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Ultraprocessados podem reduzir produção de testosterona e eficiência de espermatozoides, diz pesquisa

Redação by Redação
6 de setembro de 2025
in Saude
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ultraprocessados-podem-reduzir-producao-de-testosterona-e-eficiencia-de-espermatozoides,-diz-pesquisa

Ultraprocessados podem reduzir produção de testosterona e eficiência de espermatozoides, diz pesquisa

Ilustração óvulo e espermatozóides
Fertilidade: contagem de espermatozoides apresentou queda de aproximadamente 60% em todo o mundo desde a década de 70 (iStockphoto/Getty Images)

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Não é de hoje que os ultraprocessados são alvo de pesquisas — e quase sempre saem perdendo. Desta vez, cientistas da Universidade de Copenhague e da Université Côte d’Azur resolveram testar uma pergunta simples, mas provocadora: será que esses alimentos fazem tão mal mesmo quando têm as mesmíssimas calorias e nutrientes de uma dieta baseada em comida fresca? A resposta não é nada animadora, especialmente para quem ainda enxerga rótulos de calorias como ‘bússola’ nutricional. Mesmo com cardápios equilibrados no papel, os ultraprocessados levaram não só a um ganho maior de gordura corporal, como também – pasmem – mexeram com a saúde reprodutiva masculina.

A pesquisa incluiu 43 homens, de 20 a 35 anos, todos saudáveis e com exames de sangue e sêmen dentro dos parâmetros recomendados. Cada um seguiu, por três semanas, uma dieta composta inteiramente de ultraprocessados e, após uma pausa de 12 semanas, repetiu a experiência, mas com cardápios frescos — arroz, feijão, frutas, verduras, carnes e ovos. No papel, as duas dietas eram muito semelhantes: mesma quantidade de calorias, proteínas, carboidratos e gorduras. A diferença estava no grau de processamento. Enquanto 77% das calorias do cardápio industrializado vinham de produtos prontos, na dieta não processada dois terços eram de comida fresca. Ou seja, os números batiam, mas a qualidade mudava.

Durante todo o processo, os pesquisadores monitoravam não apenas o peso e a composição corporal, mas também pressão arterial, perfil de lipídios, marcadores inflamatórios, hormônios sexuais e parâmetros do sêmen. As amostras eram colhidas antes e depois de cada fase, e analisadas por avaliadores que não sabiam a qual dieta cada voluntário havia sido exposto – um cuidado para evitar vieses.

Saúde reprodutiva e metabólica

Ao final do experimento, os resultados foram os seguintes: com ultraprocessados, os participantes ganharam em média 1,3 a 1,4 kg em três semanas. E quase todo esse peso veio da gordura corporal. A massa muscular, por sua vez, praticamente não se alterou. Nos exames de sangue, surgiram ainda mudanças em colesterol, pressão arterial (ambos perigosos para a saúde do coração) e alguns marcadores inflamatórios. Mas o achado mais intrigante foi outro: mudanças nos hormônios sexuais e na qualidade do sêmen, como a queda na testosterona e no hormônio folículo-estimulante (FSH) — ambos essenciais para a produção de espermatozoides —, além de uma redução na motilidade espermática, isto é, na capacidade de os espermatozoides se moverem com eficiência até o óvulo.

Segundo os autores, esse efeito não pode ser explicado apenas pelo excesso de calorias ou pela qualidade nutricional dos alimentos. Entra em cena outro fator: a exposição a contaminantes químicos típicos dos ultraprocessados. O estudo registrou aumento de um tipo de ftalato, substância que migra de plásticos usados em embalagens e no processamento industrial dos alimentos. Conhecidos como desreguladores endócrinos, os ftalatos têm potencial de interferir em hormônios-chave da produção espermática, como o FSH e a testosterona.

