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Gestão Tarcísio inicia experimento que divide alunos por rendimento escolar

manchete by manchete
6 de fevereiro de 2026
in Educação
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gestao-tarcisio-inicia-experimento-que-divide-alunos-por-rendimento-escolar

Gestão Tarcísio inicia experimento que divide alunos por rendimento escolar

O governo Tarcísio de Freitas (Republicanos) iniciou um experimento nas escolas estaduais de São Paulo, dividindo alunos de uma mesma série em diferentes turmas de acordo com o rendimento escolar.

Chamado de Projeto Voar, o experimento será feito nos anos finais do ensino fundamental (do 6º ao 9º ano). Assim, cada uma das séries terá a divisão das turmas feitas com base nas notas dos alunos.

Foram selecionadas 147 escolas estaduais para o projeto-piloto. Nessas unidades, os alunos serão divididos entre dois tipos de turmas: “padrão” e “adaptada”. Na primeira, foram alocados os alunos com baixa ou nenhuma defasagem de aprendizado, já na segunda estão os alunos com alta e média defasagem.

Pais e alunos dessas escolas, no entanto, não foram informados de que iriam participar do experimento e têm questionado o impacto dessa divisão na autoestima e até mesmo na trajetória escolar dos estudantes.

A Secretaria de Educação, comandada pelo empresário Renato Feder, defende que a separação dos alunos por desempenho escolar tem o objetivo de “acelerar a aprendizagem” daqueles com maior dificuldade e, assim, reduzir as desigualdades educacionais nas escolas.

Apesar de a gestão Tarcísio apresentar o projeto como novidade, a política de separar turmas pelo desempenho já foi amplamente difundida no país, especialmente nas décadas de 1980 e 1990, mas acabou abandonada na maioria das redes de ensino.

Especialistas e estudos apontam que a divisão pode reduzir a autoestima dos alunos com baixo rendimento, aumentar casos de indisciplina e as desigualdades educacionais e até mesmo elevar a evasão escolar.

Em uma apresentação feita aos professores, a secretaria informou que o projeto será implementado e terá seus resultados avaliados pela Parceiros da Educação, uma organização da sociedade civil, e por um “time de educação de Harvard”.

Para medir os impactos do experimento, foram selecionadas ainda outras 95 escolas que serão usadas como “grupo de controle”. A secretaria informou que os resultados serão medidos por um ano e, caso não sejam positivos, o projeto poderá ser encerrado em 2027.

Os alunos foram separados de acordo com as notas que obtiveram em língua portuguesa e matemática no Saresp (avaliação estadual) em 2025. Assim, aqueles que tiveram desempenho considerado abaixo do básico para a série em que estão foram alocados nas turmas adaptadas.

Segundo os dados apresentados pela secretaria, das 1.437 turmas de 7º a 9º ano ofertadas nas escolas selecionadas para o projeto, 1.059 serão consideradas como adaptadas – 74% do total. Ou seja, vão ser formadas para os alunos com rendimento abaixo do básico.

Daniel Barros, subsecretário pedagógico da Seduc, disse que o conteúdo ensinado nas duas turmas será o mesmo, a diferença será o ritmo das aulas. “O ritmo da turma adaptada será mais devagar.”

“Na turma adaptada, o professor vai explicar com mais calma, pode dar passos para trás no conteúdo e voltar em habilidades que deveriam ter sido aprendidas em séries anteriores. Na turma padrão, ele pode manter o ritmo esperado para aquela série ou até avançar com mais velocidade se os alunos estiverem acompanhando”, explicou.

Segundo Barros, o projeto foi pensado a partir de pesquisas que apontam a dificuldade de ensinar em turmas muito heterogêneas. “O professor mira no aluno médio e acaba não conseguindo ensinar adequadamente nenhum. Ele afasta o aluno que está defasado e desestimula aquele que está mais à frente.”

A Folha conversou com professores de duas escolas selecionadas para o projeto. Eles dizem que só souberam da separação das turmas apenas na sexta-feira (29), dois dias antes do início do ano letivo. Na apresentação, eles receberam orientações sobre como atuar nas diferentes turmas e foram informados que não poderiam deixar os alunos saberem da divisão.

Inclusive, as escolas foram orientadas a utilizar uma “lógica aleatória” para nomear as turmas e, assim, evitar que os alunos soubessem em qual tipo estão alocados. Elas não devem, por exemplo, nomear a turma A como sendo a padrão.

“Não podemos utilizar a lógica de colocar a turma A como sendo a melhor e a B ou C como sendo as de menor proficiência, como já foi feito no passado. Nossa recomendação é que vocês variem as nomenclaturas entre os anos e séries para evitar o risco de discriminação e rotulação”, disse Mauro Romano, na apresentação aos professores. Ele é quem está à frente do projeto na Seduc.

