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Dr. Fabiano M. Serfaty: Ajudar a melhorar a vida dos pacientes é um trabalho difícil, que nós, médicos, buscamos realizar diariamente. A tecnologia está cada vez mais presente a nosso favor, auxiliando nesse propósito, e a ONG Virtualidade ( https://virtualidade.com.br/) tem sido pioneira nessa área por meio do uso terapêutico da realidade virtual para pacientes internados em hospitais públicos do Rio de Janeiro. A iniciativa já impactou milhares de pacientes em dez hospitais do SUS, utilizando apenas cinco óculos de realidade virtual e uma rede de 70 voluntários. Para falar sobre isso, convidei o Dr. Lucas Campos, médico neurologista e um dos fundadores da ONG Virtualidade. Como vocês tiveram a ideia de criar a ONG Virtualidade. Quando e como tudo começou?
Dr. Lucas Campos: A ideia surgiu em 2021, quando eu e meu sócio João Guilherme Hazin ainda éramos estudantes de medicina na UNIRIO. Percebemos o impacto devastador que o isolamento social durante uma internação pode causar. Uma alarmante quantidade de pacientes do SUS sofre sintomas de ansiedade relacionados à internação hospitalar. Em idosos, isso é potencializado, devido à quebra repentina da rotina social diária, elemento protetor importante ao bem-estar. Sentimos a necessidade de fazer mais pelos pacientes. Na época, pouco podíamos contribuir com a parte técnica, pois ainda não havíamos concluído nossa formação médica. Então, decidimos investir no aspecto inato a todos nós: o humano. A ideia era simples, transformar a tecnologia virtual em cuidado real. Queríamos usar a tecnologia não para substituir ou afastar, mas aproximar e acolher as pessoas durante esse momento delicado que é a internação hospitalar. Conversamos com nosso professor, o geriatra Max Fakoury, que abraçou nossa causa e construiu conosco o primeiro projeto de extensão da ONG, voltado especialmente para a terceira idade. Logo percebemos demanda e benefícios para outros perfis de pacientes (pré-operatório, cuidados paliativos, internações prolongadas, entre outros) e expandimos nossa atuação para abraçá-los, mas sempre mantendo a ênfase ao idoso como nossa prioridade. Hoje temos 70 voluntários, mais de 1.500 pacientes atendidos em 10 unidades do SUS no Rio de Janeiro, e planos para fazer muito mais.
Dr. Fabiano M. Serfaty: Como funciona tudo isso na prática?
Dr. Lucas Campos: Nossas atividades têm duração de cerca de 1 hora por paciente, iniciando sempre com uma conversa descontraída para entender o que é importante para aquela pessoa que está internada: interesses, hobbies, seu time de futebol, uma cidade que sempre quis conhecer. Depois, nossa equipe explica como funciona a tecnologia da realidade virtual e convida o paciente a assistir um vídeo nos óculos de realidade virtual, relacionado a esse seu interesse. O paciente interage com os vídeos em 360 graus, movimentando o pescoço para explorar o ambiente, que é espelhado em uma tela de tablet ou notebook para que seus acompanhantes, a equipe da enfermaria e nossos voluntários possam acompanhar a experiência. Esse é um momento mágico, no qual o paciente, que muitas vezes estava quieto e embotado no leito, assume o papel de protagonista, guiando os ali presentes por um vídeo maravilhoso e, assim, narrando um pouco da sua própria história. Após o fim dos vídeos, que duram cerca de 15 minutos, nossos voluntários abrem um espaço de conversa sobre os interesses que levaram à escolha daquele conteúdo e, posteriormente, aplicam questionários aos pacientes que desejem participar de nossas pesquisas científicas. Tudo isso é regido por um rígido protocolo de higienização dos equipamentos e seleção dos pacientes. Nossos voluntários passam por 6 meses de treinamento conosco para aperfeiçoamento da técnica, até estarem aptos a realizar as atividades respeitando normas de boas práticas e segurança hospitalar.
Dr. Fabiano M. Serfaty: Vocês trouxeram do entretenimento uma tecnologia inovadora para hospitais públicos. Como você acha que o entretenimento ajudou vocês e os pacientes na prática clínica a melhorar a vida dos pacientes?
