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Todo mundo ama colágeno, mas é só isso que importa? Marcus Montenegro, há mais de 40 anos empresariando artistas, comemora o crescimento da campanha “Eu quero veteranos na TV”, a favor do protagonismo de atores 60+. “Em 2015, percebi a ‘jovelização’ das novelas: antes, 80% dos papéis eram para atores 40, 50+; hoje, está invertido: 80% vão para os mais jovens”, diz.
Entre suas agenciadas em cartaz, Nathalia Timberg, 96, no espetáculo “A Mulher da Van”, em São Paulo; Irene Ravache, 81, que grava um longa; Suely Franco, 85, no ar, em “Dona de Mim”; Silvia Pfeifer, 67, que fez participação na mesma novela; e Bete Mendes, 76, que não fazia novela há oito anos (recentemente esteve em “Garota do Momento). “O público passou a confundir artistas com influenciadores; isso tirou muito espaço de quem tem estofo para o ofício. Corremos um grande risco de ter uma geração futura muito mais vazia ou então muito aquém dos que estão aí”, diz.
Confira a conversa com a coluna:
1 – Você tem mais de 300 pessoas no casting. O que mudou desde quando você começou pra cá?
A fidelização com os artistas passa por um processo de confiança e pela qualidade de prestação de serviço; por isso, a gente fideliza tantos artistas de tantos anos, e muitos saíram e voltaram. Em relação à concorrência, eu acho que sempre é saudável. Houve uma mudança de comportamento com a entrada dos influencers no mercado, que passaram a ter uma importância e tirando muito do mercado artístico. O espaço comercial é muito maior. Eles passaram a tirar o espaço do ator de um modo muito maior do que no mercado artístico. A concorrência aconteceu porque foram abertos vários escritórios para os influencers — e hoje as pessoas confundem um artista com influencer. O público se acostumou a ver essas pessoas reais e elas virarem celebridades sem ter o estofo da carreira artística para exercer a função. Esse talvez seja o nosso maior problema.
2 – A idade é cruel para a maioria das profissões, mas o artista deve sofrer mais… O que você ouve deles e por que resolveu começar a campanha e se surpreendeu com o retorno?
Em 2015, percebi uma mudança de comportamento nas estruturas das novelas com a jovelização. Ela se acentuou de maneira gradativa: os personagens mais velhos foram ficando cada vez mais periféricos. As novelas antigamente eram estruturadas 80%, um ator 40, 50+, e 20% de jovens. Essa relação foi invertendo: hoje, você tem 80%, 40+ e 40 menos e 20% de pessoas mais velhas — os grandes personagens deixaram de ser personagens importantes para atores 60+. Isso foi caindo, quantitativamente falando. Então, eu iniciei a campanha há 10 anos, porque sou um estudioso do mercado, já prevendo o que poderia vir pela frente e alertando sobre a importância de ter os atores veteranos e personagens estratégicos, porque eles fidelizaram o público através da sua carreira. Hoje vejo a campanha tomando um vulto de potencialização muito grande, porque não tenho dúvida de que a queda do Ibope acontece porque o público não vê mais os grandes artistas, sem falar da variedade de opções. A TV aberta, sem dúvida nenhuma, ainda tem o seu público cativo, fala para milhões de brasileiros, mas há uma reclamação geral nas ruas com os nossos artistas, que não têm mais acesso a eles através de grandes personagens. Então, a gente entende que os executivos estão atentos a isso, os autores, os diretores do mercado estão cientes.
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3 – Existem nomes que são eternos, mas muitos lutam por um lugar na TV, streamings, teatro etc…. Hoje, também vemos que os veteranos 80+, 90+ estão brilhando… Como eles lidam com novos formatos?
Os nacionalmente conhecidos mantêm a sua trajetória muito aquecida, artisticamente falando, porque têm o teatro como um exercício constante; muitos têm o cinema, mas as participações na televisão estão cada vez mais reduzidas. Eles também não têm dificuldade de lidar com os novos formatos, mas querem boas personagens, o que falta para essa geração. Quundo tem, é um por novela, dois por streaming… Muitos desses nomes retornaram, alguns não têm interesse, mas é como digo: o mercado está atento em resgatar os grandes nomes.
4 – Seremos um país mais velho daqui a 30 anos. Você tem previsões da cena artística?
Estamos ameaçados de ter uma geração artística bastante defasada em relação a esses grandes nomes que temos hoje em dia — é uma outra formação de carreira. Nós temos uma geração de 50 que vem fazendo muito (entre 40 e 50 anos), que vem desenvolvendo uma carreira no teatro muito sólida. Bibi Ferreira sempre mencionava muito a Cláudia Raia como um exemplo de carreira, de desenvolvimento constante, e outras grandes atrizes que eu poderia citar, como Débora Falabella, Dira Paes, Carla Marins e outras mais. Então, acho que essas atrizes vão ser as grandes responsáveis por manter essa trajetória artística. Neste momento, eu até criei o projeto Ser Artista como um legado para a juventude, baseado nas minhas experiências com os grandes atores, de conscientização de como é ser um artista 360 e como você desenvolveu uma carreira sólida no mundo da atuação, baseado na formação, cultura e conhecimento. Acho que nunca é tarde para a gente recomeçar ou para inspirar os outros, mas, do jeito que está no momento, nós temos um grande perigo, corremos um grande risco de ter uma geração muito mais vazia, ou então muito aquém dos que estão aí. Eu lamento profundamente.
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