Continua após a publicidade

“Nossos resultados comprovam que alimentos ultraprocessados ​​prejudicam nossa saúde reprodutiva e metabólica, mesmo que não sejam consumidos em excesso”, disse Jessica Preston, investigadora da Novo Nordisk Foundation Centre for Basic Metabolic Research e uma das autoras do estudo. “Isso indica que é a natureza processada desses alimentos que os torna prejudiciais.”

Ponto de partida

O consumo de alimentos ultraprocessados vem crescendo de forma acelerada. Em países como Reino Unido, Austrália, Canadá e Estados Unidos, esses produtos já representam mais da metade das calorias ingeridas diariamente pela população.

No Brasil, o impacto também é expressivo. Segundo um estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), os gastos associados às consequências do consumo de ultraprocessados somam pelo menos R$ 10,4 bilhões. Esse valor inclui despesas diretas com tratamentos no Sistema Único de Saúde (SUS), além de custos indiretos, como aposentadorias precoces e afastamentos médicos. Apenas em 2019, estima-se que cerca de 57 mil mortes prematuras tenham sido causadas por esse tipo de alimentação – o equivalente a seis mortes por hora, ou 156 por dia.

Continua após a publicidade

Paralelamente a esse cenário, os pesquisadores da Universidade de Copenhague chamam atenção para uma tendência: a qualidade do sêmen masculino tem caído ao longo das últimas décadas. Desde a década de 1970, a contagem de espermatozoides apresentou uma queda de aproximadamente 60% em todo o mundo. As causas exatas dessa redução ainda não estão totalmente esclarecidas, mas foi justamente diante dessa lacuna que surgiu a hipótese: será que há uma relação entre o consumo de ultraprocessados e a saúde reprodutiva masculina?

Como em toda pesquisa científica, o estudo possui limitações. Uma delas é a curta duração, que pode ter captado apenas efeitos agudos das mudanças alimentares – alterações que, com o tempo, talvez se estabilizassem. Um exemplo citado pelos autores é o aumento de marcadores inflamatórios, que pode ter sido apenas uma resposta inicial de adaptação do organismo ao ‘boom’ dos ultraprocessados.

Outro ponto importante é o contexto do experimento: diferentemente de estudos conduzidos em ambientes controlados, como hospitais, os participantes receberam as refeições prontas, mas as consumiram em casa. Isso significa que os resultados dependem da adesão ao protocolo e do autorrelato dos voluntários. Ainda que questionários diários tenham sido utilizados, sempre há margem para erros no registro do que foi, de fato, consumido.

Apesar dessas limitações, os pesquisadores enxergam o estudo como um ponto de partida importante. Ele abre espaço para novas investigações que busquem entender, com mais profundidade, como a saúde reprodutiva pode estar sendo impactada por uma alimentação cada vez mais dominada pelos produtos industrializados.

  • Alimentação
  • Dieta e Nutrição
  • Hormônio
  • Testosterona

Ilustração óvulo e espermatozóides
Fertilidade: contagem de espermatozoides apresentou queda de aproximadamente 60% em todo o mundo desde a década de 70 (iStockphoto/Getty Images)

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A pesquisa incluiu 43 homens, de 20 a 35 anos, todos saudáveis e com exames de sangue e sêmen dentro dos parâmetros recomendados. Cada um seguiu, por três semanas, uma dieta composta inteiramente de ultraprocessados e, após uma pausa de 12 semanas, repetiu a experiência, mas com cardápios frescos — arroz, feijão, frutas, verduras, carnes e ovos. No papel, as duas dietas eram muito semelhantes: mesma quantidade de calorias, proteínas, carboidratos e gorduras. A diferença estava no grau de processamento. Enquanto 77% das calorias do cardápio industrializado vinham de produtos prontos, na dieta não processada dois terços eram de comida fresca. Ou seja, os números batiam, mas a qualidade mudava.

Durante todo o processo, os pesquisadores monitoravam não apenas o peso e a composição corporal, mas também pressão arterial, perfil de lipídios, marcadores inflamatórios, hormônios sexuais e parâmetros do sêmen. As amostras eram colhidas antes e depois de cada fase, e analisadas por avaliadores que não sabiam a qual dieta cada voluntário havia sido exposto – um cuidado para evitar vieses.

