Da impressão 3D à prótese biônica
A experiência anterior de Vargas com impressão 3D foi a base para a criação da LimbX. Em 2020, ele fundou a Firefly Manufatura Aditiva, empresa especializada na fabricação de protótipos e impressão 3D para indústrias.
Formado em Engenharia de Controle e Automação, Vargas diz que o conhecimento adquirido na empresa foi fundamental para desenvolver a tecnologia da LimbX. A startup foi criada em maio de 2023, em Santa Cruz do Sul (RS), com investimento inicial de cerca de R$ 5.000.
O outro sócio da empresa é o médico ortopedista José Carlos Salomão Jr., que tem experiência no atendimento de pacientes com amputações e outras condições ortopédicas.
A ideia surgiu depois que Vargas assistiu a um vídeo de uma pessoa amputada usando uma prótese sem funcionalidade. O relato sobre as dificuldades para realizar atividades simples do dia a dia chamou a atenção do empreendedor.
Inicialmente, a ideia era apenas desenvolver uma prótese como um projeto social. Porém, durante o processo, percebi o quanto ainda é difícil para uma pessoa amputada ter acesso a uma prótese de alta tecnologia no Brasil por um valor acessível. Foi então que decidi transformar o projeto em um negócio.
Natã Vargas
Como funciona a prótese biônica
O principal produto da LimbX é a LimbX PRO. É uma prótese biônica transradial, destinada a pessoas com amputação abaixo do cotovelo. Segundo Vargas, o equipamento funciona por meio da leitura dos sinais elétricos gerados durante a contração muscular do paciente.
Esses sinais são interpretados pela eletrônica da prótese e transformados em diferentes movimentos, como abrir e fechar a mão, fazer o movimento de pinça, apontar e executar outros gestos. O material utilizado é uma fibra altamente resistente chamada Nylon PA12.
A prótese biônica é multiarticulada, possui diferentes dedos ou articulações controláveis e permite realizar vários gestos a partir da intenção do usuário. Com isso, a prótese biônica consegue devolver um nível ainda maior de autonomia e precisão para as atividades do dia a dia.
Natã Vargas
A solução também é modular. O usuário pode desacoplar a mão biônica e substituí-la por acessórios específicos para diferentes atividades.
“A gente também tem acessórios para a vida diária. Por exemplo, eu consigo desacoplar a mão biônica da prótese e usar algum acessório específico para alguma atividade, como pegar um peso de academia. Ela é modular”, afirma.
A LimbX também desenvolveu uma prótese para pessoas com amputações parciais das mãos. A LimbX Hand é uma prótese mecânica, sem componentes eletrônicos, destinada a pessoas que perderam um ou mais dedos.
A empresa desenvolveu ainda um software para acompanhar os pacientes. A plataforma permite monitorar a evolução do usuário e utilizar recursos de gamificação para treinar os sinais musculares e o controle da prótese.
A fabricação segue um modelo híbrido. Parte das peças e dos protótipos é produzida internamente pela LimbX, enquanto processos especializados são realizados por fornecedores parceiros. Segundo Vargas, mesmo nesses casos, o projeto, as especificações técnicas, a validação e a montagem final permanecem sob responsabilidade da empresa.
Próteses ainda não estão à venda
A tecnologia ainda passa por testes e validações. Em três anos, mais de 30 pacientes participaram de processos de teste, adaptação, validação e uso acompanhado das próteses.
“Ainda estamos em uma fase controlada de validação técnica, clínica e regulatória. Alguns pacientes receberam protótipos ou dispositivos para utilização acompanhada, enquanto outros participaram de etapas específicas de testes”, afirma Vargas.
O público da LimbX são pessoas com amputações ou má-formações nos braços ou mãos. Segundo Vargas, os pacientes chegam à empresa por meio de clínicas ortopédicas.
“Neste momento, temos bastante contato direto com pacientes, mas a estratégia de crescimento envolve principalmente parcerias com instituições que já realizam atendimento, reabilitação e acompanhamento dessas pessoas”, afirma.
A previsão é começar a comercialização em 2027, depois da conclusão das etapas regulatórias. O preço estimado atualmente é de cerca de R$ 25 mil, mas pode variar de acordo com a configuração e as necessidades de cada paciente.
Segundo Vargas, o valor representa cerca de 90% menos do que o preço de próteses biônicas importadas, que costumam ultrapassar R$ 250 mil. A empresa não informa dados de faturamento ou lucro.
Nosso objetivo não é apenas desenvolver uma prótese tecnologicamente avançada, mas criar um modelo que permita que essa tecnologia alcance pessoas que normalmente não teriam condições de acessar uma solução desse nível.
Natã Vargas
De projeto social a negócio
A transformação do projeto em empresa exigiu a busca por investimentos e parceiros. Desde a criação, a LimbX participou de programas de aceleração, inovação e competições de empreendedorismo, que ajudaram a estruturar o modelo de negócio, validar a tecnologia e aproximar a empresa de investidores, hospitais, clínicas e parceiros estratégicos.
O capital investido na empresa chegou a cerca de R$ 300 mil. O valor inclui os recursos obtidos desde a criação da startup. O investimento inicial, feito por Vargas, foi de aproximadamente R$ 5.000.
A empresa também ganhou projeção em uma competição internacional. Em 2024, Vargas participou do “Start It Up”, do GSEA (Global Student Entrepreneur Awards), que reuniu 20 jovens empreendedores de diferentes países na Cidade do Cabo, na África do Sul.
Ele foi selecionado para representar a América Latina e o Caribe e terminou a competição em terceiro lugar.
Desafio é tornar o negócio sustentável
Para Paulo Cereda, gerente regional do Sebrae-SP, Vargas identificou uma oportunidade de negócio ao buscar uma solução para um problema enfrentado por pessoas amputadas. Segundo ele, o diferencial está na combinação entre conhecimento tecnológico, preço mais acessível e propósito social.
“São pessoas que aguardam a evolução da tecnologia com ansiedade para recuperar movimentos. Mas Vargas não criou uma empresa apenas com a visão mercadológica. Seu olhar humano quis resolver o problema e impactar a vida de outras pessoas. O propósito dele é maior do que só ficar rico”, afirma.
O propósito social, diz Cereda, pode ser um dos diferenciais da empresa. “Ele tem o domínio da tecnologia e ofereceu uma solução mais barata e acessível. Para além de ter criado uma empresa, Vargas tem um propósito nobre para uma causa. Esse é o ‘pulo do gato’ do negócio dele.”
O próximo desafio, porém, é transformar a viabilidade tecnológica em sustentabilidade financeira. Segundo Cereda, a LimbX precisa controlar os custos de produção e estruturar a operação para a fase de comercialização, prevista para 2027.
“Vargas já provou que a LimbX é tecnologicamente viável. Agora, com a comercialização das próteses a partir de 2027, precisa se tornar viável economicamente também, para que o negócio se sustente do ponto de vista financeiro”, diz.