Dr. Lucas Campos: Os pacientes internados têm histórias para contar. São pessoas que querem ser ouvidas e apreciam quando os outros que os cercam demonstram genuíno interesse em compartilhar experiências como essas. É um momento no qual o foco não recai sobre a doença e sim sobre o indivíduo: o que ele gosta de fazer, suas paixões, seus sonhos. É muito mais do que apenas um vídeo divertido de 15 minutos, é o resultado dos interesses de uma vida inteira. E o impacto disso também é duradouro. Nossos estudos já demonstram que as atividades criam um vínculo entre o paciente e a equipe assistencial da enfermaria, facilitando a aceitação de dieta, adesão à terapia medicamentosa, percepção de cuidado e confiança no tratamento. E para o voluntário da ONG, estudante universitário: é uma oportunidade de enxergar o paciente de outra maneira. Temos muitos voluntários acadêmicos de medicina ainda no início do curso. Para muitos é um primeiro contato, onde se começa a moldar a interação médico-paciente centrada na pessoa e não na doença. Nesse momento, ele não está preocupado em treinar manobras semiológicas no abdome do paciente. Sua atenção está totalmente voltada para aquele indivíduo e sua história.
Dr. Fabiano M. Serfaty: Os estudos demonstram que o isolamento social aumenta o risco de mortalidade. De que maneira a ONG Virtualidade ajuda a quebrar esse ciclo de solidão?
Dr. Lucas Campos: O protagonista é o paciente, mas as ações são sempre conjuntas. O vídeo espelhado no tablet convida os demais presentes a se envolverem na experiência. Frequentemente nos deparamos com pacientes que até estão acompanhados, mas solitários, sem interagir, com familiares mexendo no telefone. A atividade de realidade virtual é um momento divertido e único que instiga o interesse dos acompanhantes, equipe de saúde e até de outros pacientes, nas histórias que aquele indivíduo tem a contar e no motivo pelo qual escolheu aquele vídeo. Chegamos em um leito com familiares presentes mas desconectados, e saímos deixando para trás um neto maravilhado ouvindo do seu avô as histórias de quando viajou sozinho para Nova Iorque, ou pacientes vizinhos de leito relembrando juntos as melhores praias que já visitaram.
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Dr. Fabiano M. Serfaty: Hoje é possível que um paciente em casa ou em outros hospitais que ainda não são contemplados pela ONG Virtualidade possam se usar e se beneficiar da solução criada por vocês?
Dr. Lucas Campos: Nossa atuação é restrita a unidades do SUS. Por questões logísticas, hoje atuamos nas cidades do Rio de Janeiro e Niterói, em uma lista de hospitais encontrada no nosso site. Mas temos planos de expandir para outros estados e estamos abertos a novas parcerias na nossa região. Além disso, a tecnologia já existe, nós só inventamos e aprimoramos o método. Qualquer nova intervenção hospitalar demanda uma responsabilidade muito grande, para evitar contaminação ou efeitos adversos. Nossos voluntários passam por um rígido processo de capacitação em conformidade com protocolos de segurança hospitalar que ajudamos a desenvolver. Somos a maior ONG do Brasil na nossa área específica de atuação, somando uma casuística de mais de 1.500 pacientes. Por isso, os pesquisadores do Instituto Virtualidade de Pesquisa trabalham para traduzir nossos anos de experiência em resultados e guidelines que orientem o uso correto, seguro e efetivo dessa tecnologia. Isso envolve diversos aspectos como triagem dos pacientes, requisitos técnicos dos aparelhos, forma de abordagem, curadoria dos vídeos, higienização dos óculos, entre outros. Através da ciência, queremos ajudar a incorporar a Realidade Virtual no SUS, em nível nacional, para que muitos outros pacientes possam se beneficiar dessas atividades.
Dr. Fabiano M. Serfaty: Como você enxerga a evolução desta tecnologia?
