A USP (Universidade de São Paulo) se prepara para eleger seu novo comando em meio a um cenário de incertezas sobre o financiamento universitário, marcado pela transição do sistema tributário e pela pressão por mais investimentos em pesquisa, inclusão e permanência estudantil.
O pleito para a reitoria ocorre em 27 de novembro, em turno único, e definirá uma lista tríplice a ser enviada ao governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), que terá a palavra final. O escolhido ou escolhida assumirá em janeiro de 2026 e deve ficar no cargo até o fim de 2030. A assembleia que formará a lista será composta por quase 2.000 pessoas, com maioria de docentes titulares, mas também representantes de funcionários e estudantes.
Pela primeira vez, todas as chapas inscritas, três, contam com mulheres. Nenhum dos candidatos, porém, vem de fora da atual administração de Carlos Gilberto Carlotti Júnior, sinalizando continuidade.
O principal ponto em comum entre os postulantes à reitoria é a preocupação com a preservação do orçamento da USP diante da reforma tributária.
Atualmente, as universidades paulistas recebem 9,6% do ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) arrecadado pelo estado, dos quais 5% são destinados apenas à Universidade de São Paulo. Só em 2025, isso representou R$ 8,1 bilhões.
Com a reforma, o ICMS será progressivamente substituído pelo IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) a partir de 2026, não havendo garantia de que o percentual e o montante dos repasses serão mantidos às instituições de ensino. Negociações estão em andamento.
A preservação dos recursos é vista como essencial em uma instituição que, em 2023, enfrentou greve prolongada por falta de professores —800 deixaram seus cargos em dez anos sem reposição. Ao mesmo tempo, cresceu o investimento em políticas de inclusão e pertencimento, como a criação de uma pró-reitoria específica e o aumento do orçamento para permanência estudantil, que chegou a R$ 207 milhões em 2025.
Ainda assim, mais de 80% de todo o orçamento da USP ainda são destinados à folha salarial, e docentes reclamam de baixo repasse para pesquisa e inovação.
Além do financiamento, a eleição passa por discussões como inteligência artificial, internacionalização acadêmica e o papel social da universidade. Há consenso em ampliar a interação da instituição com a sociedade, mas com divergências sobre como equilibrar essa missão com a manutenção da excelência acadêmica.
O aumento de parcerias com entes privados também está em pauta.
Quais são as chapas
A chapa USP pelas Pessoas, liderada por Aluisio Cotrim Segurado, pró-reitor de graduação, e Liedi Bernucci, primeira mulher a dirigir a Escola Politécnica, aposta em políticas de permanência, assistência e saúde mental. Defende modernização curricular, criação de um programa de mentoria para novos docentes e estímulo à pesquisa e inovação, inclusive com um escritório para acompanhar o uso de inteligência artificial em atividades pedagógicas.
Segurado e Bernucci são considerados próximos ao atual reitor e favoritos entre a cúpula universitária.
A Nossa USP, encabeçada por Ana Lúcia Duarte Lanna, pró-reitora de inclusão e pertencimento, e Pedro Vitoriano de Oliveira, diretor do Instituto de Química, propõe retomar a ampla reforma do conjunto residencial da universidade, o Crusp, paralisada após a obra em apenas um dos blocos. O grupo defende parcerias privadas para ampliar vagas de moradia, com o selo “Moradia Estudantil Digna”.
Também promete valorizar as licenciaturas, reforçar conteúdos básicos para calouros e criar um escritório de desenvolvimento do ensino e da aprendizagem, além de fortalecer políticas de diversidade.
Já a USP Novo Tempo, formada por Marcílio Alves, diretor-executivo da Fundação de Apoio à Universidade de São Paulo, e Silvia Casa Nova, diretora financeira da mesma entidade, prioriza gestão descentralizada e sustentabilidade financeira. O plano inclui expansão de cursos pagos em parceria com fundações de apoio, incentivo à inovação com pequenas e médias empresas e revisão dos regimes de trabalho docente, com bônus para aulas noturnas. Entre as propostas estão a flexibilização curricular com trilhas interdisciplinares e uma política específica de apoio a mães cientistas.
Como funciona a eleição
O processo eleitoral ocorre em duas etapas. No primeiro turno, votam docentes, servidores e estudantes, em pesos diferentes: os votos de professores titulares têm maior peso, seguidos pelos de outros docentes e representantes de funcionários e alunos.
No segundo, participam apenas os membros do Colégio Eleitoral, que reúne integrantes dos principais conselhos da USP, como os de Graduação, Pós-Graduação, Pesquisa e Cultura e Extensão. Dessa votação resulta a lista tríplice encaminhada ao governador. Pela regra, o chefe do Executivo paulista não é obrigado a nomear o mais votado.
Propostas das chapas à reitoria da USP
| Eixo | USP pelas Pessoas | Nossa USP | USP Novo Tempo |
|---|---|---|---|
| Financiamento | Transparência orçamentária; busca de recursos sem comprometer caráter público | Garantir previsibilidade diante da reforma tributária; ampliar captação em projetos sociais e culturais | Sustentabilidade financeira; maior atuação de fundações; cursos pagos e parcerias privadas |
| Gestão | Participação ampliada de docentes, estudantes e funcionários; modernização administrativa | Governança por projetos; criação de Escritório de Desenvolvimento do Ensino e da Aprendizagem | Gestão ágil e transparente; desburocratização e descentralização de decisões |
| Carreira e servidores | Mentoria e acolhimento a novos docentes; valorização docente e técnica | Progressão previsível de carreira; capacitação contínua de docentes e servidores | Revisão de regimes de trabalho; incentivos para atividades noturnas; benefícios adicionais |
| Permanência estudantil/ Crusp | Ampliação da assistência e saúde mental; infraestrutura de permanência | Retomar reforma do Crusp, abandonada após bloco D; selo “Moradia Estudantil Digna” para parcerias privadas | Menos foco específico em moradia; propostas gerais de melhoria de infraestrutura |
| Inovação e sociedade | Programa Probase de pesquisa e inovação; uso responsável de IA | Incentivo a empreendedorismo e internacionalização; fortalecimento da extensão | Inserção de PMEs no ecossistema de inovação; fortalecimento de fundações de apoio |
