Os professores, no entanto, relatam que os alunos perceberam a diferença entre as turmas e passaram a questionar a divisão. Em uma das escolas, a mãe de uma aluna chegou a questionar a direção sobre o motivo de sua filha ter sido alocada na turma adaptada.

Para os professores, que pediram para não ser identificados por medo de represália, a separação das turmas não seria necessária caso tivessem autonomia para conduzir as aulas. Eles lembram que a gestão Tarcísio determinou o uso de slides e plataformas nas escolas e exige que todos os professores cumpram o cronograma independentemente do ritmo de aprendizado dos alunos.

Fernando Cássio, professor da Faculdade de Educação da USP, diz que a divisão dos estudantes por proficiência revela um efeito cruel da política de padronização curricular adotada pela atual gestão.

“A secretaria optou e exigiu essa padronização curricular, o que pode levar a um currículo inatingível para muitos alunos. Ao restringir a autonomia dos professores na elaboração das aulas, na adaptação aos alunos reais e aos seus níveis de aprendizado, a padronização pode gerar frustração e sensação de fracasso”, disse.

Para ele, a divisão mantém a lógica do currículo padronizado em vez de dar mais autonomia para que os professores possam personalizar suas aulas.

“Em vez de criar um ambiente de competição e avaliação, é crucial promover a colaboração e a interação entre os alunos, reconhecendo que o convívio com colegas de diferentes níveis de aprendizado pode ser um fator positivo. A proposta de segregação, portanto, parece contraditória, pois se propõe a eliminar a estigmatização e a rotulação, ao mesmo tempo em que as reforça.”

Barros nega que o projeto possa gerar mais estigmatização aos alunos. “Os estudantes mais defasados já estão estigmatizados, eles já sofrem por não acompanhar a turma. Eles voltam a ter autoestima quando aprendem e é isso o que a gente espera com esse projeto, por isso, vamos testar.”

Questionado sobre a falta de comunicação e consentimento das famílias para o experimento, Barros disse que as escolas e a rede de ensino têm autonomia pedagógica para definir a divisão das turmas conforme avaliarem ser melhor.

“O agrupamento dos estudantes é uma prerrogativa pedagógica da escola. Inclusive, diversas escolas já fazem isso sem falar com ninguém, porque essa é uma decisão pedagógica”, disse.

O governo Tarcísio de Freitas (Republicanos) iniciou um experimento nas escolas estaduais de São Paulo, dividindo alunos de uma mesma série em diferentes turmas de acordo com o rendimento escolar.

Chamado de Projeto Voar, o experimento será feito nos anos finais do ensino fundamental (do 6º ao 9º ano). Assim, cada uma das séries terá a divisão das turmas feitas com base nas notas dos alunos.

Foram selecionadas 147 escolas estaduais para o projeto-piloto. Nessas unidades, os alunos serão divididos entre dois tipos de turmas: “padrão” e “adaptada”. Na primeira, foram alocados os alunos com baixa ou nenhuma defasagem de aprendizado, já na segunda estão os alunos com alta e média defasagem.

Pais e alunos dessas escolas, no entanto, não foram informados de que iriam participar do experimento e têm questionado o impacto dessa divisão na autoestima e até mesmo na trajetória escolar dos estudantes.

A Secretaria de Educação, comandada pelo empresário Renato Feder, defende que a separação dos alunos por desempenho escolar tem o objetivo de “acelerar a aprendizagem” daqueles com maior dificuldade e, assim, reduzir as desigualdades educacionais nas escolas.

Apesar de a gestão Tarcísio apresentar o projeto como novidade, a política de separar turmas pelo desempenho já foi amplamente difundida no país, especialmente nas décadas de 1980 e 1990, mas acabou abandonada na maioria das redes de ensino.

Especialistas e estudos apontam que a divisão pode reduzir a autoestima dos alunos com baixo rendimento, aumentar casos de indisciplina e as desigualdades educacionais e até mesmo elevar a evasão escolar.

Em uma apresentação feita aos professores, a secretaria informou que o projeto será implementado e terá seus resultados avaliados pela Parceiros da Educação, uma organização da sociedade civil, e por um “time de educação de Harvard”.

Para medir os impactos do experimento, foram selecionadas ainda outras 95 escolas que serão usadas como “grupo de controle”. A secretaria informou que os resultados serão medidos por um ano e, caso não sejam positivos, o projeto poderá ser encerrado em 2027.