Dr. Lucas Campos: Quando iniciamos nossas atividades, antes do Facebook virar Meta, a realidade virtual terapêutica ainda era um tópico incipiente na literatura científica. A maioria dos estudos era voltada para distração durante procedimentos ou para o tratamento pontual de condições específicas como fobias, depressão, vício ou compulsão alimentar. Com o “boom” do metaverso, o tópico ganhou muita tração e a quantidade de artigos disparou, assim como o olhar sobre suas aplicabilidades. O caminho que nós trilhamos, em conjunto com um número crescente de pesquisadores da comunidade científica, é de explorar o uso da realidade virtual em um âmbito mais global: o seu potencial de melhorar o bem-estar do paciente através da ressignificação da experiência de internação como um todo. Não enxergamos a realidade virtual como mais uma opção em um arsenal terapêutico para tratar uma doença “X” ou “Y”, e sim como uma ponte para nos conectarmos com o paciente, trazendo entretenimento, atenção e acolhimento. Assim, aproveito para salientar que a tecnologia, embora entusiasmante, não é o centro das nossas atividades. É apenas uma ferramenta adjuvante, uma forma de “quebrar o gelo” e preparar o cenário para a verdadeira estrela: o contato humano. Frequentemente, 10 minutos na realidade virtual levam a horas de conversa sobre memórias e sonhos. Essa é, na minha opinião, a beleza do que fazemos.
Dr. Fabiano M. Serfaty: Quais os próximos passos de vocês?
Dr. Lucas Campos: Nós queremos abrir caminho, de forma científica, social e assistencial, para a incorporação da realidade virtual na saúde pública. Em 2025, a ONG Virtualidade se associou ao Conselho Municipal de Defesa dos Direitos da Pessoa Idosa do Rio de Janeiro (COMDEPI-Rio), onde contribuímos para a discussão e deliberação sobre políticas públicas direcionadas ao idoso. Queremos ajudar a fortalecer as pautas de saúde, bem-estar e inclusão digital dessas pessoas. Além disso, estamos expandindo o Instituto Virtualidade de Pesquisa e recrutando novos professores e pesquisadores interessados em estudar as aplicabilidades e efeitos terapêuticos da realidade virtual. No aspecto assistencial, estamos ampliando nosso leque de unidades de atuação e iniciamos esse ano uma nova linha de cuidado, com os acompanhantes de pacientes internados, que por vezes passam semanas dormindo em uma cadeira de hospital, apoiando seus entes queridos. Para viabilizar tudo isso, estamos estabelecendo parcerias institucionais através de doações incentivadas, com empresas que acreditem na nossa missão e compartilhem de nossa vontade de revolucionar o cuidado intra-hospitalar no SUS.
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Dr. Fabiano M. Serfaty: Ajudar a melhorar a vida dos pacientes é um trabalho difícil, que nós, médicos, buscamos realizar diariamente. A tecnologia está cada vez mais presente a nosso favor, auxiliando nesse propósito, e a ONG Virtualidade ( https://virtualidade.com.br/) tem sido pioneira nessa área por meio do uso terapêutico da realidade virtual para pacientes internados em hospitais públicos do Rio de Janeiro. A iniciativa já impactou milhares de pacientes em dez hospitais do SUS, utilizando apenas cinco óculos de realidade virtual e uma rede de 70 voluntários. Para falar sobre isso, convidei o Dr. Lucas Campos, médico neurologista e um dos fundadores da ONG Virtualidade. Como vocês tiveram a ideia de criar a ONG Virtualidade. Quando e como tudo começou?
Dr. Lucas Campos: A ideia surgiu em 2021, quando eu e meu sócio João Guilherme Hazin ainda éramos estudantes de medicina na UNIRIO. Percebemos o impacto devastador que o isolamento social durante uma internação pode causar. Uma alarmante quantidade de pacientes do SUS sofre sintomas de ansiedade relacionados à internação hospitalar. Em idosos, isso é potencializado, devido à quebra repentina da rotina social diária, elemento protetor importante ao bem-estar. Sentimos a necessidade de fazer mais pelos pacientes. Na época, pouco podíamos contribuir com a parte técnica, pois ainda não havíamos concluído nossa formação médica. Então, decidimos investir no aspecto inato a todos nós: o humano. A ideia era simples, transformar a tecnologia virtual em cuidado real. Queríamos usar a tecnologia não para substituir ou afastar, mas aproximar e acolher as pessoas durante esse momento delicado que é a internação hospitalar. Conversamos com nosso professor, o geriatra Max Fakoury, que abraçou nossa causa e construiu conosco o primeiro projeto de extensão da ONG, voltado especialmente para a terceira idade. Logo percebemos demanda e benefícios para outros perfis de pacientes (pré-operatório, cuidados paliativos, internações prolongadas, entre outros) e expandimos nossa atuação para abraçá-los, mas sempre mantendo a ênfase ao idoso como nossa prioridade. Hoje temos 70 voluntários, mais de 1.500 pacientes atendidos em 10 unidades do SUS no Rio de Janeiro, e planos para fazer muito mais.
