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Por que o TDAH está no centro da explosão de diagnósticos em saúde mental

Redação by Redação
7 de fevereiro de 2026
in Saude
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Por que o TDAH está no centro da explosão de diagnósticos em saúde mental

EM ALTA - Sofrimento e divulgação: o assunto ganhou as redes sociais
Mudanças nos critérios médicos, maior conscientização e a influência das redes sociais ajudam a explicar por que o transtorno se tornou símbolo de uma era de diagnósticos acelerados  (//Getty Images)

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Nas últimas décadas, o avanço da neurociência e da psiquiatria transformou profundamente a forma de identificar e tratar transtornos mentais. Condições antes pouco reconhecidas — como ansiedade, depressão, transtornos de humor e o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) — deixaram de ser temas restritos aos consultórios médicos e passaram a circular com naturalidade em redes sociais, ambientes de trabalho e conversas cotidianas. Em 2019, a Organização Mundial da Saúde (OMS) aprovou a nova Classificação Internacional de Doenças (CID-11), em vigor desde 2022, consolidando a saúde mental como parte indissociável da saúde geral.

Esse avanço representou um ganho inegável. Ao mesmo tempo, trouxe um efeito colateral: a ampliação do acesso ao diagnóstico abriu espaço para avaliações apressadas e para a medicalização de sintomas que nem sempre configuram um transtorno clínico. Nesse cenário, o TDAH despontou como o principal motor da recente explosão de diagnósticos psiquiátricos.

Durante décadas associado quase exclusivamente a meninos inquietos em idade escolar, o TDAH passou a ser amplamente reconhecido também em adolescentes, mulheres e adultos. Hoje, é uma das condições neuropsiquiátricas mais pesquisadas na internet. Segundo levantamento citado pela revista Medicina S/A, com base em dados do Google Trends, as buscas pelo termo “TDAH” cresceram 576% em 2024 em comparação com cinco anos antes.

Os dados clínicos acompanham essa visibilidade. Nos Estados Unidos, a proporção de adultos que relatam ter recebido diagnóstico passou de cerca de 4,3% em 2012 para quase 14% em 2023. Na Alemanha, informações publicadas pela revista científica Ärzteblatt International indicam que, entre 2015 e 2024, a taxa de novos diagnósticos em adultos atendidos pelo sistema público subiu de 8,6 para 25,7 por 10 mil pessoas — quase o triplo em menos de uma década. No Reino Unido, o uso de medicamentos estimulantes cresce, em média, 18% ao ano desde 2019. No Brasil, estima-se que cerca de 2 milhões de pessoas convivam com o transtorno, segundo a Associação Brasileira do Déficit de Atenção (ABDA).

O salto chama atenção porque não há evidência de um aumento proporcional nos sintomas que definem o TDAH. Estudos internacionais baseados em avaliações padronizadas mostram que a prevalência “real” do transtorno permanece relativamente estável ao longo do tempo e entre diferentes países: cerca de 5,4% entre crianças e 2,6% entre adultos.

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Um dos fatores centrais por trás desse movimento está nos manuais médicos. Ao longo dos anos, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM), principal referência da psiquiatria, ampliou o alcance do diagnóstico. No DSM-IV, de 1994, os sintomas precisavam surgir antes dos sete anos e exigiam pelo menos seis critérios de desatenção e/ou hiperatividade. No DSM-5, publicado em 2013, o limite de idade subiu para 12 anos e, no caso de adultos, o número mínimo de sintomas caiu de seis para cinco.

“Quando expandimos os critérios, aumentamos um pouco a prevalência”, explica o psiquiatra Luis Augusto Rohde, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e uma das principais referências mundiais em TDAH, que participou das revisões do manual. Segundo ele, o diagnóstico em saúde mental é, por definição, dimensional — e não binário. “As condições de saúde mental não funcionam como um teste de gravidez, com resultado positivo ou negativo. O ponto de corte é sempre, em alguma medida, arbitrário.”

Também mudou o perfil dos pacientes. De acordo com a ABDA, hoje a proporção de mulheres e homens diagnosticados com TDAH é semelhante. A explicação está, em parte, no fato de que mulheres tendem a buscar avaliação médica com mais frequência na vida adulta, após anos convivendo com sintomas menos associados à hiperatividade e mais à desatenção.

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A maior conscientização sobre saúde mental e a redução do estigma levaram mais pessoas a procurar ajuda profissional, movimento intensificado após a pandemia de covid-19. As redes sociais funcionaram como combustível adicional. Vídeos curtos que listam “sinais de TDAH” — como distração, procrastinação e esquecimento — acumulam milhões de visualizações e estimulam o autodiagnóstico.

Esse excesso de conteúdo também levanta preocupações sobre o uso inadequado de medicamentos. Fármacos indicados para o tratamento do TDAH, como estimulantes, passaram a ser utilizados de forma imprópria por estudantes, concurseiros e profissionais em busca de aumento de foco e rendimento. Especialistas reconhecem que a divulgação de informações pode ajudar pessoas que conviveram por anos com sintomas sem nome a buscar avaliação médica, mas alertam para o risco de diagnósticos superficiais, especialmente em consultas rápidas ou serviços digitais.

Ainda assim, segundo Rohde, o problema central no Brasil está longe de ser o uso abusivo. “Em termos de saúde pública, o que predomina é o subdiagnóstico e o subtratamento”, afirma. “Isso não impede que, em determinados grupos de alta renda ou em ambientes competitivos, haja uso inadequado de medicação, mas essa não é a regra.”

O consenso entre especialistas é claro: o diagnóstico só faz sentido quando há prejuízo funcional evidente — acadêmico, profissional ou social — e após avaliação clínica cuidadosa. “Nem toda criança agitada tem TDAH. Nem todo adulto distraído está doente”, resume o neuropediatra Mauro Muszkat. “O medicamento não corrige abandono emocional, excesso de telas ou problemas pedagógicos.”

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