Saúde reprodutiva e metabólica

Ao final do experimento, os resultados foram os seguintes: com ultraprocessados, os participantes ganharam em média 1,3 a 1,4 kg em três semanas. E quase todo esse peso veio da gordura corporal. A massa muscular, por sua vez, praticamente não se alterou. Nos exames de sangue, surgiram ainda mudanças em colesterol, pressão arterial (ambos perigosos para a saúde do coração) e alguns marcadores inflamatórios. Mas o achado mais intrigante foi outro: mudanças nos hormônios sexuais e na qualidade do sêmen, como a queda na testosterona e no hormônio folículo-estimulante (FSH) — ambos essenciais para a produção de espermatozoides —, além de uma redução na motilidade espermática, isto é, na capacidade de os espermatozoides se moverem com eficiência até o óvulo.

Segundo os autores, esse efeito não pode ser explicado apenas pelo excesso de calorias ou pela qualidade nutricional dos alimentos. Entra em cena outro fator: a exposição a contaminantes químicos típicos dos ultraprocessados. O estudo registrou aumento de um tipo de ftalato, substância que migra de plásticos usados em embalagens e no processamento industrial dos alimentos. Conhecidos como desreguladores endócrinos, os ftalatos têm potencial de interferir em hormônios-chave da produção espermática, como o FSH e a testosterona.

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Ponto de partida

O consumo de alimentos ultraprocessados vem crescendo de forma acelerada. Em países como Reino Unido, Austrália, Canadá e Estados Unidos, esses produtos já representam mais da metade das calorias ingeridas diariamente pela população.

No Brasil, o impacto também é expressivo. Segundo um estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), os gastos associados às consequências do consumo de ultraprocessados somam pelo menos R$ 10,4 bilhões. Esse valor inclui despesas diretas com tratamentos no Sistema Único de Saúde (SUS), além de custos indiretos, como aposentadorias precoces e afastamentos médicos. Apenas em 2019, estima-se que cerca de 57 mil mortes prematuras tenham sido causadas por esse tipo de alimentação – o equivalente a seis mortes por hora, ou 156 por dia.

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Paralelamente a esse cenário, os pesquisadores da Universidade de Copenhague chamam atenção para uma tendência: a qualidade do sêmen masculino tem caído ao longo das últimas décadas. Desde a década de 1970, a contagem de espermatozoides apresentou uma queda de aproximadamente 60% em todo o mundo. As causas exatas dessa redução ainda não estão totalmente esclarecidas, mas foi justamente diante dessa lacuna que surgiu a hipótese: será que há uma relação entre o consumo de ultraprocessados e a saúde reprodutiva masculina?

Como em toda pesquisa científica, o estudo possui limitações. Uma delas é a curta duração, que pode ter captado apenas efeitos agudos das mudanças alimentares – alterações que, com o tempo, talvez se estabilizassem. Um exemplo citado pelos autores é o aumento de marcadores inflamatórios, que pode ter sido apenas uma resposta inicial de adaptação do organismo ao ‘boom’ dos ultraprocessados.

Outro ponto importante é o contexto do experimento: diferentemente de estudos conduzidos em ambientes controlados, como hospitais, os participantes receberam as refeições prontas, mas as consumiram em casa. Isso significa que os resultados dependem da adesão ao protocolo e do autorrelato dos voluntários. Ainda que questionários diários tenham sido utilizados, sempre há margem para erros no registro do que foi, de fato, consumido.

Apesar dessas limitações, os pesquisadores enxergam o estudo como um ponto de partida importante. Ele abre espaço para novas investigações que busquem entender, com mais profundidade, como a saúde reprodutiva pode estar sendo impactada por uma alimentação cada vez mais dominada pelos produtos industrializados.

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