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Eu sou um vegano em potencial. Você também. A questão é que o mundo – e a nossa cabeça em modo piloto automático – conspira para continuarmos comendo carne e usando jaquetas de couro.
Calma, ninguém vai pregar para não convertidos. Eu mesmo não sou vegano – ao menos ainda. Mas não há como não sair mexido da leitura de Animais Belos e Famintos (Vestígio), do filósofo americano Matthew Halteman.
Ele tampouco nasceu e cresceu vegano. Comeu muito hambúrguer e salsicha na vida, inclusive em festas em família. Até que, movido por leituras, vivências com seu buldogue, experiências comunitárias e gastronômicas e um novo olhar para a natureza e suas criaturas, aderiu ao credo que condena o sofrimento animal – ou, como ele prefere, promove o florescimento animal.
O professor da Universidade Calvin, nos Estados Unidos, não quer nos convencer a mudar de lado da noite para o dia sob argumentos científicos ou morais. Para ele, não se trata de vestir a camisa do outro time, mas de empreender uma jornada única, pessoal e intransferível de (auto)descoberta.
A questão não é tanto ser vegano. É “tornar-se vegano”.
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Mesclando sua formação religiosa e filosófica com seus causos e causas, Halteman nos estende um convite teórico, prático e instigante. Para tanto, se ampara tanto na “ética do jardim da infância” – que todos nós cultivamos, muitas vezes inconscientemente, e não só nos guia sobre o que é certo ou errado na vida como alimenta esse “vegano em potencial” que mora dentro de nós – como na noção de florescimento animal, a capacidade de reconhecer e respeitar as demais criaturas como seres singulares e com direito a uma existência plena.
Esqueça aqueles libelos que elencam crueldades contra vacas, galinhas, baleias e alpacas – embora, sim, elas existam. O filósofo tenta nos fisgar – perdão, escolha verbal equivocada, talvez seja melhor falar que ele tenta nos convocar – pela razão, pelo coração e até pelo estômago, com direito a muitas menções a preparos de chili sem carne.
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Existem inúmeros desafios para erigir um mundo vegano. Hoje, convenhamos, ele não é acessível a todos. Mas, se por um lado políticas de incentivo ajudariam a transformar as coisas, por outro Halteman advoga que cada cidadão pode ganhar consciência e se articular numa mudança de paradigma individual e coletiva.
Às vezes, o percurso começa pela boca, degustando uma surpreendente receita vegana. Às vezes, começa com a maior disposição de interagir e aprender com nossos “irmãos animais”. Às vezes, começa na leitura de um livro.
Ele me convenceu? Eu diria que aceitei seu convite. Com a palavra, Matthew Halteman.
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Qual é o maior obstáculo para se tornar vegano hoje? A imaginação é a peça que falta. A maioria de nós já deseja profundamente um mundo vegano, em que a saúde física, a coerência emocional, a justiça social para todos os seres sencientes, a adesão intelectual aos melhores argumentos filosóficos e à pesquisa científica e a vida em um planeta belo e habitável sejam o novo normal. O desafio é expandir nossa imaginação coletiva para que possamos ver a verdade, a beleza e a bondade do mundo que todos já desejamos — irradiando de escolhas cotidianas tão simples quanto a comida que ingerimos. Sem imaginação, a “palavra com V” desperta medo, e encaramos a adoção do veganismo como um dever moral imperioso que ameaça nos privar da saúde, do prazer, da segurança e do sentimento de pertencimento proporcionados pelos nossos hábitos tão estimados. O segredo é mudar o foco do medo para a curiosidade, saindo de uma postura defensiva, voltada ao passado e angustiada com obrigações, para uma postura curiosa e voltada ao futuro, imaginando as belas oportunidades criadas por atitudes veganas.
