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A inteligência artificial vai reduzir ou ampliar a desigualdade entre os países? Governos do mundo todo deveriam estar obcecados por essa pergunta, mas muitos ainda não perceberam que a resposta importa muito mais do que parece. A história da tecnologia mostra que uma inovação pode tanto aproximar quanto afastar as nações em indicadores econômicos e sociais.
No século 18, a diferença global era mais modesta. Quase nenhum país tinha uma expectativa de vida acima dos 40 anos, apenas 12% da população podia ler e não havia disparidade de renda entre as regiões mais ricas e pobres, como observou o historiador econômico Paul Bairoch.
A Revolução Industrial chegou e criou uma bifurcação na história, acelerando o que conhecemos como a Grande Divergência. A máquina à vapor e a industrialização das fábricas fizeram a Europa Ocidental e os Estados Unidos dispararem em produtividade, renda e qualidade de vida, enquanto o resto do mundo foi deixado para trás.
No início do século 20, a desigualdade entre os países se tornou uma fratura exposta. Deixo aqui um indicador para termos ideia dessa assimetria. Se antes a expectativa de vida era parecida em quase todo o mundo, nesse período um cidadão norueguês já vivia em média 72 anos, enquanto um afegão não passava de 28 anos.
Hoje, o cenário parece menos grave do que naquele momento histórico. E parte dessa mudança se deve ao próprio avanço tecnológico, que alterou a natureza dos arranjos econômicos e a organização da cadeia global de valor.
Como explica o economista Richard Baldwin, a internet permitiu que empresas quebrassem a produção em partes e as espalhassem pelo mundo. Foi assim que países como China, Índia e Vietnã passaram a fabricar para Apple, Nike e Samsung, absorvendo tecnologia, empregos e renda.
Essa fragmentação acelerou o desenvolvimento local e reduziu a distância entre ricos e pobres. Ele chamou esse processo de a Grande Convergência.
A pergunta agora é para qual caminho a IA nos empurra: divergência ou convergência?
Ainda não temos uma definição exata do impacto da IA na produtividade, na economia ou no mercado de trabalho, mas as evidências coletadas por diferentes estudos e relatórios sobre o uso global da IA mostram que ela está criando um abismo entre as nações.
O relatório “The Next Great Divergence”, do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), é categórico ao dizer que a IA vai gerar prosperidade, mas que sua distribuição será globalmente desigual.
E o pior é que essa corrida já começou desequilibrada.
Países na fronteira tecnológica como Estados Unidos, China, União Europeia e Coreia do Sul estão construindo data centers, investindo em chips e desenvolvendo seus próprios modelos, enquanto países pobres compram IA “como serviço”.
As nações ricas ficam com a renda enquanto extraem valor das economias que viram apenas consumidoras.
Essa tendência fica ainda mais preocupante quando analisamos a adoção da IA entre os países.
Em tese uma nação poderia gerar valor mesmo usando IA “como serviço”, desde que a integrasse de forma produtiva aos seus diferentes setores econômicos. No entanto, as evidências mostram que, mesmo nesse cenário, a lacuna persiste.
A Microsoft mostrou em um relatório que a adoção de IA no Norte Global ocorre a uma taxa quase duas vezes maior do que no Sul Global.
A Anthropic escancara, em seu Índice Econômico, que países ricos usam IA para trabalho e ganho de produtividade, enquanto os pobres ainda usam para tarefas pontuais.
Ou seja, a disparidade não está apenas no desenvolvimento das tecnologias, mas também no seu uso e no ritmo de adoção.
Por se tratar de uma tecnologia de retorno crescente, quem larga na frente não só aprimora seus modelos e aplicações, como também passa a reorganizar os demais setores da economia. Essa dinâmica funciona como uma alavanca para um novo processo de divergência, agora em um ritmo ainda mais acelerado.
E qual a posição do Brasil nesse cenário?
O Brasil não está totalmente alheio a esse debate. O Plano Brasileiro de IA (PBIA) prevê R$ 23 bilhões para os próximos 4 anos, um valor relevante para nosso orçamento, mas irrisório diante do que Estados Unidos e China investem.
A realidade é dura. Precisamos assumir que competir na fronteira tecnológica é inviável, ao menos no curto e médio prazo.
Ainda assim, podemos fazer movimentos estruturantes para garantir um mínimo de soberania tecnológica e desenvolver aplicações em setores da economia nos quais temos vantagens comparativas.
O agro é o exemplo mais óbvio, mas a diversidade de dados disponível no país é outro diferencial relevante.
O primeiro passo, entretanto, é arrumar a casa. Se a desigualdade entre as nações caiu nas últimas décadas, paradoxalmente as diferenças internas em muitos países subiram consideravelmente, o que reflete também no acesso às diferentes tecnologias.
O uso da IA ainda é assimétrico no Brasil. A pesquisa TIC Domicílios 2025 mostra que a adoção da IA cresce rápido e já alcança 32% dos usuários de internet no país, o que é um dado positivo. O desafio, no entanto, está na disparidade de acesso.
Enquanto 69% da classe A usam ferramentas de IA, esse número cai para 32% na classe C e despenca para 16% na classe D/E. O padrão se repete na escolaridade, com 59% de adoção entre as pessoas com ensino superior e apenas 17% entre os que têm ensino fundamental. Outro ponto de atenção é que a IA ainda é usada mais para fins pessoais do que profissionais.
Por aqui, a desigualdade global da IA se cruza com nossas desigualdades internas.
Sem qualificação e uso produtivo da tecnologia, a IA tende a virar consumo e brincadeira, não desenvolvimento.
Estamos diante de um ponto de inflexão que pode ampliar não só a distância entre o Brasil e os líderes globais, mas também entre os próprios brasileiros.
Opinião
Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.






















