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Seis pessoas com alergia grave a amendoim passaram a tolerar a oleaginosa após receber cápsulas contendo bactérias intestinais de voluntários que não tinham a alergia. O resultado, descrito como uma das primeiras evidências de que a microbiota intestinal pode ajudar a tratar alergias alimentares, foi publicado na quinta-feira, 6, na revista científica Science Translational Medicine.
O estudo, com apenas 15 participantes, testou pela primeira vez em humanos o chamado transplante de microbiota fecal como estratégia contra alergias alimentares. A ideia é relativamente simples: transferir para o intestino de pessoas alérgicas microrganismos de indivíduos que não apresentam a condição.
Antes de receberem as cápsulas, os voluntários não podiam consumir mais de 100 miligramas de amendoim sem desenvolver uma reação. Essa quantidade é equivalente a menos de meio amendoim.
Quatro meses após o transplante, uma pessoa conseguiu consumir 300 miligramas de amendoim e cinco pessoas podiam consumir 600 miligramas ou mais, o equivalente a cerca de dois amendoins e meio.
“É mais um passo em direção a tratamentos e à cura de alergias alimentares. A eficácia real do transplante fecal, porém, ainda não está estabelecida. É um passo promissor, mas ainda longe de ser um tratamento aprovado”, avalia Lucila Camargo Lopes de Oliveira, membro do Departamento Cientifico de Alergia Alimentar da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (ASBAI), que não participou do estudo.
Como foi feito o transplante
Segundo Oliveira, quem tem alergia a amendoim geralmente permanece alérgico para toda a vida. Estima-se que apenas cerca de 20% das pessoas adquiram tolerância natural ao alimento com o passar do tempo.
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No estudo, os participantes receberam um comprimido sem gosto e sem cheiro contendo bactérias intestinais de voluntários saudáveis sem alergia a amendoim.
A maioria dos participantes recebeu 36 comprimidos em um único dia, o que, segundo os pesquisadores, não causou efeitos colaterais graves. Cinco dos participantes também receberam antibióticos por quatro dias antes do transplante.
O raciocínio por trás desse efeito envolve o sistema de defesa e a microbiota, que é o conjunto de bactérias que povoam nosso intestino.
Algumas pesquisas anteriores associaram alergias alimentares a baixos níveis de certas bactérias intestinais. Pesquisas feitas em camundongos também mostraram que dar aos animais grupos de diversas espécies de bactérias intestinais manteve as alergias alimentares sob controle.
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Foi isso que levou os pesquisadores a levantarem a hipótese de que transplantes fecais de pessoas sem alergias alimentares poderiam “controlar” o sistema imunológico de pessoas com alergia.
“Na alergia alimentar, há uma desregulação do sistema imune, e o alimento passa a ser visto como perigoso, suscitando respostas exageradas
desnecessárias. As bactérias intestinais benéficas ajudam a ensinar o sistema imune a se manter regulado, evitando erros que levam a sintomas de alergias”, explica Oliveira.
Mas por que o transplante não funcionou em nove voluntários, apenas em seis? Os autores sugerem que a bactéria pode não ter se estabelecido nessas pessoas possivelmente devido a diferenças relacionadas ao gênero: cinco das seis pessoas que responderam eram homens.
Além disso, a maioria dos participantes que não responderam bem também não recebeu antibióticos antes do transplante.
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Técnica pode ampliar tratamento a alergia, mas ainda está longe de chegar aos consultórios
Atualmente, a principal opção de tratamento para quem tem alergia a amendoim é evitar ingerir a oleaginosa, além de sempre carregar adrenalina injetável para o caso de exposição acidental.
A imunoterapia oral também pode ser uma opção para alguns pacientes com alergia a amendoim. O tratamento consiste em oferecer pequenas quantidades do próprio alimento, em doses cuidadosamente calculadas e aumentadas de forma gradual.
