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Muitos cálculos já foram divulgados com estimativas para as repercussões do tarifaço que o presidente americano, Donald Trump, ameaça impor às exportações brasileiras para os Estados Unidos a partir de 1º de agosto. A maioria das estimativas sinaliza perdas econômicas para o Brasil, mas em volume e grandezas relativamente limitados.
Estudos de centros acadêmicos, consultorias financeiras e departamentos de pesquisa econômica de bancos apontam possibilidade de redução de metade das exportações para os Estados, que somaram US$ 40 bilhões, em 2024, entre 2025 e 2026. Esse volume equivale a pouco menos de 7% do total das vendas brasileiras anuais ao exterior.
Mas as perdas estimadas nas exportações podem ser minimizadas, pelo menos em parte, com o desvio das vendas para outros mercados ou mesmo o reforço de posições no mercado interno, no médio prazo.
As estimativas também apontam queda de 0,2 a 0,5 ponto percentual no PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro, em 2025 e 2026. Essa redução expressaria perdas de R$ 25 bilhões a R$ 60 bilhões a cada ano.
No cálculo do Cedeplar, centro de pós-graduação em Economia da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), que se situou no limite inferior das previsões, essa redução no PIB acarretaria o fechamento de pouco mais de 100 mil empregos, ou 0,1% da população ocupada de 100 milhões de trabalhadores.
Reação dos ativos
A reação nos mercados financeiros, embora nem sempre reflita avaliações realistas dos impactos econômicos das medidas adotadas, dá uma ideia de que a conclusão de analistas e investidores é mesmo de que as repercussões do tarifaço de Trump tendem a ser moderadas.
Depois de um salto, com alta forte do dólar, queda na Bolsa e elevação das taxas de juros, antecipando o anúncio do tarifaço, na quarta-feira (9), os ativos financeiros se acomodaram ontem, voltando a se movimentar hoje nas direções negativas, mas com perdas contidas.
Mesmo com efeitos supostamente limitados, as repercussões do tarifaço de Trump sobre produtos exportados pelo Brasil não serão desprezíveis, principalmente naqueles setores econômicos mais expostos ao mercado americano. É o caso, principalmente, dos aviões e peças da Embraer, do setor de café, suco de laranja e carnes, e de impactos mais negativos para São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.
Estimativas ainda são incertas
Tudo isso, não se pode esquecer, ainda é um pouco chute. Não se sabe, na verdade, nem mesmo se a ameaça de Trump será concretizada. O imprevisível presidente americano já construiu uma reputação de adepto de chantagear antagonistas, mas também de biruta de aeroporto, capaz de retrocessos fáceis em suas decisões, de acordo com as pressões econômicas ou políticas exercidas sobre ele.
Na sequência do anúncio de sobretaxas lineares de 50% às importações do Brasil, numa carta dirigida a Lula, mas apenas publicada em sua própria rede social, Trump voltou a surpreender com o anúncio de uma futura retomada da imposição de mais tarifas a duas dúzias de países. Depois de suspender as sobretarifas em série que aplicou no “Liberation Day”, em abril, o presidente americano anunciou
Na lista está o Canadá, que, depois de Trump anunciar o desejo de anexar o país e impor sobretarifas pesadas, tem mantido processo de negociação com os americanos. Isso mostra que o caminho da negociação não é suficiente para evitar ataques do presidente americano sob a forma de elevação de tarifas de importação.
Negociações difíceis
No caso do Brasil, essas negociações podem acontecer, mas as dificuldades para um acordo não são pequenas. Ontem, em entrevistas a emissoras de TV, Lula declarou-se disposto a conversar com Trump, e hoje Trump também afirmou que poderia falar com o presidente brasileiro. Ambos, porém, não indicaram quando o diálogo aconteceria.
Uma dificuldade evidente é a relativa irrelevância da pauta de importação de produtos e serviços do Brasil pelos Estados Unidos. Mesmo no caso do suco de laranja e do café, que têm peso maior no mercado americano, não seria tão difícil substituir os produtos “made in Brazil”. Diferente, por exemplo, da China, cujas exportações para os Estados Unidos são cruciais em diversas cadeias produtivas.
Outra dificuldade reside no fato de que, no fluxo de comércio Brasil-EUA, o Brasil é deficitário há mais de 15 anos. Numa negociação estritamente comercial, o país aceitaria reduzir suas tarifas médias de importação, mais altas do que as americanas antes dos tarifados de Trump, apenas ampliando o déficit que já carrega?
Vinculações políticas
Mais do que questões no âmbito econômico, pesa contra essas negociações a vinculação feita por Trump da imposição de sobretaxas ao Brasil em razão da “caça às bruxas” que o governo estaria promovendo contra o ex-presidente Jair Bolsonaro — o presidente americano também estaria reagindo às restrições nas operações de bigtechs americanas no Brasil e ao protagonismo de Lula nos Brics.
A vinculação da retirada ou redução de sobretaxas a uma anistia a Bolsonaro é totalmente fora de propósito. Antes de um inimaginável perdão do ex-presidente por Lula, a questão está fora do alcance do presidente brasileiro.
Trump parece não saber — ou fingir não saber —, conforme se pode depreender da carta que publicou endereçada a Lula impondo novas sobretaxas a importações de produtos brasileiros, que Lula não tem ingerência sobre o Judiciário, onde Bolsonaro está sendo processado e será julgado.
O fato, desfavorável a negociações, é que o tamanho da taxação aplicada ao Brasil — e a outros países — denota menos uma equalização de tarifas, mas verdadeiras sanções comerciais, por razões politicas e extracomerciais.
Reportagem
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