Continua após publicidade
Há cerca de um ano, tive o privilégio de me aproximar das comunidades do Rio, convivendo com pessoas de três faixas etárias distintas. Filmei o documentário “Pelos Olhos Deles” com crianças entre 6 e 10 anos, para registrar, através de seus desenhos, como enxergavam sua realidade. Dirigi o longa “É o Complexo”, a partir da websérie de mesmo nome, produzida por jovens do Complexo do Alemão (onde aconteceu a megaoperação nessa terça, 28/10), que retrata o cotidiano de um grupo de traficantes. Por fim, mantive contato com quatro egressos do sistema prisional que criaram o podcast 01 Sobreviventes, no qual entrevistam outros ex-condenados para mostrar que o mundo do crime pode destruir vidas — metafórica ou literalmente.
O que pude constatar nesse período foi a silenciosa omissão da sociedade civil quanto às condições de vida a que são submetidas as pessoas das favelas — e o círculo vicioso na formação de criminosos, derivado da desigualdade social.
Esse círculo tem um roteiro definido. Um número incontável de crianças cresce analfabeto, em lares marcados pela violência doméstica ou pela ausência de um dos pais.
Quando adolescentes — cheios de traumas, carências e hormônios — passam a conviver com traficantes que ostentam armas, joias, carros, mulheres e roupas de grife: símbolos de riqueza incomparáveis aos salários mínimos dos pais. Esta é a fase mais determinante do ciclo, quando jovens entram para a atividade ilícita e vivem momentos ilusórios de prazer e poder — de onde só saem presos ou mortos. Quando presos, são massacrados pelas condições desumanas do sistema carcerário: comida estragada, espancamentos e todo tipo de privação.
Quando soltos, rejeitados pela sociedade, não conseguem emprego e, com dívidas e filhos para sustentar, voltam à criminalidade.
Continua após a publicidade
Atualmente, a população carcerária no Brasil é de aproximadamente 909 mil pessoas.
A sociedade é essencialmente paternalista: trata o Estado como um pai que, sozinho, seria responsável por solucionar a desigualdade social. Mas vivemos numa democracia — e o Estado é composto por representantes do povo, eleitos por ele. O Estado somos nós. Deveríamos não apenas escolher nossos representantes, mas também acompanhar e cobrar o cumprimento de suas responsabilidades. E compartilhar essa responsabilidade através de ações sociais.
Mas a maioria é convenientemente acomodada. Vira o rosto. Se omite. Só sabe cobrar que seu funcionário chegue ao trabalho no horário — sem imaginar quantas horas ele levou num transporte público, ou se deixou filhos em casa carentes de alimentação, escola ou supervisão de um adulto.
Continua após a publicidade
Essa omissão tem um preço: a lei do retorno. A criança negligenciada hoje pela sociedade pode, no futuro, bater no vidro do seu carro com uma arma na mão. A operação policial mais letal da história do Rio de Janeiro pode, sim, transbordar para os bairros privilegiados.
Mas o contrário também é verdadeiro: a mesma criança, quando acolhida, educada e ouvida, pode se tornar médica, professora, artista, cientista ou líder comunitária.
Enquanto continuarmos a negligenciar a desigualdade, estaremos alimentando um ciclo que só se rompe com responsabilidade compartilhada: famílias presentes, escolas de qualidade, políticas públicas eficazes e, sobretudo, cidadãos ativos — que não lavam as mãos diante do sofrimento alheio.
Vinícius Coimbra é diretor de cinema, TV e teatro. Dirigiu o filme “A hora e a vez de Augusto Matraga”, vencedor do Festival de Cinema do Rio, e a novela “Lado a Lado”, vencedora do Emmy Internacional.
Domine o fato. Confie na fonte.
15 marcas que você confia. Uma assinatura que vale por todas
Continua após publicidade
Há cerca de um ano, tive o privilégio de me aproximar das comunidades do Rio, convivendo com pessoas de três faixas etárias distintas. Filmei o documentário “Pelos Olhos Deles” com crianças entre 6 e 10 anos, para registrar, através de seus desenhos, como enxergavam sua realidade. Dirigi o longa “É o Complexo”, a partir da websérie de mesmo nome, produzida por jovens do Complexo do Alemão (onde aconteceu a megaoperação nessa terça, 28/10), que retrata o cotidiano de um grupo de traficantes. Por fim, mantive contato com quatro egressos do sistema prisional que criaram o podcast 01 Sobreviventes, no qual entrevistam outros ex-condenados para mostrar que o mundo do crime pode destruir vidas — metafórica ou literalmente.
O que pude constatar nesse período foi a silenciosa omissão da sociedade civil quanto às condições de vida a que são submetidas as pessoas das favelas — e o círculo vicioso na formação de criminosos, derivado da desigualdade social.
Esse círculo tem um roteiro definido. Um número incontável de crianças cresce analfabeto, em lares marcados pela violência doméstica ou pela ausência de um dos pais.
Quando adolescentes — cheios de traumas, carências e hormônios — passam a conviver com traficantes que ostentam armas, joias, carros, mulheres e roupas de grife: símbolos de riqueza incomparáveis aos salários mínimos dos pais. Esta é a fase mais determinante do ciclo, quando jovens entram para a atividade ilícita e vivem momentos ilusórios de prazer e poder — de onde só saem presos ou mortos. Quando presos, são massacrados pelas condições desumanas do sistema carcerário: comida estragada, espancamentos e todo tipo de privação.
Quando soltos, rejeitados pela sociedade, não conseguem emprego e, com dívidas e filhos para sustentar, voltam à criminalidade.
Continua após a publicidade
Atualmente, a população carcerária no Brasil é de aproximadamente 909 mil pessoas.
A sociedade é essencialmente paternalista: trata o Estado como um pai que, sozinho, seria responsável por solucionar a desigualdade social. Mas vivemos numa democracia — e o Estado é composto por representantes do povo, eleitos por ele. O Estado somos nós. Deveríamos não apenas escolher nossos representantes, mas também acompanhar e cobrar o cumprimento de suas responsabilidades. E compartilhar essa responsabilidade através de ações sociais.
Mas a maioria é convenientemente acomodada. Vira o rosto. Se omite. Só sabe cobrar que seu funcionário chegue ao trabalho no horário — sem imaginar quantas horas ele levou num transporte público, ou se deixou filhos em casa carentes de alimentação, escola ou supervisão de um adulto.
Continua após a publicidade
Essa omissão tem um preço: a lei do retorno. A criança negligenciada hoje pela sociedade pode, no futuro, bater no vidro do seu carro com uma arma na mão. A operação policial mais letal da história do Rio de Janeiro pode, sim, transbordar para os bairros privilegiados.
Mas o contrário também é verdadeiro: a mesma criança, quando acolhida, educada e ouvida, pode se tornar médica, professora, artista, cientista ou líder comunitária.
Enquanto continuarmos a negligenciar a desigualdade, estaremos alimentando um ciclo que só se rompe com responsabilidade compartilhada: famílias presentes, escolas de qualidade, políticas públicas eficazes e, sobretudo, cidadãos ativos — que não lavam as mãos diante do sofrimento alheio.
Vinícius Coimbra é diretor de cinema, TV e teatro. Dirigiu o filme “A hora e a vez de Augusto Matraga”, vencedor do Festival de Cinema do Rio, e a novela “Lado a Lado”, vencedora do Emmy Internacional.
Domine o fato. Confie na fonte.
15 marcas que você confia. Uma assinatura que vale por todas
























