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Na Ilíada e na Odisseia, Homero descreve fisicamente os personagens nos detalhes. Fala da cor castanho-avermelhada dos cabelos do guerreiro Aquiles e seus olhos assemelhados às “labaredas de fogo”. Registra que Agamenon, o líder dos gregos, possui testa larga, cabelos claros e tórax avantajado. Sobre o príncipe troiano Páris, Homero diz da sua beleza afeminada e exótica. Homero se preocupou em pintar, com letras, essa galeria de heróis, dando-lhes vida. A partir do texto, conseguimos imaginar cada um deles nas minúcias.
Há uma personagem que, diferentemente das demais, Homero fez questão de não descrever: Helena, a personificação da beleza. Ela recebe apenas uma alusão: a de possuir braços alvos.
Como Helena seria a mais bela das mulheres, Homero, com inteligência, deixou de propósito de definir seus atributos físicos. Assim, permitiu que os leitores pudessem criar, nas suas mentes, sempre mais generosas, a beleza absoluta. Se Homero tivesse dito que Helena tinhas olhos castanhos, iria desapontar aqueles que preferem olhos negros. Se dissesse que era loura, entristeceria os que apreciam mais as morenas; se dissesse que era ruiva, entristeceria os que apreciam mais as pretas. Como as pessoas – ainda bem – têm seu gosto particular, melhor que cada um idealize e construa seu próprio ideal de formosura.
Homero percebeu que a imaginação sempre vence. Também por conta disso, Helena se transformou no arquetípico da mulher fatal – e sua ida para Tróia foi, como se sabe, a causa do mais conhecido confronto da antiguidade.
No recém-lançado filme Odisseia, dirigido pelo aclamado Christopher Nolan, e apinhado de atores famosos, escolheu-se a linda atriz Lupita Nyong’o para desempenhar o papel de Helena. Uma mulher negra, que, apesar de belíssima, não apenas se afasta da única referência ao texto homérico acerca do aspecto físico daquela personagem (pois não possui “braços alvos”), mas acaba por restringir o ideal de beleza.
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Nesse ponto, a literatura ganha, com sobras, do cinema. A literatura, neste e em muitos outros casos, consegue ser mais generosa, pois transfere ao intérprete o poder da definição. A literatura amplia, enquanto a imagem restringe.
Vale a pena assistir à Odisseia no cinema. Vale, até para ter certeza: o texto de Homero não cabe no filme.
José Roberto de Castro Neves é advogado e escritor, ocupante da cadeira 26 da Academia Brasileira de Letras. Doutor em Direito pela UERJ e mestre pela Universidade de Cambridge, na Inglaterra, é professor de Direito Civil da PUC-Rio.
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Há uma personagem que, diferentemente das demais, Homero fez questão de não descrever: Helena, a personificação da beleza. Ela recebe apenas uma alusão: a de possuir braços alvos.
Como Helena seria a mais bela das mulheres, Homero, com inteligência, deixou de propósito de definir seus atributos físicos. Assim, permitiu que os leitores pudessem criar, nas suas mentes, sempre mais generosas, a beleza absoluta. Se Homero tivesse dito que Helena tinhas olhos castanhos, iria desapontar aqueles que preferem olhos negros. Se dissesse que era loura, entristeceria os que apreciam mais as morenas; se dissesse que era ruiva, entristeceria os que apreciam mais as pretas. Como as pessoas – ainda bem – têm seu gosto particular, melhor que cada um idealize e construa seu próprio ideal de formosura.
Homero percebeu que a imaginação sempre vence. Também por conta disso, Helena se transformou no arquetípico da mulher fatal – e sua ida para Tróia foi, como se sabe, a causa do mais conhecido confronto da antiguidade.
No recém-lançado filme Odisseia, dirigido pelo aclamado Christopher Nolan, e apinhado de atores famosos, escolheu-se a linda atriz Lupita Nyong’o para desempenhar o papel de Helena. Uma mulher negra, que, apesar de belíssima, não apenas se afasta da única referência ao texto homérico acerca do aspecto físico daquela personagem (pois não possui “braços alvos”), mas acaba por restringir o ideal de beleza.
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José Roberto de Castro Neves é advogado e escritor, ocupante da cadeira 26 da Academia Brasileira de Letras. Doutor em Direito pela UERJ e mestre pela Universidade de Cambridge, na Inglaterra, é professor de Direito Civil da PUC-Rio.
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