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Home News Saude

A mudança de paradigma sobre a obesidade que ocorreu em apenas um ano

Camila Mazzotto by Camila Mazzotto
7 de agosto de 2026
in Saude
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A mudança de paradigma sobre a obesidade que ocorreu em apenas um ano

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Novas drogas reformularam controle do peso (Foto: Liountmila Korelidou/Getty Images)

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O último ano ficará registrado como um período de transformação no tratamento da obesidade. Em um intervalo relativamente curto, evidências científicas robustas mudaram a prática clínica, ampliaram as possibilidades terapêuticas e consolidaram uma nova forma de compreender essa doença crônica.

Durante décadas, concentramos nossos esforços em tratar as consequências dessa condição. Diabetes tipo 2, hipertensão arterial, doenças cardiovasculares e tantas outras complicações ocupavam o centro das discussões clínicas, enquanto a obesidade, frequentemente na origem desse processo, permanecia subtratada. Hoje, sabemos que essa lógica precisava ser invertida.

A obesidade é uma doença crônica, progressiva e recidivante, influenciada por mecanismos biológicos complexos que regulam a fome, a saciedade e o gasto energético. Esse entendimento representa uma das mudanças mais importantes da endocrinologia nas últimas décadas e ajuda a substituir uma visão baseada em julgamentos por uma abordagem fundamentada na ciência.

A evolução do conhecimento científico também deixou mais clara uma distinção essencial: tratar a obesidade não é o mesmo que promover apenas a perda de peso.

O emagrecimento pode ser buscado por diferentes motivos e nem sempre está relacionado à presença de uma doença. Embora a redução do peso corporal seja um componente importante no manejo clínico, ela não representa seu objetivo final.

Tratar a obesidade significa controlar uma doença crônica, reduzir o risco de complicações, melhorar as comorbidades associadas e promover mais saúde, funcionalidade e qualidade de vida ao paciente. Essa mudança de perspectiva representa um dos avanços mais importantes na forma como cuidamos das pessoas que vivem com obesidade.

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E essa transformação acontece em um momento especialmente relevante. Mais de 62% dos brasileiros vivem com excesso de peso e 25,7% têm obesidade, condição associada a mais de 200 complicações de saúde e que representa um dos maiores desafios para os sistemas de saúde em todo o mundo.

Nos últimos doze meses, vimos esse conhecimento ganhar ainda mais consistência. A chegada de terapias inovadoras à prática clínica, aliada ao avanço das pesquisas, consolidou uma nova etapa no tratamento da obesidade.

Pela primeira vez, dispomos de medicamentos capazes de atuar diretamente nos mecanismos biológicos da doença, oferecendo resultados que, até poucos anos atrás, eram alcançados predominantemente com a cirurgia bariátrica.

Esse avanço também ajudou a explicar experiências frequentemente relatadas pelos pacientes, como o chamado food noise — pensamentos persistentes e involuntários relacionados à alimentação.

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Mais do que um novo termo, esse conceito reforça que a obesidade envolve alterações biológicas reais e complexas, distantes da ideia simplista de que seu controle depende exclusivamente de força de vontade. Esse novo entendimento também contribui para reduzir o estigma historicamente associado à doença.

Mas talvez a principal mudança seja outra: hoje contamos com evidências científicas capazes de demonstrar que tratar a obesidade vai muito além da perda de peso. A redução do peso corporal continua sendo um importante indicador da resposta ao tratamento, mas os estudos mais recentes mostram que seus benefícios se estendem à prevenção de complicações, à redução de riscos e à melhora da qualidade de vida.

Esses avanços ficam claros nos resultados dos estudos clínicos mais recentes com novas opções terapêuticas. Participantes com obesidade ou sobrepeso associado a comorbidades alcançaram perdas médias de peso de até 22,5% após 72 semanas de tratamento.

Mais importante do que esse número, entretanto, foi observar que participantes com pré-diabetes apresentaram redução de 94% no risco de progressão para diabetes tipo 2 após três anos de acompanhamento.

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As evidências também demonstraram benefícios em outras condições frequentemente associadas à obesidade, como a apneia obstrutiva do sono e a insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada. Esses resultados reforçam a mensagem de que tratar a obesidade significa proteger a saúde como um todo, e não apenas reduzir o peso corporal.

Ao mesmo tempo em que novas possibilidades terapêuticas surgem, cresce nossa responsabilidade como profissionais de saúde. Medicamentos para o tratamento da obesidade não podem ser banalizados nem reduzidos a expressões como “canetas emagrecedoras“, que simplificam uma abordagem médica complexa.