O objetivo é que o sistema imunológico desenvolva maior tolerância à proteína do amendoim. Com isso, a pessoa pode conseguir suportar uma quantidade maior do alimento antes de ter uma reação, o que reduz o risco de uma ingestão acidental provocar uma reação grave.
O efeito, porém, depende da manutenção regular das doses. Ou seja, a imunoterapia não elimina a alergia nem significa que o paciente possa comer amendoim livremente.
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“Para indivíduos muito sensíveis, que reagem a doses baixíssimas ou gravemente, já existe um imunobiológico aprovado para essa indicação em alguns países, ainda não no Brasil. Aplicado regularmente, ele pode aumentar a dose necessária de alimento para que os sintomas aconteçam”, comenta Oliveira.
No estudo que testou o transplante fecal, o efeito, quando apareceu, teve a tendência de se manter por um período prolongado, o que levou os autores a afirmarem que a abordagem pode ser uma “modalidade terapêutica segura e potencialmente promissora” para esses casos.
A pesquisa também sugere que o tratamento pode funcionar para outras alergias alimentares. Isso porque, em testes com camundongos, os pesquisadores testaram a reação dos animais a uma proteína diferente, a do ovo.
Eles transplantaram bactérias intestinais de amostras de fezes dos participantes para camundongos e descobriram que as bactérias de pessoas que responderam bem ao tratamento também protegeram os camundongos do desenvolvimento de alergias a uma proteína do ovo.
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Já os camundongos que receberam bactérias de pessoas que permaneceram sensíveis ao amendoim desenvolveram alergias à proteína do ovo.
No entanto, mais estudos ainda devem ser feitos até que o transplante de bactérias intestinais para tratar alergia alimentar chegue aos consultórios.
Segundo o site da revista Nature, os próprios autores estão concluindo o recrutamento para um segundo ensaio clínico, de maior porte, que vai dar aos voluntários uma dose cerca de 12 vezes maior de bactérias intestinais, distribuída ao longo de um mês.
A expectativa é que a pesquisa forneça mais pistas sobre quais outras bactérias têm um efeito positivo e qual perfil de paciente poderia ser beneficiado pelo “coquetel bacteriano”.
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Seis pessoas com alergia grave a amendoim passaram a tolerar a oleaginosa após receber cápsulas contendo bactérias intestinais de voluntários que não tinham a alergia. O resultado, descrito como uma das primeiras evidências de que a microbiota intestinal pode ajudar a tratar alergias alimentares, foi publicado na quinta-feira, 6, na revista científica Science Translational Medicine.
O estudo, com apenas 15 participantes, testou pela primeira vez em humanos o chamado transplante de microbiota fecal como estratégia contra alergias alimentares. A ideia é relativamente simples: transferir para o intestino de pessoas alérgicas microrganismos de indivíduos que não apresentam a condição.
Antes de receberem as cápsulas, os voluntários não podiam consumir mais de 100 miligramas de amendoim sem desenvolver uma reação. Essa quantidade é equivalente a menos de meio amendoim.
Quatro meses após o transplante, uma pessoa conseguiu consumir 300 miligramas de amendoim e cinco pessoas podiam consumir 600 miligramas ou mais, o equivalente a cerca de dois amendoins e meio.
“É mais um passo em direção a tratamentos e à cura de alergias alimentares. A eficácia real do transplante fecal, porém, ainda não está estabelecida. É um passo promissor, mas ainda longe de ser um tratamento aprovado”, avalia Lucila Camargo Lopes de Oliveira, membro do Departamento Cientifico de Alergia Alimentar da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (ASBAI), que não participou do estudo.
Como foi feito o transplante
Segundo Oliveira, quem tem alergia a amendoim geralmente permanece alérgico para toda a vida. Estima-se que apenas cerca de 20% das pessoas adquiram tolerância natural ao alimento com o passar do tempo.
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No estudo, os participantes receberam um comprimido sem gosto e sem cheiro contendo bactérias intestinais de voluntários saudáveis sem alergia a amendoim.
