A notícia de que uma adolescente de 13 anos se automutilou e cometeu suicídio ao vivo em uma transmissão no Discord é estarrecedora. O caso aconteceu em julho, em Naviraí, município a 355 quilômetros de Campo Grande, mas veio a conhecimento público neste mês, com informações sobre a apreensão de cinco menores de idade e a prisão de um jovem de 18 anos, todos acusados de incentivar a adolescente a atos de violência extrema. As operações policiais ocorreram em diversos estados: Mato Grosso do Sul, Pará, Ceará, Minas Gerais e Rio de Janeiro.
A ANPD (Agência Nacional de Proteção de Dados) abriu um processo de fiscalização contra o Discord e suspendeu, nesta quarta (12), lives na plataforma. A empresa, por sua vez, negou omissão e afirmou ter fechado o grupo antes da morte da garota. Também entregou à AGU (Advocacia-Geral da União) uma proposta para aumentar a segurança de crianças e adolescentes na rede.
Os relatos de crimes praticados no Discord não são, infelizmente, novidade. Há pelo menos três anos, diversas reportagens vêm denunciando a variedade de delitos cometidos por adolescentes e adultos em servidores privados, como maus-tratos a animais, compartilhamento de pornografia infantil, divulgação de dados pessoais e disseminação de discursos de ódio.
Os principais alvos são meninas que, atraídas para grupos restritos administrados por jovens do sexo masculino, tornam-se reféns deles. Detendo dados e fotos íntimas das vítimas, esses adolescentes e homens ameaçam e chantageiam as garotas, obrigando-as a realizar uma série de tarefas abjetas e extremamente abusivas, em um processo de manipulação psicológica chamado por investigadores e especialistas de “escravização virtual”.
É inadmissível que, como sociedade, estejamos vendo esse tipo de atrocidade acontecer, inclusive com plateia, sem agir de forma contundente. É preciso fazer valer o que está posto na Lei 15.211/25, mais conhecida como ECA Digital, uma legislação sólida e abrangente, que distribui as responsabilidades entre os atores envolvidos na proteção do público infanto-juvenil nos ambientes virtuais.
Mais recentemente, também foi sancionada a Lei 15.487/26, que eleva as penalidades indicadas no ECA Digital relativas a crimes de produção, venda, armazenamento e divulgação de imagens de violência sexual contra crianças e adolescentes, tornando hediondas algumas dessas condutas.
Por isso, é óbvio que o Discord deve prestar esclarecimentos e obedecer à legislação brasileira. Passou da hora de responsabilizarmos legalmente as empresas de tecnologia e aqueles que as utilizam para perpetrar esses e outros crimes que vêm se proliferando nas mídias sociais há, no mínimo, mais de uma década.
Mas proibi-las de operar em território nacional dificilmente vai resolver a complexidade do problema, dado que não extingue os ímpetos criminosos de jovens nem a vulnerabilidade de crianças e adolescentes nos demais ambientes virtuais. Assim como encontraram no Discord um terreno propício para isso, os abusadores podem migrar para outros ainda mais difíceis de serem fiscalizados.
Também estamos perdendo tempo ao ignorarmos a importância de se investir em educação midiática e digital contínua para todos os públicos —do escolar aos adultos que já deixaram os sistemas de ensino. Ainda que as escolas brasileiras hoje contem com esse tema no currículo, não é possível ignorar a dimensão familiar nessa equação —tanto em relação às famílias das vítimas como dos agressores.
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Em entrevista ao G1, a mãe da menina revelou que não notou alterações bruscas no comportamento da adolescente. Apesar da dor extrema que está vivenciando, ela afirmou esperar que a morte da filha sirva de alerta para outras famílias.
Sua declaração é muito importante, pois mostra o quão urgente é o envolvimento de mães, pais e demais responsáveis na vida digital dos filhos. É imprescindível que estes supervisionem e orientem o uso que os adolescentes fazem de dispositivos móveis e mídias sociais. É igualmente necessário que se mantenham informados sobre os riscos desses ambientes, bem como estabeleçam um diálogo aberto e firme sobre esse tema em casa.
A tragédia em Naviraí é chocante por lembrar a todos e todas nós da maldade e da vulnerabilidade que integram as dinâmicas das mídias sociais. Agir para proteger adolescentes nesses ambientes é uma demanda coletiva e inadiável —um compromisso social que precisa ser encarado como prioridade.