Os alunos foram separados de acordo com as notas que obtiveram em língua portuguesa e matemática no Saresp (avaliação estadual) em 2025. Assim, aqueles que tiveram desempenho considerado abaixo do básico para a série em que estão foram alocados nas turmas adaptadas.

Segundo os dados apresentados pela secretaria, das 1.437 turmas de 7º a 9º ano ofertadas nas escolas selecionadas para o projeto, 1.059 serão consideradas como adaptadas – 74% do total. Ou seja, vão ser formadas para os alunos com rendimento abaixo do básico.

Daniel Barros, subsecretário pedagógico da Seduc, disse que o conteúdo ensinado nas duas turmas será o mesmo, a diferença será o ritmo das aulas. “O ritmo da turma adaptada será mais devagar.”

“Na turma adaptada, o professor vai explicar com mais calma, pode dar passos para trás no conteúdo e voltar em habilidades que deveriam ter sido aprendidas em séries anteriores. Na turma padrão, ele pode manter o ritmo esperado para aquela série ou até avançar com mais velocidade se os alunos estiverem acompanhando”, explicou.

Segundo Barros, o projeto foi pensado a partir de pesquisas que apontam a dificuldade de ensinar em turmas muito heterogêneas. “O professor mira no aluno médio e acaba não conseguindo ensinar adequadamente nenhum. Ele afasta o aluno que está defasado e desestimula aquele que está mais à frente.”

A Folha conversou com professores de duas escolas selecionadas para o projeto. Eles dizem que só souberam da separação das turmas apenas na sexta-feira (29), dois dias antes do início do ano letivo. Na apresentação, eles receberam orientações sobre como atuar nas diferentes turmas e foram informados que não poderiam deixar os alunos saberem da divisão.

Inclusive, as escolas foram orientadas a utilizar uma “lógica aleatória” para nomear as turmas e, assim, evitar que os alunos soubessem em qual tipo estão alocados. Elas não devem, por exemplo, nomear a turma A como sendo a padrão.

“Não podemos utilizar a lógica de colocar a turma A como sendo a melhor e a B ou C como sendo as de menor proficiência, como já foi feito no passado. Nossa recomendação é que vocês variem as nomenclaturas entre os anos e séries para evitar o risco de discriminação e rotulação”, disse Mauro Romano, na apresentação aos professores. Ele é quem está à frente do projeto na Seduc.

Os professores, no entanto, relatam que os alunos perceberam a diferença entre as turmas e passaram a questionar a divisão. Em uma das escolas, a mãe de uma aluna chegou a questionar a direção sobre o motivo de sua filha ter sido alocada na turma adaptada.

Para os professores, que pediram para não ser identificados por medo de represália, a separação das turmas não seria necessária caso tivessem autonomia para conduzir as aulas. Eles lembram que a gestão Tarcísio determinou o uso de slides e plataformas nas escolas e exige que todos os professores cumpram o cronograma independentemente do ritmo de aprendizado dos alunos.

Fernando Cássio, professor da Faculdade de Educação da USP, diz que a divisão dos estudantes por proficiência revela um efeito cruel da política de padronização curricular adotada pela atual gestão.

“A secretaria optou e exigiu essa padronização curricular, o que pode levar a um currículo inatingível para muitos alunos. Ao restringir a autonomia dos professores na elaboração das aulas, na adaptação aos alunos reais e aos seus níveis de aprendizado, a padronização pode gerar frustração e sensação de fracasso”, disse.

Para ele, a divisão mantém a lógica do currículo padronizado em vez de dar mais autonomia para que os professores possam personalizar suas aulas.

“Em vez de criar um ambiente de competição e avaliação, é crucial promover a colaboração e a interação entre os alunos, reconhecendo que o convívio com colegas de diferentes níveis de aprendizado pode ser um fator positivo. A proposta de segregação, portanto, parece contraditória, pois se propõe a eliminar a estigmatização e a rotulação, ao mesmo tempo em que as reforça.”

Barros nega que o projeto possa gerar mais estigmatização aos alunos. “Os estudantes mais defasados já estão estigmatizados, eles já sofrem por não acompanhar a turma. Eles voltam a ter autoestima quando aprendem e é isso o que a gente espera com esse projeto, por isso, vamos testar.”

Questionado sobre a falta de comunicação e consentimento das famílias para o experimento, Barros disse que as escolas e a rede de ensino têm autonomia pedagógica para definir a divisão das turmas conforme avaliarem ser melhor.

“O agrupamento dos estudantes é uma prerrogativa pedagógica da escola. Inclusive, diversas escolas já fazem isso sem falar com ninguém, porque essa é uma decisão pedagógica”, disse.

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