A maioria dos participantes recebeu 36 comprimidos em um único dia, o que, segundo os pesquisadores, não causou efeitos colaterais graves. Cinco dos participantes também receberam antibióticos por quatro dias antes do transplante.
O raciocínio por trás desse efeito envolve o sistema de defesa e a microbiota, que é o conjunto de bactérias que povoam nosso intestino.
Algumas pesquisas anteriores associaram alergias alimentares a baixos níveis de certas bactérias intestinais. Pesquisas feitas em camundongos também mostraram que dar aos animais grupos de diversas espécies de bactérias intestinais manteve as alergias alimentares sob controle.
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Foi isso que levou os pesquisadores a levantarem a hipótese de que transplantes fecais de pessoas sem alergias alimentares poderiam “controlar” o sistema imunológico de pessoas com alergia.
“Na alergia alimentar, há uma desregulação do sistema imune, e o alimento passa a ser visto como perigoso, suscitando respostas exageradas
desnecessárias. As bactérias intestinais benéficas ajudam a ensinar o sistema imune a se manter regulado, evitando erros que levam a sintomas de alergias”, explica Oliveira.
Mas por que o transplante não funcionou em nove voluntários, apenas em seis? Os autores sugerem que a bactéria pode não ter se estabelecido nessas pessoas possivelmente devido a diferenças relacionadas ao gênero: cinco das seis pessoas que responderam eram homens.
Além disso, a maioria dos participantes que não responderam bem também não recebeu antibióticos antes do transplante.
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A imunoterapia oral também pode ser uma opção para alguns pacientes com alergia a amendoim. O tratamento consiste em oferecer pequenas quantidades do próprio alimento, em doses cuidadosamente calculadas e aumentadas de forma gradual.
O objetivo é que o sistema imunológico desenvolva maior tolerância à proteína do amendoim. Com isso, a pessoa pode conseguir suportar uma quantidade maior do alimento antes de ter uma reação, o que reduz o risco de uma ingestão acidental provocar uma reação grave.
O efeito, porém, depende da manutenção regular das doses. Ou seja, a imunoterapia não elimina a alergia nem significa que o paciente possa comer amendoim livremente.
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“Para indivíduos muito sensíveis, que reagem a doses baixíssimas ou gravemente, já existe um imunobiológico aprovado para essa indicação em alguns países, ainda não no Brasil. Aplicado regularmente, ele pode aumentar a dose necessária de alimento para que os sintomas aconteçam”, comenta Oliveira.
No estudo que testou o transplante fecal, o efeito, quando apareceu, teve a tendência de se manter por um período prolongado, o que levou os autores a afirmarem que a abordagem pode ser uma “modalidade terapêutica segura e potencialmente promissora” para esses casos.
A pesquisa também sugere que o tratamento pode funcionar para outras alergias alimentares. Isso porque, em testes com camundongos, os pesquisadores testaram a reação dos animais a uma proteína diferente, a do ovo.
Eles transplantaram bactérias intestinais de amostras de fezes dos participantes para camundongos e descobriram que as bactérias de pessoas que responderam bem ao tratamento também protegeram os camundongos do desenvolvimento de alergias a uma proteína do ovo.
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Já os camundongos que receberam bactérias de pessoas que permaneceram sensíveis ao amendoim desenvolveram alergias à proteína do ovo.
No entanto, mais estudos ainda devem ser feitos até que o transplante de bactérias intestinais para tratar alergia alimentar chegue aos consultórios.
Segundo o site da revista Nature, os próprios autores estão concluindo o recrutamento para um segundo ensaio clínico, de maior porte, que vai dar aos voluntários uma dose cerca de 12 vezes maior de bactérias intestinais, distribuída ao longo de um mês.
A expectativa é que a pesquisa forneça mais pistas sobre quais outras bactérias têm um efeito positivo e qual perfil de paciente poderia ser beneficiado pelo “coquetel bacteriano”.


















