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A morte do cão Orelha: como explicar tamanho ato de violência?

Redação by Redação
27 de janeiro de 2026
in Saude
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A morte do cão Orelha: como explicar tamanho ato de violência?

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O cão comunitário Orelha: polícia investiga morte após ataque de adolescentes (Foto: Reprodução/Reprodução)

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O caso do cachorro Orelha, morto após sofrer agressões de extrema violência supostamente cometidas por adolescentes na Praia Brava, em Florianópolis, provoca indignação social e nos coloca diante de uma pergunta inquietante: o que leva jovens a praticarem atos de crueldade tão intensos?

A adolescência é um período marcado por profunda reestruturação subjetiva, no qual o indivíduo busca consolidar sua identidade e seu senso de eu. Nesse processo, é comum a testagem de limites, das regras e da lei, mas quando essa transgressão assume a forma de violência extrema, especialmente contra um ser indefeso, torna-se necessário olhar além do ato em si e investigar suas raízes psíquicas e sociais.

No livro As sombras do Eu – Psicopatologias da Maldade (Quiçá Books), discuto como, do ponto de vista psicanalítico, tais comportamentos podem estar associados a falhas na constituição do superego, instância responsável por introduzir a noção de lei, de certo e errado, de limites internos.

Quando essa estrutura é fragilizada, o sujeito pode ter dificuldade em reconhecer o que é permitido ou interditado, abrindo espaço para condutas transgressoras de grande gravidade.

Outro aspecto relevante é a falha de simbolização. Quando o adolescente não consegue expressar sua angústia, frustração ou sofrimento por meio da palavra ou de outras formas simbólicas, como o brincar, o desenho ou a criação, ele pode recorrer ao ato como forma de descarga pulsional.

Trata-se do que a psicanálise denomina passagem ao ato: uma ação que não é mediada pela linguagem e que surge como tentativa desesperada de aliviar tensões internas que não encontram representação psíquica.

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Há ainda o fenômeno da desumanização do outro, amplamente discutido na obra. Quando a vítima deixa de ser reconhecida como um sujeito ou, no caso, quando o animal não é percebido como um ser vivo capaz de sentir dor, a crueldade se torna possível.

O outro passa a ser tratado como objeto, instrumento de exercício de poder e de expressão da maldade, o que amplia o potencial destrutivo do ato. E a vítima, claro, pode ser um cão, como o Orelha.

É importante ressaltar que comportamentos criminosos não surgem do nada. Em muitos casos, eles estão ligados a fragilidades narcísicas profundas, a uma necessidade intensa de autoafirmação e à tentativa de consolidar um eu que se percebe frágil.

Quando o narcisismo saudável, aquele que permite o reconhecimento de si, não se estrutura adequadamente, o sujeito pode buscar no ato violento uma forma distorcida de afirmar poder e superioridade sobre o outro.

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Nesse contexto, a função paterna exerce um papel central. Não se trata necessariamente da figura do pai, mas da função simbólica que representa a lei, o interdito e os limites estruturantes do psiquismo.

Quando essa função falha ou está ausente, a agressividade tende a se expressar de maneira mais direta, concreta e destrutiva. Jovens que cresceram sem barreiras claras podem apresentar maior dificuldade em lidar com frustração e contenção de impulsos.

Outro fator relevante é a identificação com agressores. Muitos adolescentes reproduzem violências que sofreram ou presenciaram. Ao ocupar o lugar daquele que agride, tentam, de forma inconsciente, recuperar um senso de controle e poder que lhes faltou em experiências anteriores de sofrimento.

Soma-se a isso a exposição excessiva a conteúdos violentos. Quanto mais violência é consumida, especialmente sem mediação crítica, maior tende a ser a dessensibilização. O outro deixa de ser percebido com empatia, e o sofrimento alheio passa a ser banalizado.

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Como apontou a filósofa Hannah Arendt ao falar da banalidade do mal, a repetição da violência pode torná-la comum, aceitável e, em alguns casos, até fonte de prazer.

Diante desse cenário, a estruturação do sujeito não pode recair sobre um único agente. A família tem um papel fundamental na construção de uma lei interna, ensinando a lidar com frustração, limites, fracasso e respeito ao outro.

