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Comprar passagem aérea virou uma corrida de obstáculos, um corredor polonês, um passeio a pé pelo Centro do Rio com o celular na mão e a carteira no bolso de trás.
Nos tempos da Panair, da PanAm, da Vasp, da Varig, da Transbrasil (pesquisem no Google), a gente ia até a agência de viagens, dizia para onde queria ir e em que data. O atendente digitava as informações numa geringonça chamada “terminal”, perguntava se queríamos corredor ou janela, emitia o bilhete (sim, era esse o nome da passagem) e a gente guardava aquele papelzinho como se fosse um cheque ao portador (pesquise no Google também, na seção de antiguidades, o que era um cheque — e ao portador).
Com a tecnologia, é possível acessar o aplicativo da companhia aérea e começar a via crucis sem sair do recesso do seu lar.
Escolhidos a companhia, o destino, a data e o horário, começa a extorsão, digo, a negociação.
Se quiser marcar o assento (mais à frente para desembarcar primeiro, mais atrás para ter alguma chance de escapar em caso de acidente; na janelinha para ver a paisagem e evitar que a pessoa ao lado puxe assunto, no corredor para não ter de pedir licença quando for ao banheiro), tem de pagar uma taxa. Caso contrário, a companhia te aloca na poltrona do meio, entre uma criança birrenta (pleonasmo, hoje em dia) e um day trader que tentará te convencer de que não há salvação fora das criptomoedas.
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Quer furar as 17 filas de prioridades (idosos, gestantes, gestantes idosas, pessoas com deficiência, portadores do cartão fidelidade, aniversariantes do mês, capricornianos canhotos etc.)? Basta pagar uma taxa extra e você terá direito a embarcar no Grupo Alpha Prime.
Bagagem despachada é paga à parte. Não tem nada para despachar, e vai só com bagagem de mão? Por uma módica quantia, você terá precedência para usar o compartimento superior – caso contrário, a mochila vai no chão (ou terá de ser despachada com aquele carinho que as companhias aéreas dedicam aos pertences que lhe são confiados).
Dependendo do trajeto, o lanche (um cream cracker e 25 ml de refrigerante) é cortesia. Mas não vai demorar muito para que você tenha de pagar pelo guardanapo, o copo descartável e os 10% do serviço.
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Faz uma semana que não compro passagem aérea, mas tenho até medo de acessar novamente o app e descobrir que incluíram a opção de reclinar a poltrona durante o voo, mediante uma taxa de reclinagem, e o direito de apoiar o cotovelo no braço do assento – que pode ser no débito ou no crédito. Vai usar o lavabo? Lavar as mãos depois? Secá-las? As três taxas estarão discriminadas no aplicativo, e, para sua conveniência, também podem ser pagas no momento da utilização – mas não se aceita cartão.
Havendo treta a bordo (e isso parece ter se tornado mandatório), é possível contratar o wi-fi para postagem imediata do vídeo e, quem sabe, você já desembarca como subcelebridade – se mocinho ou vilão, a companhia é quem decide.
O ar condicionado, por questões operacionais, ainda está incluído no preço da passagem. Mas assim que começarem a operar as aéreas low cost, prepare-se para ter saudade de quando pagava para escolher o assento. Porque a taxa passará a ser para não estar entre os 200 que vão em pé.
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E, na fuselagem, sob a imagem de uma gaivota estilizada, o slogan nos convidará: “Voe pelos ares com a gente!”.

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Comprar passagem aérea virou uma corrida de obstáculos, um corredor polonês, um passeio a pé pelo Centro do Rio com o celular na mão e a carteira no bolso de trás.
Nos tempos da Panair, da PanAm, da Vasp, da Varig, da Transbrasil (pesquisem no Google), a gente ia até a agência de viagens, dizia para onde queria ir e em que data. O atendente digitava as informações numa geringonça chamada “terminal”, perguntava se queríamos corredor ou janela, emitia o bilhete (sim, era esse o nome da passagem) e a gente guardava aquele papelzinho como se fosse um cheque ao portador (pesquise no Google também, na seção de antiguidades, o que era um cheque — e ao portador).
Com a tecnologia, é possível acessar o aplicativo da companhia aérea e começar a via crucis sem sair do recesso do seu lar.
Escolhidos a companhia, o destino, a data e o horário, começa a extorsão, digo, a negociação.
Se quiser marcar o assento (mais à frente para desembarcar primeiro, mais atrás para ter alguma chance de escapar em caso de acidente; na janelinha para ver a paisagem e evitar que a pessoa ao lado puxe assunto, no corredor para não ter de pedir licença quando for ao banheiro), tem de pagar uma taxa. Caso contrário, a companhia te aloca na poltrona do meio, entre uma criança birrenta (pleonasmo, hoje em dia) e um day trader que tentará te convencer de que não há salvação fora das criptomoedas.
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Quer furar as 17 filas de prioridades (idosos, gestantes, gestantes idosas, pessoas com deficiência, portadores do cartão fidelidade, aniversariantes do mês, capricornianos canhotos etc.)? Basta pagar uma taxa extra e você terá direito a embarcar no Grupo Alpha Prime.
Bagagem despachada é paga à parte. Não tem nada para despachar, e vai só com bagagem de mão? Por uma módica quantia, você terá precedência para usar o compartimento superior – caso contrário, a mochila vai no chão (ou terá de ser despachada com aquele carinho que as companhias aéreas dedicam aos pertences que lhe são confiados).
Dependendo do trajeto, o lanche (um cream cracker e 25 ml de refrigerante) é cortesia. Mas não vai demorar muito para que você tenha de pagar pelo guardanapo, o copo descartável e os 10% do serviço.
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Faz uma semana que não compro passagem aérea, mas tenho até medo de acessar novamente o app e descobrir que incluíram a opção de reclinar a poltrona durante o voo, mediante uma taxa de reclinagem, e o direito de apoiar o cotovelo no braço do assento – que pode ser no débito ou no crédito. Vai usar o lavabo? Lavar as mãos depois? Secá-las? As três taxas estarão discriminadas no aplicativo, e, para sua conveniência, também podem ser pagas no momento da utilização – mas não se aceita cartão.
Havendo treta a bordo (e isso parece ter se tornado mandatório), é possível contratar o wi-fi para postagem imediata do vídeo e, quem sabe, você já desembarca como subcelebridade – se mocinho ou vilão, a companhia é quem decide.
O ar condicionado, por questões operacionais, ainda está incluído no preço da passagem. Mas assim que começarem a operar as aéreas low cost, prepare-se para ter saudade de quando pagava para escolher o assento. Porque a taxa passará a ser para não estar entre os 200 que vão em pé.
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E, na fuselagem, sob a imagem de uma gaivota estilizada, o slogan nos convidará: “Voe pelos ares com a gente!”.

























