuma acabou.” Nos dias seguintes, fiquei tentando entender como o fogo desapareceu tão rápido, já que chegamos entre 10 e 15 minutos depois do início do acidente. Ainda assim… foi rápido demais.
Soube do número de mortos — cerca de 40 — e que esse total poderia aumentar nos dias seguintes, já que muitos feridos estavam em estado grave. Até agora, ninguém sabe ao certo. A confusão é enorme (segundo a polícia suíça, até o momento são 40 mortos e 119 feridos).
O clima aqui está muito pesado. Tudo está para baixo. Ontem, fomos até o local deixar flores, em silêncio. Alguns turistas talvez nem tenham percebido direito, ou não estejam tão afetados — talvez porque não conhecessem o lugar como nós. Mas quem mora, trabalha e frequenta Crans-Montana sente o impacto. Ninguém consegue sair desse clima. Isso vai marcar a temporada inteira, e ninguém sabe quando essa sensação vai passar.
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Acredito que tenha sido uma combinação de fatores. A escada estreita virou um gargalo na saída de emergência. Não vi ninguém usando extintores nos vídeos que surgiram — imagino que existissem, mas ninguém conseguiu pegá-los. As sinalizações de saída eram ruins. E as velas de faísca — aquelas que chamamos no Brasil de “vulcão” — estavam muito próximas do teto. O conceito do local, quando vira boate, é colocar garçons sobre os ombros uns dos outros para trazer as garrafas. Isso acontece no mundo inteiro: bares, boates, festas. Eu via isso constantemente por causa do meu trabalho com a Fórmula 1, em diversos países. Nunca tinha visto algo assim dar errado.
Pelo que venho entendendo, os donos do local utilizaram uma espuma mais barata, extremamente inflamável — e não a adequada para esse tipo de ambiente. Esse tipo de material nunca deveria ser instalado no teto de um espaço que recebe tanta gente.
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Ainda é muito difícil de acreditar. É como se um pedaço da história da cidade tivesse ido embora — junto com tantas vidas.
Lucas Brito é filmmaker carioca e tem uma produtora audiovisual baseada em Mônaco. Já cobriu diversas temporadas de Fórmula 1 com a Globo, a Band e outros clientes da categoria, como pilotos, Barilla, Heineken e o Automóvel Clube de Mônaco. Desde os 13 anos acompanha o pai, Jayme Brito, produtor executivo das transmissões da Fórmula 1 na Band, e cresceu nos bastidores, sempre cercado por câmeras — a profissão veio quase de forma orgânica.
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