Dr. Fabiano M. Serfaty: Como funciona tudo isso na prática?
Dr. Lucas Campos: Nossas atividades têm duração de cerca de 1 hora por paciente, iniciando sempre com uma conversa descontraída para entender o que é importante para aquela pessoa que está internada: interesses, hobbies, seu time de futebol, uma cidade que sempre quis conhecer. Depois, nossa equipe explica como funciona a tecnologia da realidade virtual e convida o paciente a assistir um vídeo nos óculos de realidade virtual, relacionado a esse seu interesse. O paciente interage com os vídeos em 360 graus, movimentando o pescoço para explorar o ambiente, que é espelhado em uma tela de tablet ou notebook para que seus acompanhantes, a equipe da enfermaria e nossos voluntários possam acompanhar a experiência. Esse é um momento mágico, no qual o paciente, que muitas vezes estava quieto e embotado no leito, assume o papel de protagonista, guiando os ali presentes por um vídeo maravilhoso e, assim, narrando um pouco da sua própria história. Após o fim dos vídeos, que duram cerca de 15 minutos, nossos voluntários abrem um espaço de conversa sobre os interesses que levaram à escolha daquele conteúdo e, posteriormente, aplicam questionários aos pacientes que desejem participar de nossas pesquisas científicas. Tudo isso é regido por um rígido protocolo de higienização dos equipamentos e seleção dos pacientes. Nossos voluntários passam por 6 meses de treinamento conosco para aperfeiçoamento da técnica, até estarem aptos a realizar as atividades respeitando normas de boas práticas e segurança hospitalar.
Dr. Fabiano M. Serfaty: Vocês trouxeram do entretenimento uma tecnologia inovadora para hospitais públicos. Como você acha que o entretenimento ajudou vocês e os pacientes na prática clínica a melhorar a vida dos pacientes?
Dr. Lucas Campos: Os pacientes internados têm histórias para contar. São pessoas que querem ser ouvidas e apreciam quando os outros que os cercam demonstram genuíno interesse em compartilhar experiências como essas. É um momento no qual o foco não recai sobre a doença e sim sobre o indivíduo: o que ele gosta de fazer, suas paixões, seus sonhos. É muito mais do que apenas um vídeo divertido de 15 minutos, é o resultado dos interesses de uma vida inteira. E o impacto disso também é duradouro. Nossos estudos já demonstram que as atividades criam um vínculo entre o paciente e a equipe assistencial da enfermaria, facilitando a aceitação de dieta, adesão à terapia medicamentosa, percepção de cuidado e confiança no tratamento. E para o voluntário da ONG, estudante universitário: é uma oportunidade de enxergar o paciente de outra maneira. Temos muitos voluntários acadêmicos de medicina ainda no início do curso. Para muitos é um primeiro contato, onde se começa a moldar a interação médico-paciente centrada na pessoa e não na doença. Nesse momento, ele não está preocupado em treinar manobras semiológicas no abdome do paciente. Sua atenção está totalmente voltada para aquele indivíduo e sua história.
Dr. Fabiano M. Serfaty: Os estudos demonstram que o isolamento social aumenta o risco de mortalidade. De que maneira a ONG Virtualidade ajuda a quebrar esse ciclo de solidão?
Dr. Lucas Campos: O protagonista é o paciente, mas as ações são sempre conjuntas. O vídeo espelhado no tablet convida os demais presentes a se envolverem na experiência. Frequentemente nos deparamos com pacientes que até estão acompanhados, mas solitários, sem interagir, com familiares mexendo no telefone. A atividade de realidade virtual é um momento divertido e único que instiga o interesse dos acompanhantes, equipe de saúde e até de outros pacientes, nas histórias que aquele indivíduo tem a contar e no motivo pelo qual escolheu aquele vídeo. Chegamos em um leito com familiares presentes mas desconectados, e saímos deixando para trás um neto maravilhado ouvindo do seu avô as histórias de quando viajou sozinho para Nova Iorque, ou pacientes vizinhos de leito relembrando juntos as melhores praias que já visitaram.