A escola pode funcionar como espaço de mediação de conflitos, oferecendo ao jovem possibilidades de simbolizar sua agressividade por meio da palavra e do diálogo.

Já as instituições de Justiça cumprem a função de responsabilização, fundamental para que o adolescente compreenda o impacto de seus atos e se implique subjetivamente neles.

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Casos de crueldade contra animais devem ser entendidos como sintomas de um mal-estar mais amplo, mas também como sinais de alerta. Muitas vezes, esse tipo de violência anuncia trajetórias criminosas mais graves no futuro.
Investigar as causas, responsabilizar o jovem e oferecer outras formas de elaboração do sofrimento pode ser decisivo para evitar que esses adolescentes se tornem adultos marcados pela violência e pela repetição do crime.

Refletir sobre esses atos não é relativizar a gravidade do ocorrido, mas compreender que prevenir a violência passa, necessariamente, por entender suas origens psíquicas, sociais e simbólicas. Enquanto isso, pedimos #JustiçaPorOrelha.

* Elizandra Souza é psicanalista e professora em cursos de formação em Psicanálise há mais de 20 anos. Mestre em Educação pela Universidade São Francisco, possui especialização em Direito Penal pela FAMEESP e em Psicanálise e Linguagem pela PUC-SP. É autora de As sombras do Eu – Psicopatologias da Maldade

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O cão comunitário Orelha: polícia investiga morte após ataque de adolescentes (Foto: Reprodução/Reprodução)

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A adolescência é um período marcado por profunda reestruturação subjetiva, no qual o indivíduo busca consolidar sua identidade e seu senso de eu. Nesse processo, é comum a testagem de limites, das regras e da lei, mas quando essa transgressão assume a forma de violência extrema, especialmente contra um ser indefeso, torna-se necessário olhar além do ato em si e investigar suas raízes psíquicas e sociais.

No livro As sombras do Eu – Psicopatologias da Maldade (Quiçá Books), discuto como, do ponto de vista psicanalítico, tais comportamentos podem estar associados a falhas na constituição do superego, instância responsável por introduzir a noção de lei, de certo e errado, de limites internos.

Quando essa estrutura é fragilizada, o sujeito pode ter dificuldade em reconhecer o que é permitido ou interditado, abrindo espaço para condutas transgressoras de grande gravidade.

Outro aspecto relevante é a falha de simbolização. Quando o adolescente não consegue expressar sua angústia, frustração ou sofrimento por meio da palavra ou de outras formas simbólicas, como o brincar, o desenho ou a criação, ele pode recorrer ao ato como forma de descarga pulsional.

Trata-se do que a psicanálise denomina passagem ao ato: uma ação que não é mediada pela linguagem e que surge como tentativa desesperada de aliviar tensões internas que não encontram representação psíquica.

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Há ainda o fenômeno da desumanização do outro, amplamente discutido na obra. Quando a vítima deixa de ser reconhecida como um sujeito ou, no caso, quando o animal não é percebido como um ser vivo capaz de sentir dor, a crueldade se torna possível.

O outro passa a ser tratado como objeto, instrumento de exercício de poder e de expressão da maldade, o que amplia o potencial destrutivo do ato. E a vítima, claro, pode ser um cão, como o Orelha.

É importante ressaltar que comportamentos criminosos não surgem do nada. Em muitos casos, eles estão ligados a fragilidades narcísicas profundas, a uma necessidade intensa de autoafirmação e à tentativa de consolidar um eu que se percebe frágil.

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Refletir sobre esses atos não é relativizar a gravidade do ocorrido, mas compreender que prevenir a violência passa, necessariamente, por entender suas origens psíquicas, sociais e simbólicas. Enquanto isso, pedimos #JustiçaPorOrelha.

* Elizandra Souza é psicanalista e professora em cursos de formação em Psicanálise há mais de 20 anos. Mestre em Educação pela Universidade São Francisco, possui especialização em Direito Penal pela FAMEESP e em Psicanálise e Linguagem pela PUC-SP. É autora de As sombras do Eu – Psicopatologias da Maldade

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