Essas terapias fazem parte do tratamento de uma doença crônica e devem ser utilizadas com indicação adequada, acompanhamento médico e produtos cuja qualidade, segurança e eficácia tenham sido demonstradas em estudos científicos robustos e aprovados pelas autoridades regulatórias.

No entanto, a inovação só alcança seu verdadeiro potencial quando é acompanhada de acesso ao diagnóstico, ao tratamento adequado e ao acompanhamento contínuo dos pacientes. O avanço científico representa uma oportunidade extraordinária, mas seu impacto depende de que essas terapias cheguem, de forma segura, responsável e baseada em evidências, às pessoas que realmente podem se beneficiar delas.

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A velocidade da produção científica mostra que essa transformação está longe de terminar. Moléculas inovadoras e diferentes formas de administração seguem em desenvolvimento, ampliando as possibilidades terapêuticas para pacientes e profissionais de saúde. O que permanece inalterado é a necessidade de que toda inovação seja acompanhada pelo mesmo rigor científico que permitiu chegarmos até aqui.

Se o último ano nos ensinou alguma coisa, foi que a obesidade finalmente passou a ser tratada com a complexidade que sempre exigiu. Mais do que uma nova geração de medicamentos, vivemos uma mudança na forma de cuidar das pessoas que convivem com essa doença. E essa talvez seja a maior conquista da ciência: oferecer não apenas mais anos de vida, mas mais saúde, autonomia e qualidade de vida para milhões de pacientes.

*João Salles é endocrinologista, professor da Santa Casa de São Paulo e presidente da Sociedade Brasileira de Diabetes

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Durante décadas, concentramos nossos esforços em tratar as consequências dessa condição. Diabetes tipo 2, hipertensão arterial, doenças cardiovasculares e tantas outras complicações ocupavam o centro das discussões clínicas, enquanto a obesidade, frequentemente na origem desse processo, permanecia subtratada. Hoje, sabemos que essa lógica precisava ser invertida.

A obesidade é uma doença crônica, progressiva e recidivante, influenciada por mecanismos biológicos complexos que regulam a fome, a saciedade e o gasto energético. Esse entendimento representa uma das mudanças mais importantes da endocrinologia nas últimas décadas e ajuda a substituir uma visão baseada em julgamentos por uma abordagem fundamentada na ciência.

A evolução do conhecimento científico também deixou mais clara uma distinção essencial: tratar a obesidade não é o mesmo que promover apenas a perda de peso.

O emagrecimento pode ser buscado por diferentes motivos e nem sempre está relacionado à presença de uma doença. Embora a redução do peso corporal seja um componente importante no manejo clínico, ela não representa seu objetivo final.

Tratar a obesidade significa controlar uma doença crônica, reduzir o risco de complicações, melhorar as comorbidades associadas e promover mais saúde, funcionalidade e qualidade de vida ao paciente. Essa mudança de perspectiva representa um dos avanços mais importantes na forma como cuidamos das pessoas que vivem com obesidade.

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E essa transformação acontece em um momento especialmente relevante. Mais de 62% dos brasileiros vivem com excesso de peso e 25,7% têm obesidade, condição associada a mais de 200 complicações de saúde e que representa um dos maiores desafios para os sistemas de saúde em todo o mundo.

Nos últimos doze meses, vimos esse conhecimento ganhar ainda mais consistência. A chegada de terapias inovadoras à prática clínica, aliada ao avanço das pesquisas, consolidou uma nova etapa no tratamento da obesidade.

Pela primeira vez, dispomos de medicamentos capazes de atuar diretamente nos mecanismos biológicos da doença, oferecendo resultados que, até poucos anos atrás, eram alcançados predominantemente com a cirurgia bariátrica.

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Mas talvez a principal mudança seja outra: hoje contamos com evidências científicas capazes de demonstrar que tratar a obesidade vai muito além da perda de peso. A redução do peso corporal continua sendo um importante indicador da resposta ao tratamento, mas os estudos mais recentes mostram que seus benefícios se estendem à prevenção de complicações, à redução de riscos e à melhora da qualidade de vida.

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Ao mesmo tempo em que novas possibilidades terapêuticas surgem, cresce nossa responsabilidade como profissionais de saúde. Medicamentos para o tratamento da obesidade não podem ser banalizados nem reduzidos a expressões como “canetas emagrecedoras“, que simplificam uma abordagem médica complexa.

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*João Salles é endocrinologista, professor da Santa Casa de São Paulo e presidente da Sociedade Brasileira de Diabetes

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