Mas o estilo de vida vegano não é acessível a todo mundo, concorda? De modo geral, a soberania alimentar coletiva e a autonomia alimentar individual desempenham papéis fundamentais na definição das possibilidades de as pessoas concretizarem suas aspirações veganas. Se eu vivo em um local onde as pessoas da minha comunidade praticamente não têm voz nas decisões que determinam quais alimentos estarão disponíveis, para quem, quando e a que custo e, além disso, minha renda e minhas circunstâncias pessoais me obrigam a priorizar alimentos de conveniência baratos para suprir minhas necessidades nutricionais e as da minha família, será mais difícil tornar-me vegano. No entanto, isso não significa que comunidades e cidadãos que carecem de soberania ou autonomia alimentar devam permanecer à margem, considerando-se desprovidos de agência moral. O objetivo de inspirar as pessoas a agir com coragem e alegria — independentemente do seu atual grau de autonomia — é a principal razão para o meu livro se pautar pelo ideal de “tornar-se vegano”, ou seja, avançar lenta e gradualmente por meio de práticas compatíveis com nossos dons, talentos e circunstâncias, em vez de se guiar pela identidade rígida do veganismo.
Em Animais Belos e Famintos, você argumenta que as outras espécies devem ser vistas como seres capazes de florescer, não apenas como seres que podem sofrer. Florescimento em vez de sofrimento: por que essa mudança de perspectiva é tão importante? Muitas vezes, nossos movimentos por justiça concentram-se tanto no sofrimento e em sua prevenção que perdemos de vista a razão pela qual o sofrimento é algo ruim. Somos contra o sofrimento, obviamente, mas nossa defesa de uma causa não termina aí. No fundo, somos contra o sofrimento porque somos a favor do florescimento: sonhamos com um mundo onde todos tenham a oportunidade de realizar seu potencial único, de viver em um mundo de justiça, bem-estar e alegria. Para algumas pessoas, uma exposição constante a más notícias — como vídeos de animais em condições precárias em fazendas industriais ou habitats ameaçados — pode ser motivadora e até impulsionar um ativismo. Mas, para muitas outras — especialmente aquelas que não tiveram a oportunidade de refletir sobre o lugar dos animais no panorama geral —, isso pode gerar distanciamento e hostilidade, servindo de motivo para bloquear a curiosidade e adotar uma postura de ignorância deliberada: “Não me conte! Não quero saber!”.
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Que conselho daria a quem considera tornar-se vegano? Recomendo enxergar e celebrar o veganismo como um catalisador de alegrias, satisfazendo muitos de nossos desejos mais profundos de uma só vez. Quando faço compras, adoro uma boa oferta — especialmente aquelas do tipo “leve dois, pague um”! Na minha experiência, tornar-se vegano é como “levar um e ganhar dez de brinde”. É uma prática diária única que, simultaneamente, nos impulsiona em direção a um corpo mais saudável, uma vida emocional mais coerente, uma compreensão mais rica dos melhores argumentos éticos e das evidências científicas sobre a saúde humana e uma postura moral mais consistente, além de uma experiência deslumbrante e deliciosa com a culinária à base de plantas. É ter a chance de fazer parte de uma vanguarda inspiradora que busca justiça e alegria e procura irradiar amor para o mundo a cada refeição.
Esta entrevista será publicada na íntegra na edição de agosto da revista VEJA SAÚDE
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Ele tampouco nasceu e cresceu vegano. Comeu muito hambúrguer e salsicha na vida, inclusive em festas em família. Até que, movido por leituras, vivências com seu buldogue, experiências comunitárias e gastronômicas e um novo olhar para a natureza e suas criaturas, aderiu ao credo que condena o sofrimento animal – ou, como ele prefere, promove o florescimento animal.
O professor da Universidade Calvin, nos Estados Unidos, não quer nos convencer a mudar de lado da noite para o dia sob argumentos científicos ou morais. Para ele, não se trata de vestir a camisa do outro time, mas de empreender uma jornada única, pessoal e intransferível de (auto)descoberta.
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Às vezes, o percurso começa pela boca, degustando uma surpreendente receita vegana. Às vezes, começa com a maior disposição de interagir e aprender com nossos “irmãos animais”. Às vezes, começa na leitura de um livro.
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