A notícia de que uma adolescente de 13 anos se automutilou e cometeu suicídio ao vivo em uma transmissão no Discord é estarrecedora. O caso aconteceu em julho, em Naviraí, município a 355 quilômetros de Campo Grande, mas veio a conhecimento público neste mês, com informações sobre a apreensão de cinco menores de idade e a prisão de um jovem de 18 anos, todos acusados de incentivar a adolescente a atos de violência extrema. As operações policiais ocorreram em diversos estados: Mato Grosso do Sul, Pará, Ceará, Minas Gerais e Rio de Janeiro.
A ANPD (Agência Nacional de Proteção de Dados) abriu um processo de fiscalização contra o Discord e suspendeu, nesta quarta (12), lives na plataforma. A empresa, por sua vez, negou omissão e afirmou ter fechado o grupo antes da morte da garota. Também entregou à AGU (Advocacia-Geral da União) uma proposta para aumentar a segurança de crianças e adolescentes na rede.
Os relatos de crimes praticados no Discord não são, infelizmente, novidade. Há pelo menos três anos, diversas reportagens vêm denunciando a variedade de delitos cometidos por adolescentes e adultos em servidores privados, como maus-tratos a animais, compartilhamento de pornografia infantil, divulgação de dados pessoais e disseminação de discursos de ódio.
Os principais alvos são meninas que, atraídas para grupos restritos administrados por jovens do sexo masculino, tornam-se reféns deles. Detendo dados e fotos íntimas das vítimas, esses adolescentes e homens ameaçam e chantageiam as garotas, obrigando-as a realizar uma série de tarefas abjetas e extremamente abusivas, em um processo de manipulação psicológica chamado por investigadores e especialistas de “escravização virtual”.
É inadmissível que, como sociedade, estejamos vendo esse tipo de atrocidade acontecer, inclusive com plateia, sem agir de forma contundente. É preciso fazer valer o que está posto na Lei 15.211/25, mais conhecida como ECA Digital, uma legislação sólida e abrangente, que distribui as responsabilidades entre os atores envolvidos na proteção do público infanto-juvenil nos ambientes virtuais.
Mais recentemente, também foi sancionada a Lei 15.487/26, que eleva as penalidades indicadas no ECA Digital relativas a crimes de produção, venda, armazenamento e divulgação de imagens de violência sexual contra crianças e adolescentes, tornando hediondas algumas dessas condutas.
Por isso, é óbvio que o Discord deve prestar esclarecimentos e obedecer à legislação brasileira. Passou da hora de responsabilizarmos legalmente as empresas de tecnologia e aqueles que as utilizam para perpetrar esses e outros crimes que vêm se proliferando nas mídias sociais há, no mínimo, mais de uma década.
Mas proibi-las de operar em território nacional dificilmente vai resolver a complexidade do problema, dado que não extingue os ímpetos criminosos de jovens nem a vulnerabilidade de crianças e adolescentes nos demais ambientes virtuais. Assim como encontraram no Discord um terreno propício para isso, os abusadores podem migrar para outros ainda mais difíceis de serem fiscalizados.
Também estamos perdendo tempo ao ignorarmos a importância de se investir em educação midiática e digital contínua para todos os públicos —do escolar aos adultos que já deixaram os sistemas de ensino. Ainda que as escolas brasileiras hoje contem com esse tema no currículo, não é possível ignorar a dimensão familiar nessa equação —tanto em relação às famílias das vítimas como dos agressores.
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Em entrevista ao G1, a mãe da menina revelou que não notou alterações bruscas no comportamento da adolescente. Apesar da dor extrema que está vivenciando, ela afirmou esperar que a morte da filha sirva de alerta para outras famílias.
Sua declaração é muito importante, pois mostra o quão urgente é o envolvimento de mães, pais e demais responsáveis na vida digital dos filhos. É imprescindível que estes supervisionem e orientem o uso que os adolescentes fazem de dispositivos móveis e mídias sociais. É igualmente necessário que se mantenham informados sobre os riscos desses ambientes, bem como estabeleçam um diálogo aberto e firme sobre esse tema em casa.
A tragédia em Naviraí é chocante por lembrar a todos e todas nós da maldade e da vulnerabilidade que integram as dinâmicas das mídias sociais. Agir para proteger adolescentes nesses ambientes é uma demanda coletiva e inadiável —um compromisso social que precisa ser encarado como prioridade.




