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Dr. Fabiano M. Serfaty: Hoje é possível que um paciente em casa ou em outros hospitais que ainda não são contemplados pela ONG Virtualidade possam se usar e se beneficiar da solução criada por vocês?
Dr. Lucas Campos: Nossa atuação é restrita a unidades do SUS. Por questões logísticas, hoje atuamos nas cidades do Rio de Janeiro e Niterói, em uma lista de hospitais encontrada no nosso site. Mas temos planos de expandir para outros estados e estamos abertos a novas parcerias na nossa região. Além disso, a tecnologia já existe, nós só inventamos e aprimoramos o método. Qualquer nova intervenção hospitalar demanda uma responsabilidade muito grande, para evitar contaminação ou efeitos adversos. Nossos voluntários passam por um rígido processo de capacitação em conformidade com protocolos de segurança hospitalar que ajudamos a desenvolver. Somos a maior ONG do Brasil na nossa área específica de atuação, somando uma casuística de mais de 1.500 pacientes. Por isso, os pesquisadores do Instituto Virtualidade de Pesquisa trabalham para traduzir nossos anos de experiência em resultados e guidelines que orientem o uso correto, seguro e efetivo dessa tecnologia. Isso envolve diversos aspectos como triagem dos pacientes, requisitos técnicos dos aparelhos, forma de abordagem, curadoria dos vídeos, higienização dos óculos, entre outros. Através da ciência, queremos ajudar a incorporar a Realidade Virtual no SUS, em nível nacional, para que muitos outros pacientes possam se beneficiar dessas atividades.
Dr. Fabiano M. Serfaty: Como você enxerga a evolução desta tecnologia?
Dr. Lucas Campos: Quando iniciamos nossas atividades, antes do Facebook virar Meta, a realidade virtual terapêutica ainda era um tópico incipiente na literatura científica. A maioria dos estudos era voltada para distração durante procedimentos ou para o tratamento pontual de condições específicas como fobias, depressão, vício ou compulsão alimentar. Com o “boom” do metaverso, o tópico ganhou muita tração e a quantidade de artigos disparou, assim como o olhar sobre suas aplicabilidades. O caminho que nós trilhamos, em conjunto com um número crescente de pesquisadores da comunidade científica, é de explorar o uso da realidade virtual em um âmbito mais global: o seu potencial de melhorar o bem-estar do paciente através da ressignificação da experiência de internação como um todo. Não enxergamos a realidade virtual como mais uma opção em um arsenal terapêutico para tratar uma doença “X” ou “Y”, e sim como uma ponte para nos conectarmos com o paciente, trazendo entretenimento, atenção e acolhimento. Assim, aproveito para salientar que a tecnologia, embora entusiasmante, não é o centro das nossas atividades. É apenas uma ferramenta adjuvante, uma forma de “quebrar o gelo” e preparar o cenário para a verdadeira estrela: o contato humano. Frequentemente, 10 minutos na realidade virtual levam a horas de conversa sobre memórias e sonhos. Essa é, na minha opinião, a beleza do que fazemos.
Dr. Fabiano M. Serfaty: Quais os próximos passos de vocês?
Dr. Lucas Campos: Nós queremos abrir caminho, de forma científica, social e assistencial, para a incorporação da realidade virtual na saúde pública. Em 2025, a ONG Virtualidade se associou ao Conselho Municipal de Defesa dos Direitos da Pessoa Idosa do Rio de Janeiro (COMDEPI-Rio), onde contribuímos para a discussão e deliberação sobre políticas públicas direcionadas ao idoso. Queremos ajudar a fortalecer as pautas de saúde, bem-estar e inclusão digital dessas pessoas. Além disso, estamos expandindo o Instituto Virtualidade de Pesquisa e recrutando novos professores e pesquisadores interessados em estudar as aplicabilidades e efeitos terapêuticos da realidade virtual. No aspecto assistencial, estamos ampliando nosso leque de unidades de atuação e iniciamos esse ano uma nova linha de cuidado, com os acompanhantes de pacientes internados, que por vezes passam semanas dormindo em uma cadeira de hospital, apoiando seus entes queridos. Para viabilizar tudo isso, estamos estabelecendo parcerias institucionais através de doações incentivadas, com empresas que acreditem na nossa missão e compartilhem de nossa vontade de revolucionar o cuidado intra-hospitalar no SUS.
























