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O título – O Uso da Foto – e a capa protagonizada por roupas jogadas afobadamente pelo chão enganam à primeira vista. Pois o novo livro de Annie Ernaux publicado no Brasil, escrito ao lado de seu então parceiro, fala também de um diagnóstico de câncer. Mas, ao final da leitura, eu diria que não, o livro não engana nada nem ninguém. Nós é que estávamos enganados.
Em 2003, a escritora francesa que seria laureada com o Prêmio Nobel de Literatura de 2022 iniciava o tratamento de um câncer de mama. No mesmo período, pois a vida tem dessas sincronias, conheceu o fotógrafo e jornalista Marc Marie (1962-2022), com quem passou a ter um relacionamento.
É desse encontro entre uma mulher com mais de 60 anos e um homem 22 anos mais novo, de uma autora já reconhecida que anuncia, em meio a um jantar com seu futuro namorado, estar enfrentando a via crúcis oncológica, que nascem os registros e as reflexões de O Uso da Foto, recém-publicado pela Editora Fósforo.
Pois Ernaux e Marie fizeram um pacto: fotografar o rastro deixado pela ânsia sexual, materializado pelas roupas lançadas pelo piso e os móveis, e produzir, cada qual no seu canto, numa espécie de experimento duplo-cego, textos evocando aqueles momentos fugazes – momentos de quem tem pressa de viver, pressa de gozar.

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Se as fotos escancaram os instintos do casal, a prosa alternada sustenta a crueza e a delicadeza dos que se entregam e, com as páginas da experiência viradas, tentam reconstruir o clima, os movimentos e o ambiente, o filme que foi gravado enfim revelado.
Até aí, parecem ser só mais dois apaixonados brincando com fogo, aquele que alimenta a libido e a criação, um sublimando o outro (e vice-versa). Mas há a sombra de um câncer na alcova. Uma sombra que não encobre nem atrapalha A. e M., como eles se referem e se despem um ao outro no livro.
Uma sombra que assusta ou atormenta o leitor leigo ou virgem em matéria de câncer, mas não a mulher usando peruca, ostentando uma cicatriz no peito e as marcas da radioterapia e vestindo tubos que lhe administram a quimioterapia. Não a dama da autoficção, que completou há pouco mais de um mês 85 anos.
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E eles transam, a despeito do câncer. E nisso subvertem a doença e o imaginário sobre a doença. De um jeito natural, sem pose nem pregação. Porque, embora o corpo de Annie Ernaux tenha sido o “palco de operações violentas” – ela não nega nem diminui a odisseia -, a vida continua, a despeito do câncer.
Nada me aterrorizava. Cumpri minha tarefa de paciente de câncer com dedicação e via tudo isso que acontecia com meu corpo como uma experiência. [Me pergunto se isto que faço, não separar a vida da escrita, não consiste em transformar a experiência em descrição.]
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Eis seu diagnóstico, na tradução de Mariana Delfini.
Ela tinha desejo. Ele também. Ela tinha energia. Ele também. E a coisa acontece. A despeito do câncer.
Eu podia falar das sincronias nos textos dos amantes ou das descrições meticulosas de seus calçados e peças de roupa, inclusive íntimas. Mas o modo como eles tratam o câncer, não escondo, foi o que me pegou.
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Pois mostram que há sexo após o diagnóstico de um câncer. Ela e ele, ele e ela, e, de repente, a doença nem existe mais, porque só há o gozo, suas lembranças, suas imagens.
Sim, fui eu que me enganei. Porque o título e as fotos da capa do livro de Annie Ernaux e Marc Marie também podem falar de câncer. Se a doença faz parte da vida, por que não poderia estar ali, nem que seja nas entrelinhas e nas sombras? Nem que seja para ser tolerada e apagada por uma mulher e um homem que, na hora agá, tinham outras coisas no que pensar e tocar.

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O título – O Uso da Foto – e a capa protagonizada por roupas jogadas afobadamente pelo chão enganam à primeira vista. Pois o novo livro de Annie Ernaux publicado no Brasil, escrito ao lado de seu então parceiro, fala também de um diagnóstico de câncer. Mas, ao final da leitura, eu diria que não, o livro não engana nada nem ninguém. Nós é que estávamos enganados.
Em 2003, a escritora francesa que seria laureada com o Prêmio Nobel de Literatura de 2022 iniciava o tratamento de um câncer de mama. No mesmo período, pois a vida tem dessas sincronias, conheceu o fotógrafo e jornalista Marc Marie (1962-2022), com quem passou a ter um relacionamento.
É desse encontro entre uma mulher com mais de 60 anos e um homem 22 anos mais novo, de uma autora já reconhecida que anuncia, em meio a um jantar com seu futuro namorado, estar enfrentando a via crúcis oncológica, que nascem os registros e as reflexões de O Uso da Foto, recém-publicado pela Editora Fósforo.
Pois Ernaux e Marie fizeram um pacto: fotografar o rastro deixado pela ânsia sexual, materializado pelas roupas lançadas pelo piso e os móveis, e produzir, cada qual no seu canto, numa espécie de experimento duplo-cego, textos evocando aqueles momentos fugazes – momentos de quem tem pressa de viver, pressa de gozar.

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Até aí, parecem ser só mais dois apaixonados brincando com fogo, aquele que alimenta a libido e a criação, um sublimando o outro (e vice-versa). Mas há a sombra de um câncer na alcova. Uma sombra que não encobre nem atrapalha A. e M., como eles se referem e se despem um ao outro no livro.
Uma sombra que assusta ou atormenta o leitor leigo ou virgem em matéria de câncer, mas não a mulher usando peruca, ostentando uma cicatriz no peito e as marcas da radioterapia e vestindo tubos que lhe administram a quimioterapia. Não a dama da autoficção, que completou há pouco mais de um mês 85 anos.
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E eles transam, a despeito do câncer. E nisso subvertem a doença e o imaginário sobre a doença. De um jeito natural, sem pose nem pregação. Porque, embora o corpo de Annie Ernaux tenha sido o “palco de operações violentas” – ela não nega nem diminui a odisseia -, a vida continua, a despeito do câncer.
Nada me aterrorizava. Cumpri minha tarefa de paciente de câncer com dedicação e via tudo isso que acontecia com meu corpo como uma experiência. [Me pergunto se isto que faço, não separar a vida da escrita, não consiste em transformar a experiência em descrição.]
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Eis seu diagnóstico, na tradução de Mariana Delfini.
Ela tinha desejo. Ele também. Ela tinha energia. Ele também. E a coisa acontece. A despeito do câncer.
Eu podia falar das sincronias nos textos dos amantes ou das descrições meticulosas de seus calçados e peças de roupa, inclusive íntimas. Mas o modo como eles tratam o câncer, não escondo, foi o que me pegou.
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Sim, fui eu que me enganei. Porque o título e as fotos da capa do livro de Annie Ernaux e Marc Marie também podem falar de câncer. Se a doença faz parte da vida, por que não poderia estar ali, nem que seja nas entrelinhas e nas sombras? Nem que seja para ser tolerada e apagada por uma mulher e um homem que, na hora agá, tinham outras coisas no que pensar e tocar.

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